Fabiano, o protagonista, não é herói, não é exemplo, não é vencedor, é só um homem tentando sobreviver, sem estudo, sem proteção, sem sorte. Trabalha em uma terra que não é dele, vive endividado, é explorado, enganado, humilhado, e continua simplesmente porque não tem opção.
A cena com o Soldado Amarelo resume bem isso. Fabiano é provocado, apanha, é preso injustamente e depois pensa em vingança, imagina usar o facão, sente raiva. Em vários momentos, eu cheguei a achar que ele tinha matado o soldado. O texto é tão imerso na cabeça do personagem que a gente confunde pensamento com ação, mas não, ele não faz nada. Ele engole a raiva e segue a vida. (Precisei ler o capitulo mais de uma vez pra entender isso)
E isso talvez seja a parte mais dura do livro. Fabiano nunca reage de verdade. Nos negócios, é sempre passado pra trás, não entende contas, juros, acordos. Confia, perde, trabalha mais e continua pobre. A família mal conversa, os filhos nem nome têm. São “o mais novo” e “o mais velho”. É como se nem tivessem identidade ainda. Sinhá Vitória sonha com uma cama, não com riqueza, não com luxo, simplesmente uma cama melhor. Esse detalhe diz tudo sobre o nível de privação daquela vida.
A seca não é só cenário, é personagem e ela manda em tudo, decide quando a família anda, quando para, quando passa fome, quando foge. E eles fogem o tempo todo. O mais simbólico é o final. O livro termina como começa. A família indo embora, de novo, em busca de uma vida melhor que talvez nunca venha, ou seja, nada mudou, só o tempo passou. É o ciclo da miséria.
Quando terminei, entendi por que esse livro é tão importante. Não é uma história “bonita”, não é confortável, não tenta emocionar fácil, ele mostra a pobreza sem romantizar, mostra a exclusão sem discurso, mostra a injustiça sem panfleto. Só mostra e deixa você lidar com isso.
No começo, confesso que achei difícil, arrastado, complicado demais pra tão poucas páginas. Voltei capítulos, reli trechos, me perdi em palavras do sertão e situações, mas, no final, fez sentido e acredito que era pra ser assim, não era pra fluir, era pra incomodar. Vidas Secas não é um livro pra gostar, é um livro pra entender e depois que você entende, ele fica com você.

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