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sexta-feira, maio 08, 2026

Diario De Um Bebado

O pior do álcool nunca foi a ressaca.

Não era a dor de cabeça.
Não era o enjoo.
Não era acordar no outro dia jurando que nunca mais beberia.

O pior do álcool era a anestesia.
Demorei quase quarenta anos pra entender isso.

A bebida nunca resolveu nada na minha vida. Nunca pagou minhas contas, nunca curou minha ansiedade, nunca salvou meus relacionamentos e muito menos consertou minha cabeça. Ela só desligava tudo por algumas horas. Era como apertar um botão de pausa no mundo.
E eu gostava disso.

Gostava dos bares cheios, das conversas altas, das risadas exageradas, da sensação de pertencer a algum lugar. Gostava daquela falsa impressão de liberdade que aparece depois de algumas cervejas, quando parece que a vida finalmente ficou leve.

Mas ela nunca ficava.
No outro dia, tudo continuava lá.
Os problemas. As dívidas. A ansiedade. O vazio.

As mensagens que eu não deveria ter mandado.
O dinheiro que eu não deveria ter gastado.
O tempo perdido.

Talvez o pior seja perceber que o álcool vai roubando coisas pequenas sem você notar. Primeiro ele rouba suas noites. Depois sua disposição. Sua disciplina. Sua autoestima. Quando você percebe, começa a roubar até a forma como você enxerga a si mesmo.

Existe uma versão minha que aparece quando eu bebo e eu não gosto dela.

Ela fala demais. Gasta demais. Perde o controle. Procura distrações vazias. Tem pensamentos ruins. Age sem filtro. E sempre deixa a conta pro dia seguinte.
E o mais assustador é que durante muito tempo eu achei normal viver assim.

Hoje, olhando pra trás, vejo quantas vezes sentei em um bar sem nem querer estar lá. Eu só não sabia mais o que fazer comigo mesmo. O bar virou rotina. Virou fuga. Virou uma forma de preencher silêncios que eu não conseguia encarar sóbrio.

Só que uma hora cansa. Cansa acordar mal. Cansa perder tempo. Cansa gastar dinheiro tentando esquecer coisas que continuam dentro da gente. Cansa perceber que enquanto sua vida afunda, o relógio continua andando.

Nas últimas semanas, comecei a mudar algumas coisas. Voltei a fazer exercícios. Caminhar. Ler. Comer melhor. Beber água ao invés de cerveja. Parece pouco, mas não é.

Meu corpo começou a responder. Minha mente começou a desacelerar. A ansiedade diminuiu. E pela primeira vez em muito tempo, comecei a gostar da minha rotina sóbrio.

Ainda não é perfeito. Tem dias difíceis. Tem vontade de beber. Tem recaídas. Tem noites em que o vazio aparece do mesmo jeito. Mas existe uma diferença enorme agora

Eu não quero mais fugir disso.

Talvez eu nunca consiga ser aquele cara que bebe socialmente sem ultrapassar limites. Talvez eu precise aceitar isso. E sinceramente? Tudo bem.

Porque hoje eu entendi uma coisa importante
Eu gosto mais de quem eu sou quando estou sóbrio.


terça-feira, março 10, 2026

Encontros Aleatorios


Outro dia aconteceu uma coisa curiosa. Essa historia vai para o Crônicas do Praia.

Eu estava caminhando tranquilamente, fingindo que minha vida estava absolutamente organizada, quando vi duas figuras conhecidas passando. Fiz o que qualquer adulto emocionalmente equilibrado faria. Olhei para o outro lado como se estivesse profundamente interessado numa árvore.

Funcionou por aproximadamente três segundos.
Logo ouvi alguém me chamar. Era ela. A irmã.

Existe um tipo específico de pessoa que tem o talento raro de falar com você como se vocês estivessem conversado ontem, mesmo que tenham se passado meses. Ela é assim. Em poucos segundos já estava brincando comigo, perguntando da vida, comentando que eu estava comportado demais por não estar bebendo.

Eu, claro, respondi com a dignidade de quem está completamente tranquilo por dentro, o que significa que provavelmente falei alguma bobagem.

Depois, no meio do show poucos minutos mais tarde, aquela típica movimentação de gente indo para perto do palco. Eu estava ali atrás, na minha confortável posição de observador profissional da vida alheia, quando ela virou e disse algo do tipo: “vem também”.

E eu fui.

Não porque eu sou uma pessoa facilmente influenciável, mas porque às vezes a vida precisa de pequenos empurrões. Conversamos um pouco, rimos de coisas aleatórias e cada um seguiu seu caminho. Nada demais, nenhum acontecimento histórico, nenhuma grande reviravolta.

Mas tem encontros que são assim mesmo, pequenos e simples
E ainda assim conseguem melhorar um fim de semana inteiro.

Curioso como algumas pessoas entram numa conversa sem fazer esforço nenhum… e deixam um certo eco no resto da semana. Provavelmente é só impressão minha? Acho que não!

Ou talvez seja só mais uma daquelas histórias que acontecem quando a gente menos espera, no meio de uma caminhada, perto de um palco, fingindo olhar para uma árvore.


quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Taxas, Algoritmos e Liberdade


Final de tarde, mês com muita chuva, em uma cidade do interior. 

O dia não foi dos melhores mas uma sensação de liberdade e felicidade corre nas veias durante todo dia. Um sensação sem explicação, não de derrota mas de dever cumprido.

É meu ultimo dia de delivery. Não é exagero, nem drama. É o ultimo mesmo, finalmente estou na fase de transição, de fechamento dessa merda para algo que realmente vai me dar satisfação e dinheiro.

O problema nunca foi trabalhar, eu sempre trabalhei. O trabalho não assusta, mas o que cansa é depender de ferramentas que estao alem do nosso controle, é depender de empresas/apps que decidem o seu destino enquanto você só reage.

Ultimo dia, atendimento finalizado, chega de validações de clientes, chega de reclamação de brócolis, ou que as ervilhas eram de lata e não retiradas direto do pé. Chega de justificativa por atraso que não foi meu, chega de desconto automático, chega de golpe pelo Instagram, com gente querendo comida de graça o tempo todo. Chega disso tudo, acabou.

A cozinha está silenciosa. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não pesa. Ele alivia. E agora vem a parte mais prazerosa do dia. O meu sonho será realizado nesse momento. Sonhei, imaginei, escrevi sobre e finalmente chegou o grande dia: entrar no app do ifood, no gerenciador da loja, abrir chamado e solicitar o cancelado do delivery dentro da plataforma. Repito, não sabe como sonhei com esse dia e finalmente ele chegou. É o momento máximo dessa transição profissional e graças a Deus, esse dia chegou. Não foi fácil chegar aqui com sanidade mas finalmente chegou. Não foi simples, não foi rápido, não foi confortável.

Abrir o aplicativo.
Entrar no gerenciador da loja.
Procurar a opção de suporte.
Abrir um chamado.
Solicitar o cancelamento.

Aquele suspiro, ao mesmo tempo um frio na barriga, meu Deus, está acontecendo. Atendente virtual. Não vou poder xingar ninguém, pensei.... Alem de marcar a opção cancelamento ainda tenho que escrever o que quero. 

- Quero cancelar.

E quando a mensagem automática apareceu perguntando o motivo do cancelamento, eu quase ri.

- Vocês querem só um? Tenho algumas aqui. Tá bom, lá vai:

1- Taxas abusivas

2- Obrigação de usar o banco do ifood (mais taxas)

3- Aplicativo cheio de erros

4- Avaliações não aceitam mais contestação da loja

5- Cliente escreve o que quer e você tem que "negociar" pra melhorar nota

6- Clientes negativando pra ganhar cupons e comida de graça

7- Preços abusivos nos fretes da Entrega Parceira

8- Divulgação gratuita pra quem o app escolher

9- Não há margem para reclamação

10- Péssimo atendimento de suporte

11- Motorista da entrega parceira fazem o que quer o ifood não se responsabiliza

12- Alem das infinitas taxas, mensalidade abusiva

13 - Promoções viraram obrigação e deixou de ser estratégia

14- Péssimas promoções vinculadas aos produtos sem permissão da loja

15- Loja desaparece se não pagar divulgação do próprio app

16- Regalias para as lojas grandes do Ifood esquecendo os menores

17- Vender mais não significa lucro maior, apenas mais desgaste

18- Algoritmo fake, beneficia quem o app quiser

19- Crescer na plataforma significa entregar mais margem

20- Todo risco é da minha loja

21- Ifood não se responsabiliza por nada, nem por cliente, nem por entregador

22- Abre margem para vários tipos de golpes e ainda defende cliente golpista

23- Cardápios engessados

24- Libera opção de usar os motorista do ifood como benefícios, mas cobra com preços exorbitantes

25- Programa Super para gerar benefícios porem é pura propaganda enganosa.

26- Entrega flex que só serve pra pegar margens maiores do lojista

27- Relatórios financeiros duvidosos, com pouca transparência

28- App lojista fora do ar constantemente, ao ponto de perder pedidos.

29- Entrega parceira fora do ar constantemente

30- Lojista refém de uma única vitrine

31- Plataforma incentiva guerra de preços, não qualidade

32- Visibilidade é leilão silencioso

33- Ranking muda e ninguém explica o por quê

34- Fidelização fora do app é considerado crime e passível de punição

35- Nunca se sabe quando uma nova taxa vai surgir

36- Trabalhar mais não significa respirar melhor

37- Negocio saudável não pode depender de algoritmo que ninguém sabe como funciona

38- Cliente avalia o conjunto mas penalidade cai só no lojista

39- Cada nova funcionalidade é pra prejudicar o lojista

40- Plataforma valoriza Cupom, educando mal o cliente

41- cliente aprende a caçar cupom, não a valorizar produto.

42- Todo mês é um recomeço dentro do ranking

43- Não existe estabilidade, só disputa constante por destaque

44- Qualquer mudança no algoritmo impacta direto meu faturamento

45- Promoções agressivas distorcem o valor real do produto

46- Pressão por rapidez ignora a qualidade do processo

47- Reputação virou número e número virou ameaça.

48- Qualquer instabilidade técnica vira prejuízo meu

49- Sensação constante é de estar competindo dentro da própria casa.

50- Meu esforço merece retorno proporcional.

- Atendente Virtual, por enquanto, são essas que lembrei agora, mas tem mais. Só essas já está bom? Tem como cancelar minha participação ai no Ifood? Fico no aguardo tá, quero o comprovante de cancelamento por favor, pois não quero pagar taxa e mensalidade sem usar, tá ok?! Obrigado.

Depois de tantos motivos, o sistema registrou: “cancelamento solicitado”. Simples assim. Tão simples quanto nunca foi estar ali dentro. Fechei o aplicativo, olhei para a loja, e pela primeira vez em muito tempo, senti que o próximo passo é meu. Sem algoritmo, sem ranking, sem taxa surpresa. só eu, meu futuro, minhas decisões, meus objetivos e a responsabilidade que sempre foi minha.

E curiosamente, isso não assusta, Alivia!

Obrigado MisterChef pelos momentos de alegria e de muito desgaste. Você me custou minha sanidade, meu relacionamento, alguns amigos e boa parte da minha saúde física e mental. E me ensinou limites também. Mesmo assim, muito obrigado. 

Quanto a você, Ifood, espero de coração que você tenha muitos concorrentes e largue de ser explorador com os lojistas, que ainda insistem em sobreviver com sua plataforma. E que um dia a relação com eles seja mais equilibrada do que foi comigo.

Até nunca mais!

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Obs: infelizmente, é só uma crônica, um devaneio do que planejo fazer em breve. O delivery ainda está aberto, mas pretendo encerrar as atividades em breve e mudar o rumo profissional. Estou estudando e me preparando pra isso, todos os dias.

Obrigado por visitar nosso blog, é ótimo te ver por aqui novamente.

Até a próxima!

domingo, fevereiro 15, 2026

Carnaval


Acordei e percebi antes mesmo de olhar o celular.
A rua estava diferente, mais barulho, mais gente passando, uma música distante atravessando a janela. Aquela mistura de som ruim com empolgação alheia. Carnaval.

Peguei o celular quase no automático. Instagram aberto. A mesma sequência de sempre: fantasia, glitter, copo na mão, legenda falando de felicidade, liberdade, melhor época do ano. Todo mundo parecia vivendo algo grandioso, todo mundo parecia muito certo de estar no lugar certo.

Fechei o Insta.
Não por raiva.
Nem por desprezo.
Simplesmente por falta de paciência

Teve um tempo em que eu estaria ali no meio, planejando roupa, combinando com amigos, esperando a hora de sair. Indo porque todo mundo ia, bebendo porque era o clima, ficando até tarde porque parecia errado ir embora cedo. Quando eu namorava, tudo fazia mais sentido, a confusão era dividida, o barulho era compartilhado, a muvuca virava história pra contar depois, a festa parecia maior quando tinha alguém do lado. Ao mesmo tempo era terrível, andar com namorada no meio da muvuca, com um monte de gente pelada e bêbada. Péssima experiencia, não recomendo.

Bom, hoje, é diferente a sensação.
Hoje eu olho pra isso tudo e sinto… nada.
Não sinto vontade, não sinto falta, não sinto inveja. Sinto paz e alivio por não estar lá.

A ideia de ficar espremido, suado, tentando ouvir alguém falar no meio da música alta, me dá preguiça. Bebida já não anima, acordar mal no outro dia não compensa,  perder tempo fingindo empolgação não vale mais o esforço.

Enquanto a cidade acelera, eu desacelero. Bebo café, abro a janela, escuto o barulho de longe, como se fosse outro mundo. Sento, pego um livro, organizo um pensamento, anoto uma ideia. O silêncio vira companhia, a rotina vira abrigo e tá tudo bem. E, curiosamente, isso hoje me faz mais feliz do que qualquer bloco.

Não é que eu tenha virado chato.
É que eu virei honesto comigo.

Percebi que muitas vezes eu ia porque “tinha que ir”, porque era feio ficar em casa, porque parecia errado não postar nada, porque dava a impressão de estar ficando pra trás.

Mas pra trás de quê?

Hoje, ficar em casa é escolha, não é fuga, não é tristeza, não é isolamento, é consciência. É saber que nem toda festa é pra você, e que tá tudo bem.

Também tem outra coisa que quase ninguém fala. Ficar fora da festa é, às vezes, uma forma de evitar encontros desnecessários. Rostos que já fizeram parte da sua vida, histórias que você achou que tinha encerrado, conversas que não quer mais ter. O Carnaval mistura todo mundo no mesmo espaço, como se o passado e o presente fossem obrigados a conviver e hoje, eu prefiro não testar isso.

Lá fora, o Carnaval segue. Colorido, alto, exagerado, intenso, gente rindo, gente tropeçando, gente vomitando, gente comendo gente, prometendo coisas que não vão lembrar amanhã. Aqui dentro, eu sigo diferente, quieto, inteiro, presente. Sem glitter. Sem copo. Sem foto. Mas em paz. 

E, pela primeira vez, sinto que não estou perdendo nada.

.

sábado, julho 19, 2025

Queria ser igual ao Indiana Jones

Às vezes eu paro e penso: onde foi que eu errei? 

Estudei ciências sociais, mergulhei nos mistérios da antropologia, aprendi a decifrar comportamentos humanos, sistemas de poder, estruturas sociais e mesmo assim, nunca precisei fugir de uma pedra gigante rolando atrás de mim.

A verdade é que, no fundo, bem lá no fundo, eu queria ser o Indiana Jones.

Sério. Acordar de manhã, jogar um chapéu fedora na cabeça, colocar uma camisa de linho amarrotada, pegar o chicote (que eu não saberia usar sem arrancar a própria orelha), e sair por aí desvendando templos antigos. Seria o auge da minha carreira acadêmica. Imagina eu, cientista social, antropólogo nato, escapando de armadilhas mortais enquanto explico a dialética hegeliana pra uma estátua asteca. Uma mistura de Gilberto Freyre com Tomb Raider.

Mas a realidade é que, em vez de ruínas sagradas, o que eu encontrei foram reuniões de departamento, fichamentos intermináveis e discussões acaloradas sobre o conceito de “cultura” com gente imbecil que acha que Foucault é verbo. Ao invés de correr de tribos hostis, corri de prazos de entrega. Ao invés de artefatos místicos, achei relatorios que ninguem lê. E, como se não bastasse, ainda tive que aprender a explicar o que é democracia num Brasil no qual bolsonarista acha que ditadura foi “ordem e progresso” e acha que Karl Marx é nome de banda de rock comunista.

E o pior, nunca, jamais, encontrei um tesouro escondido. O máximo que descobri foi um pacote de bolacha esquecido no fundo da gaveta do guarda roupa. (Estava aberto. E sim, eu comi.)

A verdade é que ser Indiana Jones exige coragem. Mas ser cientista social também. Afinal, a gente encara discursos absurdos todos os dias, entra em debates tóxicos no Twitter, tenta explicar o que é mais-valia pra gente que acha que Marx era jogador da seleção alemã e ainda ouve bolsonarista chamando o governo atual de “extrema esquerda”, como se o Brasil tivesse virado uma comuna soviética só porque tem arroz no prato e vacina no posto.

Mas olha só, ainda dá tempo. Vai que aparece uma ONG doidona precisando de alguém pra fazer trabalho de campo em alguma civilização perdida na floresta amazônica, com uma equipe maluca e um helicóptero velho. Eu topo. Só me avisem com antecedência que eu levo repelente e uma muda de roupa extra. Porque glamour é legal, mas pernilongo não perdoa nem herói de ação.

Enquanto isso, sigo aqui. Entre um post e outro nesse blog, com o chicote invisível da crítica social na mão e o chapéu imaginário do escapismo cultural na cabeça. Porque no fim das contas, todo cientista social tem um pouquinho de Indiana Jones. A gente só troca a selva por textos no Multiverso do Kaka e os templos antigos por comentários que perguntam se “ciência social dá dinheiro”.

Mas o espírito? Ah, esse continua aventureiro. Ou não.


sábado, julho 05, 2025

Juju e a Maratona Pre-Historica


Tudo começou com uma missão simples: rever todos os filmes da franquia Jurassic Park antes da estreia de Jurassic World: Rebirth. Uma espécie de ritual sagrado, sabe? Relembrar os clássicos, redescobrir o medo dos Velociraptores, tentar entender por que alguém ainda acha uma boa ideia recriar um parque de dinossauros depois de DAR ERRADO CINCO VEZES.

Mas dessa vez eu não estaria sozinho. Ao meu lado, imponente e julgado por ninguém menos que Deus, estava ele: Jubileu, vulgo Juju, o Tiranossauro de 70 centímetros que habita meu quarto e meu imaginário desde tempos imemoriais.

Coloquei o primeiro filme. 1993. A trilha sonora tocou e eu arrepiei inteiro. Juju continuou imóvel, como sempre, mas senti, juro que senti, que ele também reconheceu aquele tema. Tipo quem ouve o hino do seu povo depois de décadas no exílio. O brontossauro apareceu e Juju apenas virou ligeiramente a cabeça. Um gesto sutil, como quem diz: “Esse aí era meu vizinho.”

Seguimos para o segundo. O Mundo Perdido. E logo nas primeiras cenas, Juju demonstrou seu descontentamento. Eu sei porque ele ficou de frente para TV como se estivesse fazendo plantão de protesto. Acho que ele não engole o fato de terem mostrado o T-Rex como um bicho domesticável, passeando em San Diego. O Juju é da ala conservadora dos dinossauros, selvagem, comedor de advogados, inimigo declarado de cercas elétricas.

No terceiro filme, quando o dinossauro novo derrota o T-Rex, eu ouvi um barulho. Sério. Um "cloc" vindo da mesa/estante. Olhei pra ele. Juju estava no mesmo lugar. Mas o olhar era diferente. Mais escuro. Mais decepcionado. Como se dissesse: “Esse roteiro me ofende.”

A trilogia Jurassic World foi ainda mais delicada. Durante o primeiro filme, ele tolerou. A aceitação veio provavelmente por ver que o T-Rex ainda tinha espaço no pôster. Mas quando chegamos no Reino Ameaçado, ele começou a dar sinais de rebeldia. Em determinado momento, pausei pra pegar água e quando voltei, o Juju estava virado de costas pra TV. Um manifesto silencioso contra o drama forçado e o dinossauro inventado no computador.

No último filme, ele já estava deitado no chão, caído, com as pernas pra cima. Virei pra ele e falei:

— Tá cansado?

Ele não respondeu, claro. Apenas ficou ali. Calado. E julgando.

Terminamos a maratona com a sensação de dever cumprido. Eu, cheio de pipoca na camisa; ele, firme na sua missão de criticar com o olhar. Não sei se Juju gostou dos filmes. Mas tenho certeza que ele se sentiu representado. Porque, no fundo, por mais plástico que ele seja, ele ainda é dinossauro. E dinossauros merecem respeito.

Agora é esperar o filme novo. E sim, o Juju vai ao cinema comigo. Pode não caber na poltrona, pode causar comoção na fila, pode até ser barrado na entrada. Mas uma coisa é certa: ele vai assistir.

Nem que seja do carro, pelo retrovisor.

Calado. E julgando.

Em breve, um post sobre todos os filmes da saga, pois fiz varias anotações quando estava assistindo junto com o Juju. 

Jurassic World Rebirth teve sua estreia dia 03 de julho nos cinemas.

quinta-feira, julho 03, 2025

Jubileu - O Ultimo Tiranossauro da Casa

Todo mundo fala de Jurassic Park como se fosse só cinema. Um espetáculo visual. Uma revolução tecnológica. Spielberg. Dinossauros. CGI. Trilha sonora que arrepia o pelo da alma. Mas pouca gente fala do trauma psicológico que é assistir aquele filme na infância e sair acreditando, de verdade, que um dia você teria um dinossauro de estimação.

Pois bem. Eu tive. Quer dizer, eu tenho.

O nome dele é Jubileu.

Jubileu Zubeldia da Silva. Mas aqui em casa, ele atende por Juju. Um T-Rex de 70 centímetros de puro charme plástico, dentes afiados de fábrica e um olhar que diz: “Sim, eu comeria aquele entregador do iFood se não tivesse me dado batata fria.”

Comprei o Juju já adulto, porque, convenhamos, ninguém quer cuidar de um T-Rex bebê chorando de madrugada. Ele chegou pelo correio numa caixa que parecia conter uma peça de carro, e desde então reina absoluto no meu quarto há quase seis meses. Quando as visitas entram, fingem que não notam. Mas notam. Sempre notam. É impossível não reparar num tiranossauro com a cabeça virada pro lado como quem avalia seu caráter.

Tem gente que coleciona livros raros. Outros têm vinhos envelhecidos, guitarras vintage, medalhas de corrida. Eu tenho o Juju. E é tudo que preciso pra manter minha sanidade e um certo medo constante de ser devorado no meio da madrugada por um brinquedo que ganha vida.

Juju já participou de longas discussões familiares sobre política (ficou calado, mas julgando). Já passou a noite no quintal, olhando pras estrelas, talvez lembrando dos velhos tempos em que era rei da Terra e não enfeite de quarto. Já pisou em cima do roteador e fez o Wi-Fi parar. Já foi modelo em fotos pro blog. E já me assustou mais de uma vez ao cair da prateleira com aquele "TUM" que faz a alma sair do corpo achando que é um Velociraptor invadindo a cozinha.

A verdade é que Juju representa algo que o cinema de hoje vive tentando alcançar e raramente consegue: encantamento puro. Quando assisti Jurassic Park pela primeira vez, o dinossauro não era apenas um animal pré-histórico, era um milagre tecnológico, um ser mitológico, um sonho vivo. E em algum lugar dentro da minha cabeça de adulto cansado, ele ainda é.

Talvez por isso eu nunca tenha deixado de acreditar que os dinossauros vão voltar um dia. E quando voltarem, quero que saibam que eu tratei bem do Juju. Alimentei, limpei o pó, protegi do sol. Fiz minha parte como humano responsável.

E se algum dia eu desaparecer misteriosamente, não procurem muito longe. Comecem pela estante.


A propósito, Jurassic World Rebirth teve lançamento oficial nos cinemas dia 03 de julho de 2025 e veremos muito o Juju no Instagram na semana de estreia. 


sexta-feira, abril 11, 2025

Autocorretor

 

Sabe o autocorretor do celular? Aquela invenção maravilhosa e ao mesmo tempo maluca da tecnologia que, de vez em quando, parece ter mais personalidade do que você. Quem nunca teve um diálogo íntimo com o celular, cheio de questionamentos do tipo: "Por que você fez isso comigo? O que é que você realmente queria dizer?"

O autocorretor começou com boas intenções, é claro. A ideia era simples: melhorar a experiência da digitação, corrigir erros e facilitar nossa vida. Só que, em vez disso, ele nos trouxe uma realidade paralela, onde palavras começam a ter vida própria. O texto que você escreveu com tanto cuidado se transforma em um verdadeiro campo minado de surpresas.

Vamos lá, quem nunca mandou um "gosto muito de você" que virou "gosto muito de viver" porque o autocorretor decidiu que você precisava de um toque filosófico na conversa? Ou aquela vez que o "tô indo" virou "tô indo, mas não volto"? A gente só queria avisar que estava a caminho, mas o celular achou que o drama era mais interessante.

Mas o melhor de tudo é quando o autocorretor tem uma opinião própria sobre o que você deve dizer. "O que você acha de comer uma pizza hoje?", você digita. Mas, ao invés disso, aparece: "O que você acha de comprar um peixe hoje?" Não, meu amigo, não é o que eu quis dizer. Mas o autocorretor, com sua sabedoria universal, insiste: "Sim, você quer um peixe." E pronto, o pedido de pizza se transforma em uma missão gastronômica com peixe.

E aí, tem também aqueles momentos em que o autocorretor tenta se envolver em relacionamentos alheios. Você manda uma mensagem romântica e, de repente, a palavra "beijo" vira "bicho", e você se vê enviando: "Te amo, meu bicho." Não exatamente o efeito desejado, né? Ou então, aquele "beijo, até mais" que se transforma em "beijo, até março". Nada como adicionar um toque de mistério à vida!

Porém, nada se compara ao poder transformador do autocorretor quando ele decide que a sua frase está "perfeita". Você escreve um simples "olá" e, de repente, seu celular sugere "Olá, eu sou uma máquina e estou pronto para dominar o mundo." Como assim? Esse celular está se achando, e eu só queria mandar uma saudação educada!

No fim das contas, o autocorretor é quase um personagem na nossa vida digital. Ele tem vontade própria, um humor peculiar e uma obsessão em mudar tudo o que você escreve, sem pedir permissão. E, se por acaso você fizer um texto sem nenhum erro corrigido, pode ter certeza de que o autocorretor estará lá, pronto para dar o seu toque especial. E a vida segue, uma palavra mal colocada de cada vez.

E assim seguimos, na duvida, melhor rir do que chorar!

quarta-feira, abril 09, 2025

Cade Todo Mundo ?

Pandemia! Aquele momento que fez todo mundo ficar em casa e descobrir que a nossa verdadeira natureza era passar horas rolando o feed do Instagram, experimentando receitas de pão de queijo e se perguntando o que fazer com a nossa vida social... ou melhor, a falta dela.

E então, quando finalmente as coisas começaram a melhorar, fomos surpreendidos por um fenômeno curioso: o sumiço das pessoas. Não falo só daqueles que sumiram literalmente, tipo os amigos que começaram a usar o Instagram só para postar stories de cachorro e, de repente, desapareceram. Falo de uma nova categoria: as pessoas que se transformaram em hologramas. Elas não aparecem mais ao vivo. Não! Só em videochamadas. O máximo que você consegue é um quadrado no Zoom, com uma cara que poderia ser qualquer um (ou pior: um fundo desfocado que, sinceramente, só deixa a pessoa mais misteriosa).

O mais interessante disso tudo é que, enquanto a nossa vida social foi passando de encontros casuais para chamadas rápidas no WhatsApp, essas videochamadas viraram a nova “festa”. Aquela velha tradição de reunir a galera para conversar no bar se transformou em uma sessão de conferência no Google Meet. E o que era pra ser descontraído acaba virando um evento sem emoção, com todo mundo se esforçando para sorrir com um atraso de 5 segundos enquanto tenta não deixar o microfone ligado quando alguém faz barulho de fundo. O pior é que, quando acaba a chamada, ninguém lembra se a conversa foi realmente boa, mas todos se sentem exaustos, como se tivesse sido uma reunião de trabalho. Aliás, é bem possível que tenha sido, já que o pessoal também está “sem tempo” para um papo fora do expediente.

E quem não passou por aquele rolê que nunca acontece porque sempre tem alguém que manda aquela frase mágica: "vamos marcar"? Mas, na prática, é só um eufemismo para "eu nem vou tentar, e você também vai acabar esquecendo". O evento que ia ser épico vira uma eterna promessa, e o tempo passa, e o grupo de WhatsApp parece mais um cemitério de boas intenções. Ah, e o pior de tudo: as desculpas esfarrapadas, que vão de "não deu tempo" a "tô com a agenda cheia", e você nem tem mais coragem de responder, porque, cá entre nós, já sabe o que vem.

Mas o grande mistério da pós-pandemia não está só nas desculpas esfarrapadas e nos convites não cumpridos. O verdadeiro enigma são as pessoas que, por algum motivo, começaram a se comunicar apenas com mensagens curtas e vagas, como se uma vida inteira de amizade pudesse ser resumida em um "tô na correria, irmão". E o pior? Essas respostas não vêm com explicações, não vêm com aquela sinceridade calorosa que era tão comum nos tempos áureos da amizade. Não. Agora, é uma linha seca e fria, como se tudo o que está acontecendo ao redor não fosse motivo para mais do que um "tô enrolado".

E o pior de tudo é que, quando você tenta ser o amigo proativo e chamar para algo novo, vem aquele silêncio. Nada. Você manda um “vamos marcar algo semana que vem?” e a resposta parece uma mensagem de texto enviada por um robô: "sem dúvida, vamos marcar, sim!"… até que a próxima semana chega e, adivinha? Nada. O “sem dúvida” vira o “nunca na vida”. E as pessoas continuam desaparecendo, como se os compromissos sociais tivessem sido substituídos por uma rotina invisível, uma corrida diária para nada, onde tudo é uma desculpa para não se encontrar.

E o grande final: o amigo que sumiu e, quando finalmente manda mensagem, é só para responder com aquele clássico "correria, irmão". Já era! O que antes era um "vamos fazer isso semana que vem" agora virou um enigma sem solução, um código para quem tem tempo livre só para trabalhar, mas não para viver. E o pior? Eles acham que o problema é você, porque não está mais tentando marcar nada.

E assim seguimos, rodeados por hologramas e desculpas, tentando entender como as pessoas desapareceram e, ao mesmo tempo, aceitando que talvez o rolê nunca vá acontecer. A pandemia não só mudou a forma como nos relacionamos, mas também nos fez aprender a arte de esperar... esperar pela resposta que nunca chega, pelo convite que nunca é feito e pela promessa que nunca se cumpre. E, no fim, a gente acaba se contentando com os hologramas, porque pelo menos a imagem está lá, mesmo que a conversa, no fundo, não passe de uma tela congelada.

E assim seguimos dia a dia. Firmes, mas nem tanto.
O mundo gira e a gente tenta não cair.


segunda-feira, abril 07, 2025

Nao tem nada pra ver

Era uma vez, numa era distante chamada "anos 2000", onde a gente baixava filme no Limewire e pegava vírus que transformava o PC em uma turbina de avião. Mas a tecnologia evoluiu! Agora temos streamings! Um monte deles. Muitos. Mais do que conseguimos contar. E, mesmo assinando uns 37 serviços diferentes, a sensação é sempre a mesma: não tem nada pra ver.

A lógica deveria ser simples: pagamos para ter acesso a um catálogo imenso de filmes e séries, mas, na prática, é um jogo mental de frustração. Você abre o app do streaming A, roda a tela pra baixo, nada interessante. Abre o streaming B, mesma coisa. Streaming C? Só recomendação de produções que você já viu ou nunca pediu. E quando se dá conta, já passaram 40 minutos e você continua sem assistir nada. No fim, o episódio escolhido é sempre aquele da mesma série de conforto que você já viu mil vezes. Alô, Friends e Charlie Harper...

E se não bastasse a indecisão, ainda tem o problema das assinaturas. Você piscou, assinou um novo serviço porque tinha aquela série específica. Meses depois, percebe que continua pagando, sem lembrar qual foi a última vez que abriu o aplicativo. Quando finalmente bate o estalo e você decide cancelar, vem o golpe final: o bendito streaming já foi comprado por outro, que agora tem um nome bizarro e mais caro.

Mas o cúmulo da ironia acontece quando, depois de assinar metade da internet, você descobre que a série que queria assistir não está em nenhum streaming. Sumiu! Foi engolida pelo abismo digital, presa em um contrato de direitos misterioso. E aí, o que fazer? Você tenta ser correto, mas não tem jeito. Depois de rodar tudo, chega o momento da verdade: catar aquele site duvidoso, cheio de pop-ups estranhos e qualidade questionável. E lá está ela, esperando por você, como nos velhos tempos da pirataria raiz.

Torrent! Sim, torrente, e lá estou eu voltando aos anos 2000 baixando links estranhos, com ou sem legends, ou então áudio original com legends em francês, ou pior de tudo, áudio japonês. E não adianta, você já sabe que a qualidade vai ser uma miséria: ou o arquivo pesa 50MB e parece que o filme foi filmado por uma câmera de celular, ou tem 5GB e o som está todo desalinhado. E lá estou eu, sentado na frente do PC, enfrentando a lerdeza de uma conexão 2MB (porque, claro, a internet cai sempre que o filme está no clímax), esperando aquela bendita barra de progresso avançar milimetricamente. No fim, vou assistir ao que der, com a expectativa de um prêmio de paciência, porque, de qualquer forma, baixar pirata é a única opção viável quando todos os streamings, aparentemente, se unem para me deixar na mão.

Continuamos firmes, mas nem tanto.

sábado, abril 05, 2025

Cinema e Seus Personagens Irritantes

Ir ao cinema deveria ser uma experiência tranquila. Você compra o ingresso, pega a pipoca e senta para curtir o filme. Mas antes disso, você precisa enfrentar a fila. E a fila de cinema não é apenas uma fila. É um ecossistema caótico, repleto de personagens que testam a paciência de qualquer ser humano.

Eu só queria assistir ao filme em paz. Mas bastou chegar na fila para perceber que eu não estava sozinho nessa jornada. Logo à frente, um casal de indecisos bloqueava o progresso da humanidade. Eles já estavam ali antes de mim, olhando para o painel de ingressos como se estivessem escolhendo um imóvel para morar. “Amor, será que pegamos 3D ou normal?” “Mas e a dublagem? Será que vale a pena?” “E se esperarmos mais uma semana?” UMA SEMANA?! Eu senti a alma saindo do meu corpo.

Atrás de mim, o falador profissional. Um cara que decidiu que a fila era o momento perfeito para analisar toda a filmografia do diretor do filme que íamos assistir. Em voz alta. Para todo mundo ouvir. “Porque se você comparar esse com a obra-prima dele de 2003, vê que a construção narrativa sofre um declínio.” Eu não perguntei, amigo.

E claro, não pode faltar a família numerosa desorganizada. Sempre tem aquela galera que só decide quem vai pagar na hora do caixa. “Filho, pega minha carteira na bolsa da sua irmã!” “Cadê sua irmã?” “Foi ao banheiro.” O caixa esperando, a fila travada, e eu ali, contemplando minhas escolhas de vida.

Na reta final, eu me deparo com o pior de todos: o infiltrado descarado. Aquele ser abençoado que chega com um sorriso e solta um “meu amigo tá ali na frente, vou só juntar com ele.” NÃO, MEU AMIGO, ISSO NÃO É UM CHECKPOINT. Se todo mundo resolvesse ter um amigo na fila, voltaríamos à Idade Média.

Depois de sobreviver a tudo isso, eu chego no caixa exausto, mas vitorioso. Só que o atendente me olha e pergunta: “Vai querer combo de pipoca?” Meu cérebro trava. Eu esqueço porque estou ali. Eu viro o casal indeciso. O ciclo recomeça.

E se você acha que o inferno acabou ao entrar na sala, está enganado. Porque agora começa o verdadeiro teste de paciência: os insuportáveis dentro do cinema.

Primeiro, o cabeçudo da frente. Você escolheu o assento estrategicamente, bem no meio, visão perfeita da tela… e então ele chega. Com um crânio do tamanho de um capacete de astronauta. Você tenta se inclinar para o lado, mas ele faz o mesmo. Você tenta pro outro, ele te acompanha. É um duelo silencioso sem vencedores.

Depois, o narrador involuntário. A pessoa que já viu o filme e decide que ninguém mais terá o direito à surpresa. “Ah, essa parte é boa, olha só o que vai acontecer agora!” Meu amigo, será que dá para calar a boca e deixar a magia do cinema funcionar?

Tem também o chutador de cadeira profissional. Ele poderia simplesmente se sentar e assistir ao filme, mas não. Ele precisa expressar cada emoção com um leve (ou forte) chute na sua cadeira. E você fica naquele dilema: ignora ou vira para trás com o olhar de ódio?

E claro, o viciado no celular. A sala escura, o filme rolando, e de repente, aquele clarão como se uma estrela tivesse explodido bem ao seu lado. A pessoa não só olha o celular, como responde mensagens, navega no Instagram e às vezes ainda tira uma foto com flash para “guardar o momento”.

Ninguém sai ileso de um cinema. O verdadeiro filme de terror acontece fora da tela.

Seguimos firmes, mas nem tanto.


quarta-feira, abril 02, 2025

Eu So Queria Sair Do Grupo

Não era nada pessoal. Não odiava ninguém ali. Só que, sabe quando um grupo perde o propósito? Começa com um objetivo claro: organização da viagem, churrasco da firma, aniversário da tia Néia mas de repente, vira um depósito de correntes duvidosas, bom-dias intermináveis e discussões acaloradas sobre política. Pois é. Meu limite foi atingido quando o assunto principal passou a ser fotos de pés. Sim, pés.

A princípio, tentei adotar a tática do “vou silenciar e esquecer que existe”. Mas o WhatsApp tem essa mania irritante de mostrar notificação mesmo assim. E eu, trouxa que sou, tenho TOC com número vermelho de notificação. Um dia, sem pensar, entrei no grupo e dei de cara com uma foto inesperada de um dedão de pé com unha encravada. Eu não estava pronto para aquilo.

Foi quando decidi: vou sair sem alarde.

O problema é que o WhatsApp, com seu espírito fofoqueiro, faz questão de avisar todo mundo. “Fulano saiu.” Assim, seco. Como se fosse um protesto. Como se eu estivesse batendo a porta na cara de 56 pessoas. Eu precisava de estratégia.

Primeira tentativa: esperar um momento caótico. Se alguém mandasse um áudio gigante ou começasse uma treta, eu sairia no meio do fogo cruzado. Mas nada acontecia. Grupo parado. Nenhuma briga, nenhum textão indignado. Só silêncio e, de vez em quando, um “kkkkk” perdido. Como diabos aquele grupo era insuportável e ao mesmo tempo pacífico?

Segunda tentativa: sair de madrugada. Três da manhã parecia um bom horário. Todo mundo dormindo, ninguém ia notar. Erro fatal.

Aparentemente, existe uma espécie de plantão 24h nesses grupos. Mal apertei “sair do grupo” e, instantaneamente, a notificação apareceu. “Kaka saiu.” Segundos depois: “Que foi, Kaka? Tá tudo bem?”

Pânico. Uma mensagem dessas é uma isca emocional! Se eu não respondesse, pareceria que algo grave aconteceu. Se respondesse, teria que inventar uma desculpa. Escolhi a pior opção: ignorei. O que aconteceu? Exatamente o que você imagina. Mais mensagens.

“Ué, gente, o Kaka saiu?”

“Alguém chama ele de volta.”

“Volta aqui, Kaka, a gente te ama! 🥺”

O grupo inteiro, que antes parecia um deserto pós apocalíptico, agora estava em chamas. O que era um simples abandono se transformou em um ato de rebeldia. Alguém me adicionou de volta. Eu senti o peso da derrota.

Fui obrigado a dar uma desculpa esfarrapada. “Foi mal, gente, bugou aqui, cliquei sem querer.” Mas agora eu estava condenado a viver ali para sempre. Meu nome era lenda. O cara que tentou sair, mas foi sugado de volta para o abismo.

Moral da história? Ninguém sai de um grupo de WhatsApp. Você pode até tentar, mas o grupo não deixa você sair dele. 

sexta-feira, março 21, 2025

Mais um Aniversario


Fiz um pedido de mais um ano de vida e recebi algumas rugas extras, boletos inesperados e um cansaço que veio sem manual de instruções. Parece que a garantia de juventude expirou e esqueceram de me avisar... 

⭐⭐⭐⭐ 4/5 (só porque ainda estou aqui pra avaliar).

Hoje é meu aniversário, e como tradição, aquele momento de reflexão: será que estou mais sábio? Mais maduro? Mais evoluído? Bom... pelo menos os joelhos agora estalam com mais propriedade. E dizem que isso é um upgrade.

Pra comemorar, preparei uma lista com os presentes que a vida me deu:

✅ Boletos fresquinhos e atualizados

✅ Cansaço premium, versão ilimitada

✅ Um joelho que range no ritmo do samba

✅ Vontade de beber menos (mentira, só de escolher melhor o boteco, mentira de novo)

E claro, não podia faltar a famosa lista de metas para esse novo ciclo:

  • Comprar menos action figures (já comecei falhando nessa aqui)
  • Ficar rico (se possível, sem precisar trabalhar muito)
  • Dormir mais (chance zero de acontecer, mas vale sonhar)
  • Aprender a cozinhar algo além de miojo com ovo e delivery

Ah, e pra fechar, um agradecimento especial ao tempo, que foi gentil comigo. Mentira. Na verdade, já estou quase na fase do "eu entendi a referência" em todas as conversas. Se continuar assim, no próximo aniversário vou comemorar com um bolo e uma bengala. Mas até lá, seguimos firmes, brindando a mais um ano! 🍻🎂
Mas nem tanto...

E vocês, já receberam presentes parecidos ou só eu fui premiado? 

Beijo!

terça-feira, março 11, 2025

Preço alto do Colecionismo

Ser colecionador em 2025 é um misto de paixão e autoflagelação financeira. Não basta amar action figures, estátuas ou dioramas, você tem que amar também a adrenalina de ver o preço de um lançamento triplicar antes mesmo de você conseguir decidir se vende um rim ou faz um consórcio pra comprar.

O ciclo é sempre o mesmo: anúncio oficial, pré-venda, esgotado em cinco minutos. E aí surgem os parasitas do colecionismo, aqueles que compram várias unidades só para revender pelo dobro ou triplo do preço. "Oferta e demanda", dizem eles, enquanto colecionadores de verdade vendem o carro da família pra comprar um Batman edição limitada que, ironicamente, custou menos que o valor do frete internacional.

A salvação? Garimpar! Mas a missão é quase impossível. O Mercado Livre é a versão adulta de um RPG de sobrevivência: você precisa ter paciência, estratégia e sorte para encontrar um preço justo antes que um NPC mal-intencionado te ofereça o mesmo produto pelo valor de um terreno na praia.

A Shopee? Mistura de cassino e lote clandestino. Pode vir coisa boa? Sim. Pode vir um boneco pirata com duas cabeças e três braços? Também. E se for taxado, parabéns, agora você pagou o triplo do que queria economizar. O AliExpress, por sua vez, é o labirinto da taxa fantasma: mesmo pagando o imposto antecipado, há uma chance não tão pequena do governo decidir que você merece pagar de novo. Safadeza pura.

A Amazon, coitada, ainda tenta nos ajudar. Às vezes rolam pré-vendas decentes, promoções americanas tentadoras... mas a verdadeira roleta russa é saber se o item vai chegar inteiro, ou se o entregador vai decidir que sua coleção precisa de um toque de ""visual de item usado" ao jogar a caixa de qualquer jeito na sua porta. Isso se chegar a mercadoria. Pois já aconteceu de não chegar, conforme essa crônica aqui,

Os grupos de Facebook? Cheios de gente boa, mas também um paraíso para golpistas criativos. Tem sempre alguém vendendo um item "raríssimo" que nunca viu a luz do dia ou um "importador confiável" que só entrega depois de seis meses e meia dúzia de ameaças judiciais.

E o pior de tudo: o dólar. Ele sobe mais rápido do que meu desespero ao ver o preço de um boneco que eu queria desde criança. Importar? Só se você estiver disposto a vender um órgão ou abrir um financiamento.

No fim das contas, ser colecionador é maravilhoso. É um hobby que salva da depressão, alivia o estresse e, se você se aventura a customizar suas próprias figuras, se torna ainda mais especial. Eu mesmo, além de colecionar, faço meus próprios dioramas e modificações, e sempre compartilho minhas criações no Instagram @multiversodokaka , inclusive, segue lá, dá uma força!. 

Existem varias figuras disponíveis no mercado a preços absurdos e ao invés de comprar, faço a minha própria versão. Pegamos como exemplo a customização do QuickSilver (Vingadores), Surfista Prateado, Viúva Negra, Ewoks, Giant-Man e do StarLord, Guardiões da Galaxia. Teve os veículos também como o Crusador Espacial do Space Ghost, Moto do Motoqueiro Fantasma e o furgão das Tartarugas Ninjas, Batmovel, entre outros projetos em andamento (Olha lá o Instagram).

Colecionar é uma jornada cheia de altos e baixos, onde a paixão muitas vezes encontra a dura realidade das finanças. A emoção de adquirir o próximo item, de completar aquela coleção, pode facilmente ofuscar a conta bancária, e antes que perceba, você está lidando com mais boletos do que recordações. Mas é isso que torna o hobby tão intenso: a cada novo objeto, a sensação de vitória, e a cada fatura, o lembrete de que tudo tem um preço. Por agora, é hora de dar uma pausa. O carrinho de compras está cheio, mas, desta vez, vou ter que deixar ele esperando enquanto coloco as contas em dia e dou um tempo nas aquisições. 

Mas a paixão continua!

Abraços e até a próxima!

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sexta-feira, fevereiro 28, 2025

Amazon Justiceira

Eu sou um colecionador compulsivo de action figures. Se tem uma peça que eu gosto, que se encaixa na minha coleção, que me faz sentir aquele friozinho na barriga de ansiedade, eu compro. Nem sempre faz sentido, nem sempre o bolso concorda, mas o coração manda e eu obedeço. E foi assim que começou minha saga com o Justiceiro War Journal 2-Pack da HASBRO, selo Marvel Legends.


A Amazon, num lapso inexplicável de bondade divina (ou erro grotesco de precificação), listou essa belezinha por um preço inacreditavelmente abaixo do mercado por algumas horas. Algo em torno de 40 a 50% menos do que os revendedores estavam pedindo. Com impostos pagos, vindo direto dos Estados Unidos. Sonho, né? Pois é, o problema dos sonhos é que às vezes eles viram pesadelos.

No grupo de colecionadores que participo, várias histórias de terror sobre compras internacionais  pipocavam. "Amazon não entrega, extravia no Brasil e não devolve o dinheiro!" diziam. "Esquece, vai perder grana!" avisavam os profetas do caos. Mas eu? Eu sou teimoso. Além disso, esse pack fazia parte de uma wave baseada em uma das minhas histórias preferidas do Justiceiro, com um visual incrível. Era peça única para minha coleção. Fora que o Justiceiro extra poderia servir para um custom de algum outro personagem. Tudo conspirava para a compra. A promoção ficou pouco tempo mas o sonho persistia.

Na verdade, eu tinha colocado em mente que não compraria por conta dos valores altos. E um belo dia, de madrugada, acordei, e por ironia do destino, olhei o celular. E entre os grupos que tenho, um deles estava brilhando: PROMO ACTION. E dava pra ver pela tela do whatszap, sem abrir a mensagem propriamente dita, estava la escrito PUNISH....

Meo Deus! Será?

Era ele, PUNISHER WAR JOURNAL 2 PACK. Fudeu, super em conta com frete e impostos pagos. Se contasse só o valor da figura, estava 3 vezes mais barato que o mercado e mesmo com impostos, ainda estava mais de 50% mais barato. A promoção voltou! 

Pronto, era o que faltava, comprei.

Felicidade tomou conta por dias pra depois surgir aquela ansiedade e medo do que poderia acontecer? Vai chegar, não vai? 

Com o passar dos dias, a entrega, para minha surpresa, estava fluindo bem. Em apenas 12 dias corridos, chegou ao Brasil. Em mais um tempo recorde, chegou à minha cidade, Uberlândia. Meu coração já batia mais forte. "É isso, deu certo!" pensei. Ilusão. No 12º dia, o status da transportadora mudou para "saiu para entrega". E foi aí que o terror começou.

Todos os dias, a Amazon e o site da transportadora (Sky Postal), atualizava: "saiu para entrega". Mas nunca chegava. Era um looping temporal infernal. Sempre saindo para entrega, mas nunca sendo entregue. Assim foi até o último dia estipulado pela própria Amazon. Um mês de espera e nada.

Passado o prazo limite, a Amazon resolveu inovar na tortura psicológica e me colocou numa situação digna do experimento do Gato de Schrödinger: "seu pedido pode chegar a qualquer momento, mas também pode ter sido extraviado". Como assim, Amazon? Ou chega, ou não chega! Eu não estava preparado para essa nova camada de incerteza existencial na minha vida.

Dez dias depois do prazo final, finalmente a Amazon confirmou que a mercadoria foi extraviada e me ofereceu o reembolso. A tristeza bateu pesado. Eu queria aquele pack, não queria o dinheiro de volta. Mas, como dizem, vida que segue.

Até que… um milagre aconteceu. Entrei no chat da Amazon para aceitar o reembolso e o atendente, em tom de surpresa, me deu uma nova atualização: "Seu pedido não foi extraviado! Ele está a caminho e será entregue ainda hoje!". O QUÊ?! Eu mal podia acreditar! Será que era o destino? A reviravolta perfeita?! A melhor das novelas mexicanas? Humilhados sendo exaltados?

Mas, como todo colecionador calejado sabe, alegria dura pouco. Eram 18hrs e nada de entregarem. No fundo, eu já sabia: não ia chegar. Mas pelo menos eu ainda tinha esperança para o dia seguinte.

E então veio a cereja do bolo: o atendente me informou que o pedido seria entregue e que ainda receberia um reembolso total, sem precisar devolver a mercadoria. Sim, você leu certo. Eu ia ganhar a action figure de graça! No mesmo dia, recebi um e-mail confirmando que o reembolso estava sendo processado e que em cinco dias o valor estaria de volta no meu cartão. 

Era o ápice da vitória! Amazon, a melhor empresa do mundo todo!
SIIMMMM, os humilhados seriam finalmente exaltados! DE VERDADE! Uhhhuuuu!

Mas não.

Não! Era bom demais pra ser verdade!

Uma semana passou sem noticias ou entregas. Duas semanas depois e contando e nada de Justiceiro. Entrei em contato novamente, já com um milhão de receios e dessa vez a resposta foi direta: "Seu reembolso está em processamento, mas infelizmente o produto realmente foi extraviado e não será entregue." Sim, o primeiro atendente me deu uma informação errada. Minha felicidade foi um erro de sistema!

Resumo da ópera? Depois de tanta expectativa, frustração e reviravoltas dignas de um thriller psicológico, fiquei sem meu Justiceiro. A peça que deveria brilhar na minha coleção virou apenas um fantasma digital, perdido em algum limbo logístico. E como se a dor não bastasse, os exemplares restantes no mercado agora ostentam preços exorbitantes, multiplicados por três ou quatro vezes o valor que paguei. Uma injustiça digna do próprio Frank Castle.

Para completar, o valor total ainda consta no limite do cartão e não houve nenhum estorno ate a publicação deste post. Porém, consta em outro email que o reembolso pode demorar ate duas faturas. 

Inocente, sigo acreditando. Espero não ter a parte 2 dessa história.

E assim seguimos, firmes, mas nem tanto.

Até breve!

terça-feira, fevereiro 25, 2025

O Expresso do Sofrimento

Viajar de ônibus é uma experiência única. Não no sentido de algo inesquecível e mágico, mas no sentido de ser um teste de resistência física e mental. Eu deveria ter suspeitado que aquela viagem não terminaria bem no momento em que entrei no ônibus e vi minha poltrona: poltrona numero 13, lado esquerdo, do lado da janela, o que significa que meu destino estava selado.

Mas tudo piorou quando minha vizinha da frente, uma jovem de cabelo colorido e múltiplos piercings, resolveu que a vida dela era um episódio de Relaxamento Extremo – O Desafio e reclinou o banco com tanta força que eu quase fui empurrado para um universo paralelo. Senti meus joelhos gritando, minhas costelas comprimidas e meu espaço pessoal reduzido ao tamanho de um envelope.

E se você acha que isso foi o pior, calma. O cheiro. Meu Deus, o cheiro. Quer dizer, se fosse cheiro tava bom. O banco dela tinha um odor que parecia uma mistura de chulé acumulado, mofo de almofada esquecida na chuva e uma pitada de “esqueci de tomar banho há uns dias”. E a cereja do bolo? A cabeça dela, a poucos centímetros do meu nariz. A cada movimento, meu ar era filtrado por aquela combinação olfativa infernal. Um spa sensorial, só que do inferno.

Minhas pernas começaram a formigar, presas entre o assento e a vontade de viver. O ônibus balançava e eu não conseguia me mexer. Tentei reclamar, tossi alto, fiz barulho, mexi no banco… nada. A moça lá, desmaiada, dormindo como se estivesse na melhor suíte de hotel do mundo. Meu único consolo era imaginar que, talvez, ela sonhasse que estava em um banho quente, porque na vida real… bom, já falamos sobre isso.

Eu comecei a pensar que minha vida estava se tornando um filme de terror psicológico. Não era mais sobre a viagem, era sobre como eu poderia sobreviver a esse minúsculo espaço sem enlouquecer. A sensação de estar preso em uma cápsula de sofrimento era tão intensa que comecei a sentir como se o ônibus fosse uma nave espacial indo direto para o abismo da minha paciência. Cada vez que ela mexia a cabeça, parecia que o tempo esticava mais e mais, e eu estava ali, naquela prisão de quatro rodas, esperando um milagre.

Era como se o universo tivesse conspirado contra mim para que eu não tivesse um segundo de paz. Eu estava tão apertado que comecei a acreditar que a moça da frente não estava realmente lá. Talvez fosse uma projeção, uma ilusão criada pelo meu corpo em agonia. Afinal, nada poderia ser real em uma realidade onde eu estava preso em um banco que parecia um meio de tortura medieval. E então, quando finalmente comecei a sentir um leve alívio, como se o ônibus estivesse desacelerando e o fim estivesse próximo, a moça acordou e olhou para o lado.

Minha torturadora piscou, coçou a cabeça e, sem perceber meu sofrimento visível, soltou um bocejo dramático, como se estivesse se preparando para levantar e ir embora de sua jornada perfeita. 

Nesse exato momento, para o desfecho digno do caos absoluto, depois de uma hora e meia de sofrimento, ela ajeitou a mochila no assento ao lado e virou para mim, com um sorriso de quem acabou de acordar de um sono reparador, e disse:
— Nossa, viajei tão bem! Nem vi o tempo passar.

- Nem eu, moça. Mas foi porque eu estava ocupado tentando sobreviver.

Eu só queria paz, mas a vida tem outros planos;
Se fosse fácil, não seria comigo!
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Essas e outras crônicas você encontra aqui no blog no marcador CRONICAS.

É ótimo de ver por aqui novamente! Some não.

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sexta-feira, fevereiro 21, 2025

A Saga dos Chamados Não Resolvidos

Eu já acreditei em muitas coisas na vida. Em Papai Noel, coelho da Páscoa, na ilusão de que abrir um delivery seria fácil. Mas acreditei, acima de tudo, que um dia o iFood responderia aos meus chamados.

Ingênuo. 

Foram meses de batalha, entre 15 e 20 chamados abertos, e um retorno digno de comunicação com um buraco negro: o silêncio absoluto. Quer dizer, quase isso, porque quando responderam, foi só para negar qualquer responsabilidade. Aquele clássico: "A culpa não é nossa. Agradecemos sua compreensão." Compreensão? Eu já estava compreendendo era a chegada do Apocalipse antes de uma resposta útil.

A jornada começou com pequenos problemas na plataforma: pedidos que sumiam, entregadores que desapareciam no mapa, clientes reclamando de erros que não eram nossos. Uma vez, um cliente disse que não recebeu o pedido. O iFood analisou e concluiu que a culpa era... minha. A comida simplesmente evaporou no caminho e a lógica deles era simples: "Devolva o dinheiro". Ah, claro! Talvez eu devesse oferecer uma sessão de espiritismo para encontrar o lanche perdido.

Mas a melhor parte – se é que há algo de melhor nessa desgraça – foi a moderação das minhas respostas nas avaliações. Um cliente disse que a comida chegou fria, mesmo sabendo que o entregador demorou uma eternidade. Respondi educadamente explicando que a entrega era terceirizada. Cliente não quis nem saber, arrebentou na nota da loja e o ifood não aceitou nenhum tipo de moderação, mesmo não tendo culpa diretamente. Ifood aceitou a avaliação de bom grado. O que sobrou pra mim foi um silêncio, como se eu tivesse aceitado a culpa sem nem me defender, 20 reais de cupom que ainda passei para o cliente. Tenso.

E as respostas padrão do suporte? Ah, essas eu poderia tatuar na testa: "Estamos analisando seu caso" (mentira), "Agradecemos seu feedback" (mentira dupla) e "Aguarde que nossa equipe entrará em contato" (mentira tripla, com bônus de ironia). O cúmulo foi quando me disseram que não poderiam resolver porque "o problema não se encaixava nos nossos critérios de atendimento". Ou seja, se um pedido some no meio do caminho, o critério deles é: azar o seu.

Depois de tanto tempo insistindo, desisti. 

A cereja do bolo foi quando um cliente abriu uma reclamação dizendo que não recebeu o pedido, e o iFood, em sua infinita justiça, estornou o valor... tirando diretamente do meu bolso. Enquanto isso, o entregador, que teoricamente sumiu com a comida, continuava lá, firme e forte na plataforma, pronto para sumir com o jantar de outra pessoa. Tentei argumentar, explicar, mostrar provas, mas o suporte respondeu com um belo "sentimos muito pelo transtorno" e seguiu ignorando minha existência. Sério, se o iFood fosse um jogo, eu estaria jogando no modo impossível, sem direito a continues. Agora, quando um problema acontece, já sei que sou eu contra o mundo. Olho para a cozinha, respiro fundo e sigo em frente, porque, entre mim e o iFood, quem nunca vai me abandonar são os boletos.

Se você tem esperança de resolver um chamado no iFood, amigo... eu admiro sua fé. Mas sugiro que faça algo mais produtivo, como aprender a falar com espíritos. Porque, entre nós, a única coisa mais difícil que um chamado respondido no iFood é um fantasma mandando áudio no WhatsApp.
(Ainda vou ter coragem de contar essa historia)

E assim sigo, firme… mas nem tanto!
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Até a próxima!

terça-feira, janeiro 14, 2025

Respostas aos clientes que nunca poderão ser ditas

Sabemos que lidar com pessoas não é fácil. Ainda mais se voce trabalha com comida e fica vulnerável à criticas de pessoas maldosas. A vida de quem trabalha com delivery via app nem sempre é divertida e os problemas enfrentados diariamente são fatores complicadíssimos. 

Como trabalhamos com a plataforma do ifood, estamos sempre vulneráveis aos comentários dos clientes, sejam eles verdadeiros ou não. Essa plataforma atualmente aceita qualquer comentário contra o lojista, independente se ele esta certo ou não. Antigamente a moderação do ifood funcionava. Hoje, eles simplesmente ignoram qualquer solicitação de verificação dos comentários e o cliente pode escrever o que quiser, sem medo de ser recriminado. Pode ser a maior mentira que for, o ifood aceita todas e o lojista fica a mercê de qualquer tipo de cliente. 

Pois bem, hoje chegou o dia da vingança! Aqui no blog, vou colocar os comentários que recebi e alguns outros que ja vi em outras lojas e vou responder todas elas. Como eu não posso responder na plataforma, por vários motivos, vamos esquecer a ética e vamos responder à altura os clientes. Sim hoje é o dia da vingança! Bora!
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Cliente: O pedido vai demorar muito?
Loja: O motoqueiro do ifood ja esta na rua com seu pedido
Cliente: Eu não perguntei isso, perguntei se ele vai demorar pra entregar
Loja: E estou te respondendo que o motoqueiro está na rua com seu pedido, qual parte vc não entendeu? Vou pedir pra ele ligar o GPS e te mandar a localização, seu retardado.

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Cliente: Tem como passar meu pedido na frente, estou com muita fome e preciso comer.
Loja: Não tem como senhora, o prazo é esse que foi passado. Proxima vez pede mais cedo.

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Cliente: Macarrão está igual uma sopa.
Loja: Se vai pouco molho reclama, se vai muito molho, reclama também. Dá vontade mandar pro inferno!

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Cliente: Macarrão está igual uma sopa.
Loja: Voce pede macarrão com molho e estava esperava receber o que? Pão com Mortadela?

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Cliente: Qual o prazo para entrega?
Loja: O mesmo prazo que estava escrito no app antes de voce pedir, voce não leu?

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Cliente: Fiz o pedido e coloquei que era pra colocar 4 vezes o broccolis. Veio somente 1X
Loja: Tá escrito em letras "garrafais" que não adianta marcar o mesmo item mais de uma vez, que será enviado somente um. Não sabe ler? E mais, voce é uma vaca por acaso pra comer tanto brócolis de uma só vez? 

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Cliente: Eu fiz o pedido mas quero cancelar, 28 minutos é muito tempo pra esperar por um macarrão.
Loja: Mais um imbecil que não lê. O tempo esta discriminado antes de fazer o pedido, por que pediu então?

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Cliente: Bacon estava cru.
Loja: Frescura do caralho, o bacon vai quase torrado e o cara reclama que tava cru. Bacon é bom de todo jeito, inclusive é uma delicia cru, cria vergonha.

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Cliente: Pedi um macarrão com brócolis mas não consegui comer pois tinha muitos insetos mortos
Loja: Ah maconheiro filho da puta, insetos mortos? Eu mesmo fiz o macarrão. Por que não tirou fotos e não tentou cancelar via app? Porque era mentira né? Migué pra não pagar, golpista do caralho. Peguei sua fita no dia que me mandou msg no instagram ao invés de solicitar cancelamento via ifood. Golpista. (Com esse cara eu to engasgado até hoje, isso ainda vai dar o que falar. Fiz ate uma parodia sobre esse caso, quem quiser ler, clica aqui.)

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Cliente: Situação da embalagem aberta, derramando, saco aberto, motoboy achando normal, é a prova do maior desrespeito contra o consumidor.
Loja: Outra que não cancelou via ifood e veio reclamar no instagram. Essa bruxa é tão mau-caráter, que conversei com ela, abri chamado com o Ifood para estornar os valores, encaminhei outro produto, mandei cupom para complementar e ela ainda negativa a loja de pura maldade, mesmo ciente que o problema não foi culpa da loja e sim do motoqueiro do ifood. A vaca ja pediu outras cinco vezes e nunca teve problemas, ai um dia, um fdp de um motoqueiro sacaneia e ela desconta na loja. E pra piorar, o ifood ainda aceita a avaliação dela, se isentando da responsabilidade sendo que voce paga pela entrega. É pra acabar mesmo.

(Por coincidência ou não, os dois últimos casos foi o prato com bacon e brócolis. Esse prato deve ta amaldiçoado, só pode.)

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Cliente: Macarrão é bom mas achei um pouco sonso o sabor, mas fora isso eu gostei.
Loja: Sonso é seu nariz.

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Cliente: Sempre peço mas dessa vez não me agradou
Loja: Das outras quatro vezes que pediu, não fez questão nenhuma de dar nota né, agora que "desagradou", vem querer avaliar.. puta!

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Cliente: Levou 2 horas pra entregar e estava parecendo uma sopa.
Loja: Que bom que gostou!

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Cliente: Achei muito gorduroso
Loja: Você colocou só bacon e calabresa e achou gorduroso? Próxima vez experimenta pedir com brócolis, cenoura, milho, quem sabe melhora, trouxão.

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Cliente: Macarrão de supermercado. Eu faço melhor.
Loja: Ué, voce queria que fosse de onde? Da funerária? Temos as melhores avaliações do ramo na cidade e voce faz melhor? Você um talento desperdiçado então. Babaca.


É isso, esses foram alguns "casos" de avaliações e comentários feitos em lojas via Ifood. Alguns fidedignos, outros nem tanto. O importante é que esse é um momento de relaxamento, descontração e que de uma forma ou outra, diminui as frustrações que esse ramo proporciona.

Espero que tenham gostado. Até breve.
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quinta-feira, julho 04, 2024

Uma Ligação Inesperada

O sol brilhava intensamente naquela tarde abafada, fazendo o ar vibrar com um clima preguiçoso que só um dia normal no boteco poderia oferecer. O cheiro de torresmo fritando se misturava ao aroma familiar de café forte e pinga, criando um ambiente acolhedor e descontraído. 

Os clientes habituais se espalhavam pelas mesas, alguns em animadas conversas, outros saboreando uma cerveja gelada enquanto observavam a vida passar lá fora.

Entre risos e goles de cerveja, um cliente em particular chamava atenção. João, um cara simpático e sempre de bom humor, entrou no boteco com um sorriso no rosto, como quem já é da casa. Cumprimentou o dono, fez uma piada sobre o calor, pediu uma cerveja e logo saiu apressado. Ele parecia estar com a cabeça em outro lugar.

No dia seguinte, João voltou ao boteco, desta vez com um brilho diferente nos olhos. Sentou-se no balcão, pediu um café forte e um cigarro, e começou a conversar com o dono, o nosso querido ouvinte e contador de histórias.

"Rapaz, você não sabe o que me aconteceu ontem!", começou João, dando uma risadinha.

João contou que tinha tido um dia difícil. O trabalho não ia bem e ele se sentia meio perdido, sem companhia para dividir suas frustrações. Estava pensando em como iria passar o resto da noite quando, de repente, o telefone tocou. Do outro lado da linha, a voz suave de Maria, sua ex-namorada, ecoou. Maria sempre foi o grande amor de sua vida, e aquela ligação trouxe uma mistura de surpresa e nostalgia.

Ela o convidou para ir ao seu apartamento. Sem pensar duas vezes, João correu até o boteco, comprou algumas cervejas e se dirigiu ao apartamento de Maria.

Quando chegou, Maria estava sentada no sofá, com um sorriso caloroso no rosto. O apartamento estava um pouco bagunçado, com caixas de pizza e latas de cerveja espalhadas pelo chão. "Parece que você teve uma festa ontem", brincou João.

Maria riu e explicou que tinha recebido alguns amigos no dia anterior. Ela estava visivelmente cansada, mas seu espírito extrovertido e sua alegria eram contagiantes. Eles começaram a conversar, relembrando os velhos tempos e ouvindo música. Maria, sempre brincalhona, acendeu um cigarro e ofereceu um a João.

O calor no apartamento estava insuportável, então Maria trocou de roupa, optando por algo mais "confortável". A música continuava tocando, e logo os dois estavam dançando juntos, deixando-se levar pelo ritmo e pelas lembranças.

À medida que a noite avançava, mais bebidas foram consumidas e a conversa se aprofundava. Maria, sempre tão cheia de vida, estava exausta, mas não deixou a energia cair. Em um momento de sinceridade, ela pediu para João passar a noite lá. "Estou tão cansada, só queria alguém pra estar aqui comigo", disse ela. O mais engraçado de tudo isso era que Joao não estava bem naquele dia, estava solitário e a falta de alguém em conjunto foi suprida pela companhia dos dois.

João nem pensou duas vezes e aceitou. Tomaram um banho rápido e logo ja estavam entrelaçados, juntos novamente naquela noite que não prometia nada mas de repente virou uma noite fantastica. Após os momentos de intimidade, os dois acabaram adormecendo logo em seguida, exaustos, mas felizes por aquela reconexão inesperada.

Na manhã seguinte, João acordou cedo e renovado. Maria também acordou cedo e ainda desfrutaram mais uma vez da companhia do outro. Foi um envolvimento carnal porém reconfortante para ambos. Agora sim, João sentia-se leve e pronto para encarar o dia. Se despediu de Maria com um beijo em seus lábios e voltou ao trabalho, sentindo que tudo tinha valido a pena. A ligação, a noite juntos, a conversa, tudo parecia ter trazido uma nova perspectiva. Ambos sabiam que não era um recomeço e sim uma ajuda mutua entre duas pessoas que ja se amaram porém precisaram da ajuda um do outro.

E foi assim que João voltou ao boteco, cheio de histórias para contar. Entre um gole de café e uma tragada no cigarro, ele compartilhou com o dono do bar e uns dois clientes tontos da noite anterior as aventuras desse dia fora do comum. Todos riram, brindaram e continuaram suas próprias jornadas, sabendo que, às vezes, uma simples ligação pode mudar tudo.

No nosso boteco, histórias como a de João e Maria são comuns. Cada cliente traz um pedaço de vida, uma experiência, uma memória, e nós estamos aqui para ouvir, contar e compartilhar. Afinal, no boteco da vida, sempre há espaço para mais uma história.

Passa aqui depois e tomamos uma cervejinha.

É muito bom te ter por aqui.

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