terça-feira, maio 26, 2026

O Jogo do Predador


O Jogo do Predador não é aquele tipo de filme que vai revolucionar o cinema ou entrar facilmente em listas de melhores do ano, mas funciona muito bem como entretenimento. É o famoso filme “bom pra passar o tempo”, só que daqueles que conseguem prender a atenção até o final graças ao ritmo, às reviravoltas e principalmente ao clima constante de tensão.

Talvez por eu andar assistindo muita coisa relacionada a arqueologia, civilizações antigas e aventuras em ambientes isolados, o cenário do filme acabou me pegando mais do que eu imaginava. Mesmo não tendo nada diretamente ligado a exploração arqueológica, toda a ambientação na selva, o isolamento e a sensação de território desconhecido lembram bastante aquele clima clássico de expedição, tribos antigas e sobrevivência no meio do nada.

E falando em sobrevivência… as cenas finais de escalada são simplesmente desesperadoras para qualquer pessoa que tenha ansiedade. Sério. Existe uma sensação constante de perigo iminente, e o filme consegue transmitir muito bem aquela ideia de que qualquer pequeno erro pode acabar em tragédia. Foi uma das partes que mais me deixou tenso durante a sessão.

Outra coisa que ajuda bastante é o elenco. Charlize Theron continua sendo uma atriz extremamente forte em praticamente qualquer papel que pega, e aqui novamente segura muito bem a tensão emocional do filme. Já Taron Egerton prova mais uma vez que é um ator muito competente, principalmente em filmes que exigem intensidade física e emocional ao mesmo tempo.

O roteiro também acerta em algo importante, o que diz respeito às reviravoltas. O filme vai mudando de direção várias vezes sem parecer completamente perdido, o que ajuda bastante a manter o interesse mesmo quando a história entra em territórios mais absurdos.

No geral, O Jogo do Predador é aquele suspense de sobrevivência que talvez não seja memorável daqui alguns anos, mas entrega exatamente o que promete como tensão, aventura, emoção e um clima constante de perigo. E honestamente? Às vezes isso já é mais do que suficiente pra render uma boa noite de filme.

domingo, maio 24, 2026

Socorro - Analise do Filme


Socorro foi um daqueles filmes que me fizeram terminar os créditos olhando pra tela em silêncio tentando entender o que eu tinha acabado de assistir. Sério. Minha reação durante boa parte do filme foi literalmente: “meu Deus… o que é isso?”. Porque ele começa de um jeito relativamente comum, quase parecendo uma comédia romântica mais convencional, mas aos poucos vai se transformando numa espiral absurda de manipulação, tensão psicológica e reviravoltas que vão desmontando completamente qualquer expectativa inicial.

E talvez o mais desconfortável seja justamente isso, o filme não entrega uma sensação de justiça, muito pelo contrário. Com alerta máximo de spoiler, o vilão vence. E vence de todas as formas possíveis. Não existe catarse, não existe aquele momento clássico de alívio moral que muitos thrillers costumam entregar no final. O que sobra é um sentimento estranho de impotência, quase como se o filme estivesse esfregando na sua cara que o mundo real nem sempre recompensa pessoas boas.

A moral que ficou na minha cabeça depois dos créditos foi quase brutal na simplicidade, "proteja a si mesmo custe o que custar". Porque o filme trabalha muito com egoísmo, manipulação emocional, sobrevivência psicológica e jogos mentais entre os protagonistas. E talvez por estar lendo bastante sobre estoicismo, ansiedade, narcisismo e comportamento humano ultimamente, a experiência acabou batendo ainda mais forte.

O mais curioso é que, olhando superficialmente, muita gente talvez espere um filme mais leve ou até algo puxado para romance ou drama psicológico tradicional. Só que "Socorro" tem muito pouco de romantismo de verdade. O relacionamento entre os protagonistas vira praticamente um campo de batalha emocional, no qual cada conversa parece esconder alguma segunda intenção e cada reviravolta deixa a situação ainda mais desconfortável.

E é exatamente isso que fez o filme funcionar tão bem pra mim. Ele consegue sair completamente do caminho esperado e desandar para algo quase perturbador sem precisar depender de sustos baratos ou violência exagerada (eu tive sim alguns sustos). O desconforto vem das atitudes, das escolhas e principalmente da percepção de que algumas pessoas simplesmente atravessam qualquer limite para vencer.

Quando terminou, fiquei alguns minutos parado pensando: “como é que eu vou conseguir escrever uma resenha sobre isso?”

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quarta-feira, maio 20, 2026

A Guerra dos Mundos - HG Wells - Livro

Terminei A Guerra dos Mundos com sentimentos bem divididos. Existe uma ideia brilhante aqui, algo extremamente importante para a ficção científica e que claramente influenciou praticamente tudo que veio depois envolvendo invasões alienígenas. Só que, ao mesmo tempo, como experiência de leitura, o livro me decepcionou bastante em vários momentos. E talvez o mais polêmico seja justamente isso, achei tanto o filme de 1953 quanto a versão com Tom Cruise superiores ao livro. E sinceramente, o filme moderno é infinitamente mais envolvente que a obra original.

O livro tem momentos muito fortes, principalmente quando mostra a sensação de impotência humana diante dos marcianos, mas sofre demais com o excesso de descrição e com uma narrativa que frequentemente parece andar em círculos. Existe uma obsessão enorme do autor em detalhar cidades, territórios, regiões próximas de Londres e descrições geográficas que muitas vezes quebram completamente o ritmo da história. Ele cita um milhão de bairros, regiões e cidades que não fazem muito sentido pra quem nunca foi à Inglaterra. Em vários capítulos parece menos uma narrativa de invasão alienígena e mais uma aula de localização territorial da Inglaterra.

E isso se repete também nas descrições dos próprios marcianos. Claro, é interessante ver H. G. Wells imaginando seres extraterrestres de uma forma tão diferente para a época, mas em alguns momentos a explicação entra num nível tão detalhado de anatomia e fisiologia que parece literalmente uma aula científica. Existe mérito nisso, principalmente considerando o período em que o livro foi escrito, mas para o leitor moderno acaba ficando cansativo.

Outro ponto que me incomodou bastante foi toda a parte envolvendo o narrador e o padre. A convivência dos dois rende capítulos demais para algo que, sinceramente, parece não levar a história para frente. O protagonista passa muito tempo praticamente parado, discutindo sobrevivência, desespero e comportamento humano enquanto a invasão marciana, que deveria ser o foco principal, fica quase em segundo plano. Dá uma sensação constante de enrolação. 

E talvez isso explique parte da minha frustração com o autor. Esse já é o segundo livro de Wells que leio em sequência e novamente fico com a impressão de que as adaptações cinematográficas conseguem pegar a essência da ideia e transformá-la em algo mais interessante do que a própria obra original. Foi exatamente a sensação que tive com A Máquina do Tempo também.

Ainda tenho outros livros dele aqui, como A Ilha do Dr. Moreau e O Homem Invisível, mas confesso que agora já vou preparado psicologicamente, sabendo exatamente o estilo que devo encontrar. Mas aí aconteceu algo interessante.

Quase no final do livro existe uma conversa entre o narrador e um soldado sobrevivente, conhecido como o homem da colina, e ali sim a obra cresce absurdamente. Talvez seja o melhor capítulo do livro. Pela primeira vez, a história para de apenas mostrar fuga e destruição e começa realmente a discutir o impacto da invasão na humanidade.

O soldado acredita que os marcianos não vieram exterminar os humanos, mas dominar o planeta para viver aqui permanentemente, preparando a Terra para a chegada de outros de sua espécie. E diante disso, ele imagina um futuro completamente distorcido, onde parte da humanidade aceitaria viver em gaiolas em troca de comida, quase como animais domesticados dos marcianos. E o pior é que, dentro daquele contexto de destruição total, a ideia nem parece tão absurda assim.

Ao mesmo tempo, ele também fala sobre os humanos que recusariam essa submissão e passariam a viver escondidos nos esgotos, sobrevivendo nas sombras enquanto os marcianos dominariam a superfície. E lendo isso, foi impossível não lembrar imediatamente dos Morlocks de A Máquina do Tempo, também do Wells. Parece quase uma semente da ideia distópica que ele desenvolveria depois. A titulo de curiosidade, "A Maquina do Tempo" foi escrito em 1895 e "A Guerra dos Mundos", escrito em 1898.

Até chegar nesse capítulo, eu ainda achava os filmes claramente superiores ao livro. Depois dele, honestamente? Ficou pau a pau. Porque esse tipo de discussão filosófica, social e psicológica é algo que o cinema dificilmente conseguiria aprofundar da mesma forma. É exatamente aqui que a literatura mostra sua força. 

E então chegamos ao final clássico da história. Os marcianos simplesmente param. As máquinas deixam de se mover e aos poucos descobrimos que eles morreram vítimas de bactérias e doenças terrestres, algo para o qual seus organismos não tinham qualquer defesa imunológica. E existe uma frase do próprio livro que resume perfeitamente isso tudo:

Massacrados por uma doença bacteriana pútrida, contra a qual o sistema deles não estava preparado… exterminados por um dos seres mais humildes que Deus, em sua sabedoria, pôs na Terra.

Frase Genial! Inclusive, essa frase praticamente atravessou gerações e acabou sendo usada também nas adaptações cinematográficas.

A Guerra dos Mundos é um livro extremamente importante para a história da ficção científica, disso não existe dúvida. A questão é que importância histórica nem sempre significa uma leitura envolvente para todos os leitores modernos. Existe uma ideia brilhante aqui, momentos realmente marcantes e discussões muito interessantes, mas também existe uma narrativa excessivamente descritiva e lenta que pode afastar muita gente no caminho.

E talvez a maior qualidade de Wells seja justamente essa, criar conceitos tão fortes que, mesmo quando os livros não me conquistam completamente, ainda assim continuam gerando filmes, debates e histórias fascinantes mais de cem anos depois.

domingo, maio 17, 2026

Demolidor Renascido Segunda Temporada


Demolidor: Renascido - segunda temporada transforma a série na melhor produção da Marvel

A segunda temporada de Demolidor: Renascido consegue algo que parecia difícil hoje em dia, superar uma primeira temporada que já era muito boa e elevar a série para outro nível. E não é exagero falar isso, a sensação assistindo aos episódios é de que finalmente a Marvel entendeu quem o Demolidor precisa ser no audiovisual.

Tudo aqui parece mais intenso, mais violento, mais dramático e mais seguro da própria identidade. A série abraça de vez aquele clima urbano, pesado e brutal que sempre funcionou nos quadrinhos do personagem, sem medo de mostrar sangue, violência física, sofrimento psicológico e personagens moralmente quebrados. Em vários momentos até parece estranho lembrar que isso faz parte do mesmo universo da Disney, porque o tom aqui é completamente diferente do padrão mais leve que a Marvel adotou nos últimos anos. E talvez seja justamente isso que faz funcionar tão bem.

O Demolidor sempre foi um herói mais humano, mais vulnerável e mais próximo do drama policial do que do espetáculo cósmico cheio de piadas, e essa temporada entende isso perfeitamente. O uniforme preto ajuda bastante nessa identidade mais sombria e passa uma sensação quase de vigilante desesperado, alguém cada vez mais consumido pelo próprio mundo ao redor.

Outro detalhe importante é a participação de Brian Michael Bendis na produção, e isso fica evidente o tempo inteiro. Existe uma atmosfera muito parecida com as HQs mais clássicas do personagem, principalmente na forma como os diálogos, os conflitos e o peso emocional das cenas são construídos. Em vários episódios a sensação é literalmente de estar vendo uma HQ do Demolidor ganhar vida. E o elenco ajuda demais nisso.

Matt Murdock continua funcionando muito bem como protagonista, mantendo aquele lado dividido entre culpa, justiça e autodestruição, enquanto ao mesmo tempo segue sendo o eterno “garanhão”, algo que praticamente virou marca registrada do personagem. Já Karen Page continua roubando atenção sempre que aparece. E sim… continua linda.

Mas o verdadeiro coração sombrio da série continua sendo Wilson Fisk. O Rei do Crime talvez seja hoje o melhor vilão que a Marvel já construiu em séries. Ele domina qualquer cena em que aparece, mistura inteligência, brutalidade e manipulação de um jeito absurdo, além de passar aquela sensação constante de ameaça mesmo quando está apenas conversando.

E ainda assim, mesmo com Fisk gigantesco na história, quem rouba completamente a cena em vários momentos é o Bullseye. Que personagem sensacional. Violento, imprevisível, cruel e completamente caótico. Toda vez que ele aparece, a série sobe de nível instantaneamente. Tem momentos em que você simplesmente começa a torcer pelo vilão de tão absurdo que ele é em cena. É impossível não ficar preso nas participações dele.

A segunda temporada também acerta ao abraçar de vez o antigo universo das séries da Netflix. A volta de Jessica Jones funciona muito bem e ajuda a reforçar ainda mais esse clima de continuidade que os fãs queriam há anos. E o pequeno momento envolvendo Luke Cage no final deixa aquela sensação de que esse universo ainda tem muita coisa boa para mostrar.

E sobre o último episódio, cheio de reviravoltas, tensão e decisões pesadas, reforçando tudo que a temporada construiu até ali. Não parece só uma série de super-herói, parece um grande drama policial adulto, brutal e emocionalmente carregado, que por acaso acontece dentro do universo Marvel.

A segunda temporada de Demolidor: Renascido não apenas manteve a qualidade da série, mas elevou tudo. Hoje, olhando para todas as produções recentes da Marvel, fica difícil encontrar algo que chegue perto do nível que o Demolidor alcançou aqui. E talvez o maior elogio possível seja justamente esse, assistir à série hoje parece menos acompanhar um produto da Marvel e mais sentir que você está folheando uma grande HQ viva do personagem.

Todos os episodios da primeira e da segunda temporada de Demolidor Renascido estão disponíveis no Disney Plus.


quinta-feira, maio 14, 2026

Justiceiro One Last Kill


Violência pura e a essência definitiva do personagem, Justiceiro: One Last Kill é brutal. E talvez essa seja a única palavra capaz de resumir o que esse especial entrega. Brutal na violência, brutal no ritmo, brutal na forma como entende perfeitamente quem é o Justiceiro.

Em pouco mais de 45 minutos, a produção consegue fazer algo que muitas séries inteiras não conseguem, capturar completamente a essência do personagem. Aqui não existe espaço para humor forçado, piadinha Marvel ou alívio cômico, é tiro, sangue, vingança e justiça da forma mais crua possível.

E sinceramente, chega a ser surpreendente ver algo assim sendo lançado dentro da Disney. Em vários momentos parece impossível acreditar que aprovaram um material tão pesado visualmente, porque o especial não suaviza nada. A violência é seca, direta e desconfortável, exatamente como uma história do Justiceiro deveria ser.

Mas tudo isso só funciona porque Jon Bernthal está absurdo no papel. Não parece um ator interpretando o personagem, parece o próprio Justiceiro saindo direto das HQs. O olhar cansado, a raiva acumulada, a brutalidade explosiva, Bernthal simplesmente encarnou o personagem de um jeito que hoje parece impossível imaginar outra versão competindo com essa.

E o mais impressionante é que a história nem tenta ser complexa, e nem precisa. O especial entende que o Justiceiro funciona justamente nessa simplicidade violenta, naquele sentimento constante de tensão e inevitabilidade, como se toda cena estivesse a poucos segundos de explodir em sangue e caos.

O resultado é algo extremamente intenso, ao ponto de terminar e deixar aquela sensação física de adrenalina, quase como se você tivesse passado os últimos 45 minutos segurando a respiração.

Justiceiro: One Last Kill talvez seja o material mais fiel ao personagem já feito no audiovisual. Não tenta reinventar Frank Castle, não tenta suavizar sua violência e nem transformar o personagem em algo mais “aceitável”. Apenas entrega o Justiceiro exatamente como ele deve ser. E depois de assistir, fica impossível não querer mais.

Justiceiro One Last Kill está disponivel no Disney Plus.

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segunda-feira, maio 11, 2026

A Guerra Dos Mundos - 1953


Um clássico da ficção científica.

Assistir Guerra dos Mundos hoje é quase como abrir uma cápsula do tempo do cinema de ficção científica. Dá pra perceber claramente a influência que esse filme teve em praticamente tudo que veio depois envolvendo invasões alienígenas, inclusive na versão estrelada por Tom Cruise décadas mais tarde.

A primeira grande diferença está justamente nos invasores. Aqui não existem os famosos tripods andando pelas cidades. As máquinas marcianas sobrevoam tudo, quase como naves flutuantes, o que muda bastante a estética da invasão, mas ainda funciona muito bem dentro da proposta da época.

E tem algo interessante nisso tudo, o filme não perde muito tempo enrolando. Com cerca de 1h25min, ele vai direto ao ponto, mostrando rapidamente o caos causado pelos marcianos e a impotência da humanidade diante da tecnologia alienígena. Inclusive, uma das cenas mais marcantes envolve justamente o uso de uma bomba atômica contra os invasores e simplesmente não acontece nada. É um momento que reforça bem essa sensação de desespero total.

Claro que o filme tem algumas coisas típicas da época, principalmente o romance colocado no meio da história, aquele “romancizinho” clássico que às vezes quebra um pouco o ritmo, mas sinceramente, nada que atrapalhe tanto assim, dá pra aceitar dentro da proposta do cinema dos anos 50.

Também fica muito evidente o quanto a adaptação com Tom Cruise bebeu dessa versão antiga. Existe uma cena praticamente no mesmo espírito, com um marciano invadindo uma casa onde os protagonistas estão escondidos, criando aquela tensão claustrofóbica que funciona muito bem nas duas versões.

Já os marcianos em si são bem estranhos visualmente. Dá pra notar um design meio curioso, até lembrando um pouco o E.T. de Steven Spielberg, ainda que só vagamente. São criaturas com aquele visual clássico de ficção científica antiga, simples, estranhos mas marcantes.

O final também chama atenção pela rapidez. Tudo se resolve de forma muito direta, algo que imediatamente lembra a versão moderna com Tom Cruise, e sinceramente, acredito que o livro original de H. G. Wells deva seguir um caminho parecido, embora eu ainda esteja terminando a leitura e prefira não entrar nisso agora.

E existe ainda um charme involuntário nessa experiência toda, assistir uma versão dublada antiga, com poucos dubladores fazendo várias vozes diferentes, dá quase uma sensação de sessão da tarde perdida no tempo. No meu caso foi ainda mais aleatório, porque precisei assistir em um site russo extremamente duvidoso, já que o filme simplesmente não estava disponível nos streamings nem no YouTube.

A Guerra dos Mundos de 1953 continua funcionando justamente por aquilo que os clássicos fazem de melhor, criar atmosfera. Mesmo com efeitos datados, soluções simples e algumas limitações óbvias da época, o filme ainda consegue passar aquela sensação de ameaça global e medo do desconhecido que fazem da ficção científica algo tão fascinante até hoje.

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sexta-feira, maio 08, 2026

Diario De Um Bebado

O pior do álcool nunca foi a ressaca.

Não era a dor de cabeça.
Não era o enjoo.
Não era acordar no outro dia jurando que nunca mais beberia.

O pior do álcool era a anestesia.
Demorei quase quarenta anos pra entender isso.

A bebida nunca resolveu nada na minha vida. Nunca pagou minhas contas, nunca curou minha ansiedade, nunca salvou meus relacionamentos e muito menos consertou minha cabeça. Ela só desligava tudo por algumas horas. Era como apertar um botão de pausa no mundo.
E eu gostava disso.

Gostava dos bares cheios, das conversas altas, das risadas exageradas, da sensação de pertencer a algum lugar. Gostava daquela falsa impressão de liberdade que aparece depois de algumas cervejas, quando parece que a vida finalmente ficou leve.

Mas ela nunca ficava.
No outro dia, tudo continuava lá.
Os problemas. As dívidas. A ansiedade. O vazio.

As mensagens que eu não deveria ter mandado.
O dinheiro que eu não deveria ter gastado.
O tempo perdido.

Talvez o pior seja perceber que o álcool vai roubando coisas pequenas sem você notar. Primeiro ele rouba suas noites. Depois sua disposição. Sua disciplina. Sua autoestima. Quando você percebe, começa a roubar até a forma como você enxerga a si mesmo.

Existe uma versão minha que aparece quando eu bebo e eu não gosto dela.

Ela fala demais. Gasta demais. Perde o controle. Procura distrações vazias. Tem pensamentos ruins. Age sem filtro. E sempre deixa a conta pro dia seguinte.
E o mais assustador é que durante muito tempo eu achei normal viver assim.

Hoje, olhando pra trás, vejo quantas vezes sentei em um bar sem nem querer estar lá. Eu só não sabia mais o que fazer comigo mesmo. O bar virou rotina. Virou fuga. Virou uma forma de preencher silêncios que eu não conseguia encarar sóbrio.

Só que uma hora cansa. Cansa acordar mal. Cansa perder tempo. Cansa gastar dinheiro tentando esquecer coisas que continuam dentro da gente. Cansa perceber que enquanto sua vida afunda, o relógio continua andando.

Nas últimas semanas, comecei a mudar algumas coisas. Voltei a fazer exercícios. Caminhar. Ler. Comer melhor. Beber água ao invés de cerveja. Parece pouco, mas não é.

Meu corpo começou a responder. Minha mente começou a desacelerar. A ansiedade diminuiu. E pela primeira vez em muito tempo, comecei a gostar da minha rotina sóbrio.

Ainda não é perfeito. Tem dias difíceis. Tem vontade de beber. Tem recaídas. Tem noites em que o vazio aparece do mesmo jeito. Mas existe uma diferença enorme agora

Eu não quero mais fugir disso.

Talvez eu nunca consiga ser aquele cara que bebe socialmente sem ultrapassar limites. Talvez eu precise aceitar isso. E sinceramente? Tudo bem.

Porque hoje eu entendi uma coisa importante
Eu gosto mais de quem eu sou quando estou sóbrio.


sexta-feira, maio 01, 2026

A Vida de Chuck


Um filme sobre o fim, que na verdade é sobre viver.

A Vida de Chuck é um daqueles filmes que começam de um jeito estranho, quase monótono, e que você acha que já entendeu o ritmo, até perceber que não entendeu nada. E quando ele encaixa, vira outro filme completamente diferente. Esse texto contém spoilers.

O filme começa pelo fim. Não o fim da história, mas o fim da vida do Chuck, e tudo parece grande demais, com o mundo colapsando, caos acontecendo, como se fosse um apocalipse, mas aos poucos você percebe que aquilo não é o mundo acabando, é a mente dele se apagando, é a vida dele chegando ao fim, e isso muda completamente a forma como você enxerga tudo que está acontecendo ali.

Depois disso, o filme volta no tempo, mostrando o meio da vida e depois o começo, infância, adolescência, e vai reconstruindo quem ele foi, como ele viveu, o que ele sentiu, e tudo começa a fazer sentido de um jeito muito natural, sem precisar explicar demais, só deixando você ligar os pontos.

E aí vem o que, pra mim, é o coração do filme: a ideia de que viver importa justamente porque ela acaba. Não é sobre grandes feitos, nem sobre algo extraordinário, é sobre viver mesmo, aproveitar, sentir, porque em algum momento isso vai terminar, e a gente nunca sabe quando.

O filme também traz uma ideia muito forte de que as pessoas não são uma coisa só, que dentro de cada pessoa existem várias versões, várias influências, várias “multidões”, como se cada pessoa que passou pela nossa vida deixasse um pedaço ali dentro, e nós fossemos formado por tudo isso.

E talvez por isso o filme funcione tão bem. Porque ele começa parecendo distante, quase frio, e termina sendo extremamente pessoal. Você não sai pensando só no Chuck, você sai pensando em você, se está vivendo de verdade ou só passando o tempo, esperando as coisas acontecerem. 

A Vida de Chuck me surpreendeu. Achei que seria um filme arrastado, mas ele cresce, encaixa e entrega algo muito maior do que parecia no começo. Não é um filme sobre morte. É um filme sobre vida. E sobre como a gente escolhe viver enquanto ainda tem tempo.

Pra finalizar, vale destacar também que A Vida de Chuck é baseado em uma obra de Stephen King, e isso por si só já chama atenção, principalmente por fugir bastante daquilo que muita gente espera do autor, aqui longe do terror mais explícito e muito mais focado em reflexão e emoção. E talvez justamente por esse tom mais sensível e contemplativo, o filme tenha todas as características típicas de produções que costumam aparecer nas premiações, com narrativa diferente, carga emocional forte e uma proposta mais autoral. Por isso mesmo, surpreende o fato de não ter recebido nenhuma indicação ao Oscar, porque é exatamente o tipo de filme que normalmente encontra espaço ali.

A Vida de Chuck está disponivel na Amazon Prime.

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