sexta-feira, maio 01, 2026

A Vida de Chuck


Um filme sobre o fim, que na verdade é sobre viver.

A Vida de Chuck é um daqueles filmes que começam de um jeito estranho, quase monótono, e que você acha que já entendeu o ritmo, até perceber que não entendeu nada. E quando ele encaixa, vira outro filme completamente diferente. Esse texto contém spoilers.

O filme começa pelo fim. Não o fim da história, mas o fim da vida do Chuck, e tudo parece grande demais, com o mundo colapsando, caos acontecendo, como se fosse um apocalipse, mas aos poucos você percebe que aquilo não é o mundo acabando, é a mente dele se apagando, é a vida dele chegando ao fim, e isso muda completamente a forma como você enxerga tudo que está acontecendo ali.

Depois disso, o filme volta no tempo, mostrando o meio da vida e depois o começo, infância, adolescência, e vai reconstruindo quem ele foi, como ele viveu, o que ele sentiu, e tudo começa a fazer sentido de um jeito muito natural, sem precisar explicar demais, só deixando você ligar os pontos.

E aí vem o que, pra mim, é o coração do filme: a ideia de que viver importa justamente porque ela acaba. Não é sobre grandes feitos, nem sobre algo extraordinário, é sobre viver mesmo, aproveitar, sentir, porque em algum momento isso vai terminar, e a gente nunca sabe quando.

O filme também traz uma ideia muito forte de que as pessoas não são uma coisa só, que dentro de cada pessoa existem várias versões, várias influências, várias “multidões”, como se cada pessoa que passou pela nossa vida deixasse um pedaço ali dentro, e nós fossemos formado por tudo isso.

E talvez por isso o filme funcione tão bem. Porque ele começa parecendo distante, quase frio, e termina sendo extremamente pessoal. Você não sai pensando só no Chuck, você sai pensando em você, se está vivendo de verdade ou só passando o tempo, esperando as coisas acontecerem. 

No fim, A Vida de Chuck me surpreendeu. Achei que seria um filme arrastado, mas ele cresce, encaixa e entrega algo muito maior do que parecia no começo. Não é um filme sobre morte. É um filme sobre vida. E sobre como a gente escolhe viver enquanto ainda tem tempo.

Pra finalizar, vale destacar também que A Vida de Chuck é baseado em uma obra de Stephen King, e isso por si só já chama atenção, principalmente por fugir bastante daquilo que muita gente espera do autor, aqui longe do terror mais explícito e muito mais focado em reflexão e emoção. E talvez justamente por esse tom mais sensível e contemplativo, o filme tenha todas as características típicas de produções que costumam aparecer nas premiações, com narrativa diferente, carga emocional forte e uma proposta mais autoral. Por isso mesmo, surpreende o fato de não ter recebido nenhuma indicação ao Oscar, porque é exatamente o tipo de filme que normalmente encontra espaço ali.

A Vida de Chuck está disponivel na Amazon Prime.

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terça-feira, abril 28, 2026

A Longa Marcha - Caminhe ou Morra


A Longa Marcha - Caminhe ou Morra é um daqueles filmes que parecem simples demais na ideia, mas que te pegam justamente pela execução. Não tem arena elaborada, não tem grandes reviravoltas visuais, não tem espetáculo, é só uma estrada, um grupo de jovens e uma regra cruel: continue andando ou morra.

Tudo aqui é mais seco, mais direto e, de certa forma, mais incômodo. Não existe distração, não existe pausa. O filme vai te colocando dentro daquela caminhada e, aos poucos, você começa a sentir o desgaste junto com os personagens. No começo parece até controlado, quase administrável, mas conforme o tempo passa, o cansaço físico vira psicológico, e aí começa a parte mais pesada.

O grande acerto do filme está justamente nisso, ele não depende de ação constante, explosões ou grandes cenas para prender. A tensão vem da repetição, da exaustão, da certeza de que aquilo não vai parar. Cada passo importa, cada desaceleração vira risco, e cada personagem começa a reagir de um jeito diferente à pressão. Alguns tentam manter a sanidade, outros vão quebrando aos poucos, e o espectador fica ali, acompanhando essa deterioração sem conseguir desviar.

E no meio disso tudo, existe uma crítica muito clara. Não é só sobre uma competição absurda, mas sobre sistema, obediência e até sobre como as pessoas se submetem a regras cruéis quando existe algum tipo de recompensa no final. O filme não precisa explicar muito, ele só mostra, e isso já é suficiente para causar desconforto.

Talvez o mais interessante seja que, em determinado momento, deixa de importar quem vai ganhar. A sensação que fica é outra, o que sobra de alguém depois de passar por tudo aquilo. Porque a caminhada não destrói só o corpo, ela vai corroendo a mente, a esperança e qualquer senso de normalidade.

No fim, A Longa Marcha - Caminhe ou Morra, funciona justamente por não tentar ser maior do que precisa. É um filme direto, pesado e desconfortável, que te prende mais pela ideia e pela execução do que por qualquer espetáculo. Não é o tipo de filme que você assiste relaxado, mas é exatamente esse incômodo que faz ele funcionar tão bem. Só lembrando, é um filme baseado na obra de Stephen King.

Assisti o filme no Telecine.


domingo, abril 26, 2026

A Maquina do Tempo - 1960

Clássico imperfeito, mas cheio de charme


Assistir A Máquina do Tempo hoje, tantos anos depois do lançamento, é quase como fazer uma pequena viagem no tempo também, não só pela história, mas pela forma como o cinema era feito naquela época.

A primeira coisa que chama atenção é como esse filme se aproxima muito mais da adaptação dos anos 2000 do que do próprio livro de H. G. Wells. Aqui, o viajante realmente experimenta a viagem no tempo como a gente imagina, passando por diferentes épocas, observando mudanças no mundo e até presenciando momentos ligados às duas guerras mundiais, ainda que de forma rápida. Essa sensação de atravessar eras, vendo tudo mudar ao redor enquanto ele permanece ali, não é muito bem trabalhada mas, curiosamente, é algo que o livro original não explora tanto quanto deveria.

E tem um ponto que, pra mim, é parte fundamental da experiência, o charme dos efeitos especiais antigos. É tudo claramente datado, com soluções simples e até meio “mal feitas” para os padrões de hoje, mas isso não atrapalha, pelo contrário, dá uma identidade própria ao filme. Os Morlocks, por exemplo, são basicamente atores sem camisa com um capacete de monstro, algo bem artesanal, mas que ainda assim funciona dentro da proposta e acaba sendo até divertido de assistir.

Já os Eloi seguem outro caminho. O filme aposta forte na estética, com um futuro cheio de figuras quase perfeitas, e sim, com muitas donzelas bonitas. A personagem Weena, inclusive, acaba sendo um destaque nesse sentido, e não dá pra negar que o filme cria aquele tipo de cenário que faz o espectador pensar, mesmo que em tom de brincadeira, em como seria viver naquele futuro ou até trazer alguém de lá de volta (Weena). E, claro, já que estamos falando de viagem no tempo, sempre fica aquela ideia inevitável de dar um pulinho no futuro só pra conferir o resultado da próxima Megasena.

O final também merece destaque. A sequência com os Morlocks atacando o viajante é bem próxima do que lemos no livro, assim como o epílogo, com ele relatando a experiência aos amigos. E o detalhe da flor deixada por Weena, encontrada no bolso, fecha a história de uma forma simples, mas muito eficaz, mantendo essa conexão emocional com a jornada que ele viveu.

No fim, A Máquina do Tempo de 1960 é aquele tipo de filme que você não assiste pela perfeição técnica, mas pela experiência ainda mais porque acabei de ler o livro. Ele pode ter efeitos datados e soluções simples, mas compensa com ideia, atmosfera e um certo charme que só os clássicos conseguem ter. É uma viagem no tempo dentro e fora da tela.

Assisti o filme pelo You Tube, de graça.

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sexta-feira, abril 24, 2026

A Maquina do Tempo - HGWells

Comecei A Máquina do Tempo, do H. G. Wells, com uma expectativa lá em cima, muito por conta das referências que eu já tinha, tanto do filme quanto até de The Big Bang Theory, no qual aparecem elementos como os Morlocks e toda aquela ideia clássica de viagem no tempo que a gente já está acostumado a ver.

Na minha cabeça, o livro seguiria algo mais próximo disso, com o viajante explorando diferentes épocas, mostrando várias eras, brincando mais com as possibilidades da viagem no tempo, mas não é isso que acontece, e talvez esse tenha sido o primeiro choque. A história toma um caminho bem mais específico e concentrado, levando o protagonista para um futuro distante e completamente distorcido, onde existem os Elois na superfície e os Morlocks vivendo nas profundezas.

E é justamente nessa parte que o livro mais me decepcionou. A viagem em si, que era para ser o ponto alto, acabou sendo a parte mais arrastada da leitura, pelo menos na minha experiência. Eu esperava algo mais dinâmico, mais exploratório, e encontrei uma narrativa mais contida, quase presa naquele cenário específico, sem expandir tanto quanto eu imaginava.

Por outro lado, o livro tem méritos claros. A leitura é fácil, a linguagem é direta, e dá para entender por que essa obra é considerada um clássico dentro da ficção científica. Existe uma ideia interessante por trás dessa divisão entre Elois e Morlocks, uma crítica social ali embutida, mesmo que o desenvolvimento não tenha me envolvido tanto quanto eu esperava.

Também vale mencionar a edição que eu li, que faz parte de um box com várias obras do autor, e que é bem caprichada visualmente, o que sempre ajuda na experiência de leitura. Ainda tenho outros três ou quatro livros do mesmo autor aqui, então fica aquela curiosidade para ver se as próximas leituras vão me agradar mais.

No fim, A Máquina do Tempo não é um livro ruim, longe disso, mas acabou sendo diferente demais da expectativa que eu criei antes de começar, e isso pesou na experiência. Talvez funcione melhor para quem entra sem referências ou sem esperar algo mais próximo das adaptações que vieram depois.


segunda-feira, abril 20, 2026

Justica Artificial


Justiça Artificial é aquele tipo de filme que surpreende logo de cara. Sem muita enrolação: que pancada. A proposta é simples no papel, mas extremamente bem executada, e o resultado é um suspense que prende do começo ao fim.

O filme acompanha um protagonista que passa praticamente toda a história sentado, sendo julgado por uma inteligência artificial, e mesmo assim, em nenhum momento a sensação é de algo parado ou monótono. Pelo contrário, a tensão é constante, porque o tempo está contra ele. São poucas horas para provar a própria inocência, enquanto tenta reconstruir o que aconteceu no assassinato da própria esposa.

E é aí que o filme acerta em cheio. Ele transforma um espaço limitado e uma situação aparentemente estática em algo dinâmico, cheio de urgência. Você, como espectador, fica completamente envolvido na busca pelas respostas, tentando montar o quebra-cabeça junto com o personagem, desconfiando de cada detalhe, de cada informação que surge.

O protagonista, vivido por Chris Pratt, o eterno Senhor das Estrelas da Marvel, segura bem o filme e consegue transmitir essa mistura de desespero, urgência e necessidade de provar a verdade, mantendo o espectador conectado com a história o tempo inteiro.

O mais interessante é como o filme trabalha a ideia de justiça nas mãos de uma máquina. Até que ponto uma inteligência artificial pode realmente julgar alguém? Existe espaço para erro? Para emoção? Para interpretação? Essas perguntas ficam rondando a cabeça enquanto a trama avança.

E mesmo com essa camada mais reflexiva, o filme não perde ritmo. Cada pista revelada, cada detalhe novo, cada virada na história faz você querer continuar assistindo, entender o que realmente aconteceu e se aquele homem vai conseguir provar sua inocência a tempo.

No fim, Justiça Artificial é um daqueles filmes que valem muito a pena, não só pela ideia, que já é interessante por si só, mas pela forma como ela é conduzida, mantendo tensão, ritmo e envolvimento do início ao fim. Te prende pela ideia e pela execução, não precisa de exagero, não precisa de espetáculo, só de uma boa construção e de um roteiro que sabe exatamente como manter você dentro da história até o último momento.

Justiça Artificial está disponivel no Amazon Prime.

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sábado, abril 18, 2026

Caminhos do Crime


Caminhos do Crime chegou com cara de filme intenso, daqueles que prendem pela tensão e pelo ritmo acelerado, muito por conta do trailer, que vende uma história mais eletrizante do que realmente é, e talvez aí esteja o primeiro problema, porque o filme promete uma coisa e entrega outra bem diferente.

O destaque inicial fica por conta do Chris Hemsworth, conhecido por viver o Thor, e que aqui tenta um papel mais contido e mais sério, sem comprometer, mas também sem entregar nada memorável, ficando naquela zona segura de atuação correta que não cria grande conexão com o público.

No meio disso tudo, quem acaba se destacando de verdade é Mark Ruffalo, que rouba a cena sempre que aparece, como o lado policial da historia, , trazendo mais presença e elevando o nível das cenas em que participa, enquanto Halle Berry acaba sendo o oposto disso, com uma participação que pouco acrescenta à história e que poderia facilmente ser retirada sem causar qualquer impacto no desenvolvimento do filme.

O ritmo é mais lento do que deveria, mas não é aquele lento proposital e contemplativo que agrega à narrativa, e sim um andamento que em vários momentos parece arrastado, como se a história estivesse sendo esticada além do necessário. Algo que fica ainda mais evidente em tramas paralelas que não levam a lugar nenhum, como o envolvimento do protagonista com uma personagem que não influencia os acontecimentos e soa apenas como preenchimento de tempo.

Com o passar do filme, essa sensação começa a pesar, não por falta de ideia, mas justamente porque dá para enxergar que existia potencial ali para algo mais tenso, mais envolvente e mais marcante. Só que a execução segue por um caminho previsível, sem grandes riscos, caindo naquele território confortável do “mais do mesmo”.

E quando chega ao final, fica difícil não pensar que o trailer foi mais impactante do que o próprio filme, porque tudo que parecia promissor acaba diluído em uma narrativa que não sustenta a expectativa criada.

No fim, Caminhos do Crime não é um filme ruim, mas também passa longe de ser memorável, sendo aquele tipo de produção que você assiste, entende a proposta, enxerga o potencial, mas termina com a sensação de que poderia ter sido muito mais.

Caminhos do Crime está disponível no Amazon Prime


quinta-feira, abril 16, 2026

Quando o Ceu se Engana


Quando o Céu se Engana: entre o humor e a reflexão sobre destino

Assistir Quando o Céu se Engana é uma experiência curiosa. Não é exatamente o filme que você espera, e talvez aí esteja tanto o acerto quanto o problema dele. Logo de cara, ver Keanu Reeves interpretando um anjo já causa um certo estranhamento. Não é ruim, mas é no mínimo curioso.

Existe até um certo charme nisso, porque foge do padrão, mas ao mesmo tempo parece que o filme nunca decide se quer levar isso para o lado mais leve ou mais sério.

A ideia central é muito boa, pois o filme trabalha com essa noção de destino, de consequências, de que a vida pode ser uma sequência de escolhas que, de alguma forma, já estavam desenhadas. É o tipo de proposta que naturalmente faz você olhar para si mesmo e pensar na própria vida, nas decisões que tomou e nos caminhos que acabou seguindo.

Só que, no meio disso tudo, o filme parece tentar empurrar uma sensação de conformismo, como se tudo já estivesse escrito e a gente estivesse apenas vivendo aquilo que merece, sem muito espaço para mudança real. É uma visão que me incomoda um pouco, porque tira parte da responsabilidade ativa das nossas escolhas e coloca tudo quase como inevitável.

E talvez o maior problema seja o tom. Em teoria, o filme flerta com a comédia, mas na prática isso não funciona tão bem. As situações até têm potencial, mas não chegam a arrancar risadas, pelo menos comigo, não funcionou nesse sentido. O que ficou mesmo foi a reflexão.

Não é um filme que você termina rindo, é um filme que você termina pensando. Pensando na vida, nas escolhas, no que poderia ter sido diferente, e talvez esse seja o verdadeiro impacto dele, mesmo que não tenha sido exatamente o que o filme prometia.

No fim, já vi filmes melhores, principalmente dentro dessa proposta, mas ainda assim, "Quando o Céu se Engana" consegue fazer algo importante, te tirar do automático por um tempo e te obrigar a olhar um pouco mais para dentro.

Caminhos do Crime está disponível no Amazon Prime.

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quarta-feira, abril 08, 2026

Meu Silencio Ainda Chama Seu Nome


Meu silêncio ainda chama seu nome

Tem dias em que eu não falo nada.
Não mando mensagem, não procuro saber, não entro em lugar nenhum que possa me levar até você.
Por fora, parece que segui.

Mas por dentro… não.

Existe um silêncio aqui que não é paz.
É ausência.
É espaço vazio com o formato exato de alguém que já esteve.

E o mais estranho é que, mesmo sem som, ele continua chamando.
Chamando você.

Não é um chamado alto, desesperado.
É mais sutil.
Aparece quando acordo e sua imagem vem antes de qualquer pensamento.
Aparece no meio do dia, quando algo simples me lembra de você.
E principalmente à noite, quando tudo fica quieto demais… e não tem mais pra onde fugir.

Eu achei que o tempo ia resolver.
Que bastava não ver, não falar, não sentir.
Mas o sentimento não funciona assim.

Ele não vai embora porque a gente decide.
Ele vai se transformando, se escondendo… até que um dia volta, do nada, só pra lembrar que ainda existe.

E existe.

Mas junto com ele, existe outra coisa agora.
A realidade.

A forma como terminou.
As coisas que não encaixavam.
Os silêncios que doíam mais do que qualquer briga.
A sensação de estar ali… e mesmo assim, não ser prioridade.

Eu sinto sua falta.
Mas também lembro do quanto doía sentir isso enquanto você ainda estava ali.

E talvez seja isso que mais confunde.
Porque o mesmo silêncio que hoje chama seu nome…
é o mesmo silêncio que eu sentia quando você não respondia.

Então eu fico aqui, nesse meio.

Nem completamente preso ao que passou.
Nem totalmente livre pra seguir.

Só aprendendo, aos poucos, a ficar em silêncio…
sem precisar te chamar o tempo todo.

Talvez um dia esse silêncio vire paz de verdade.
Sem saudade que aperta.
Sem lembrança que pesa.

Por enquanto, ele ainda chama.

E ainda ecoa forte demais.


terça-feira, março 31, 2026

Silencio Justificado


Um pequeno silêncio por aqui… mas por um bom motivo.
Se você acompanha o blog, deve ter percebido que o ritmo deu uma diminuída nos últimos dias. Menos textos, menos resenhas, menos presença por aqui.
E não foi por acaso.

Nas últimas duas semanas eu praticamente mergulhei de cabeça em outro projeto: o canal no YouTube. E quando eu digo mergulhei, é isso mesmo. Tempo, energia, foco… tudo foi direcionado pra lá.

Com isso, acabei lendo menos do que gostaria, assistindo menos filmes do que o normal e, consequentemente, escrevendo menos por aqui também. Mas faz parte.

Quem cria conteúdo sabe que às vezes é preciso dar um passo para o lado, ajustar a rota, testar coisas novas e entender para onde a energia está indo. Não dá pra estar em tudo ao mesmo tempo com a mesma intensidade.

O importante é que isso aqui não parou, só ficou em um ritmo diferente. E a boa notícia é que abril promete. A ideia é voltar com mais consistência, trazendo novas resenhas de livros, análises de filmes e textos mais reflexivos, como sempre foi a proposta do Multiverso do Kaka.

Então esse “silêncio” não é abandono.
É só um intervalo estratégico.
E, se tudo der certo, o que vem pela frente vai ser ainda melhor.


sábado, março 21, 2026

Mais um Aniversario


Hoje é meu aniversário.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estou preocupado em fazer desse dia algo grandioso. Não tem festa, não tem plano mirabolante, não tem expectativa de nada extraordinário, tem só um dia comum… e, curiosamente, isso já diz muita coisa.

O último ano foi duro.

Não foi aquele tipo de dificuldade que dá pra resumir em um problema só. Foi um acúmulo, coisas que não deram certo, decisões que hoje eu faria diferente, perdas que demoraram mais do que deveriam para serem entendidas. Teve momento de raiva, de frustração, de silêncio, teve fase em que a cabeça não parava, e outras em que parecia que nada fazia sentido.

Mas teve uma coisa que eu só fui perceber agora. Eu não parei.

Mesmo nos dias em que tudo parecia travado, eu continuei. Às vezes devagar, às vezes sem direção clara, às vezes só tentando não piorar o que já estava ruim, mas continuei. E isso, olhando com mais calma, já é alguma coisa.

Hoje eu não estou onde eu gostaria de estar, seria mentira dizer isso. Ainda tem muita coisa para resolver, principalmente no lado prático da vida, mas também seria injusto dizer que nada mudou. Mudou, sim.

A forma de enxergar algumas pessoas, algumas situações, e principalmente a forma de enxergar a mim mesmo. Coisas que antes eu aceitava, hoje já não fazem mais sentido, coisas que pareciam indispensáveis, hoje já não têm o mesmo peso. Talvez isso seja crescer. Ou talvez seja só aprender do jeito mais difícil.

Hoje não é um recomeço cheio de energia, daqueles que a gente vê em frases prontas, é mais simples do que isso, é um ponto de continuação. Um momento de olhar pra frente e entender que, mesmo sem todas as respostas, eu ainda tenho caminho. Sem pressa, sem desespero, só seguindo.


quarta-feira, março 18, 2026

Pecadores - Sinners

Um resenha honesta sobre esse filme do inicio de 2025 mas que surpreendeu bastante.


Pecadores é terror, história e crítica social em um só filme, que consegue equilibrar terror sobrenatural com comentários sociais profundos. O destaque inicial vai para a atuação do protagonista, que interpreta os dois irmãos gêmeos de forma tão convincente que, mesmo sabendo que é o mesmo ator, você fica se perguntando, “como fizeram isso?” A performance é impecável, carregada de nuances que diferenciam cada irmão, e dá ao espectador a sensação de estar assistindo a duas pessoas reais, em vez de uma atuação em duplicidade.

A história se passa em um período marcado pela segregação racial e pelo preconceito, destacando, de forma clara e impactante, a presença de grupos extremistas que assombravam a sociedade da época. O filme usa esse contexto como pano de fundo para a narrativa de terror, mostrando que o mal pode estar tanto nas instituições quanto nos espaços isolados e aparentemente seguros.

É nesse cenário que Pecadores introduz elementos de vampiros, mas de uma forma completamente nova. Não são criaturas óbvias ou caricatas; surgem de maneira sutil, quase despercebida, lembrando o clima de Um Drink no Inferno, de Robert Rodríguez. Esse cuidado em mistificar o sobrenatural faz com que o terror seja tanto psicológico quanto visual, e funciona perfeitamente dentro de uma trama que já é densa por si só.

O filme também não perde a oportunidade de trazer críticas sociais relevantes, que ressoam fortemente ainda hoje. Racismo, segregação e injustiça social são tratados com seriedade, reforçando a importância de filmes que, além de entreter, faz o espectador refletir sobre a sociedade. É esse equilíbrio que faz de Pecadores um filme marcante e diferenciado entre os lançamentos de 2025.

Com 16 indicações ao Oscar, o filme confirmou sua força e relevância, conquistando 4 estatuetas, entre elas categorias técnicas e de atuação. Mesmo assim, manteve seu lugar entre os melhores filmes do ano, ao lado de Uma Batalha Após a Outra, do Leonardo DiCaprio, outro que já analisamos aqui no blog.

Em resumo, Pecadores é mais do que um filme de terror, é uma obra que mistura história, crítica social e suspense de forma precisa, impactante e inesquecível. Um daqueles filmes que não apenas assustam, mas fazem o espectador pensar, sentir e refletir sobre a sociedade em que vivemos.

Pecadores está disponivel na HboMax


domingo, março 15, 2026

O Agente Secreto


Assisti O Agente Secreto com uma expectativa bem específica. Sabia que era um filme ambientado na Ditadura Militar Brasileira, estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho, e que vinha sendo muito elogiado em festivais internacionais. Naturalmente imaginei que veria um thriller político intenso, talvez uma história de espionagem, infiltração ou perseguição direta do regime militar. Mas o filme acaba sendo bem diferente disso.

Primeiro vale falar da atuação de Wagner Moura. Ele é, sem dúvida, um grande ator, já demonstrou isso em vários momentos da carreira, principalmente em filmes como Tropa de Elite ou até produções internacionais como Elysium. Nesses papéis ele mostra intensidade, presença e carisma, já aqui porém, a interpretação segue outro caminho. O personagem é extremamente contido, fala pouco e passa grande parte do tempo em silêncio, é uma atuação minimalista, mais baseada em observação e tensão interna. Para alguns críticos isso pode ser visto como algo sofisticado, mas para mim acabou parecendo uma das interpretações menos marcantes dele, não porque ele atue mal, mas porque o papel simplesmente não exige grandes momentos dramáticos.

A história acompanha um professor que aparentemente está sendo perseguido. No começo parece que veremos um caso clássico de perseguição política, alguém fugindo diretamente da máquina repressiva da ditadura, mas conforme o filme avança, a situação parece muito mais ligada a um conflito com um empresário poderoso, alguém que usa sua influência e conexões para resolver problemas de forma violenta. Isso cria uma ambiguidade interessante, não fica totalmente claro se a perseguição é realmente institucional ou se nasce de uma vingança pessoal dentro de um sistema já corrompido pelo poder.

Existe, sim, crítica ao regime militar. Em alguns momentos ela aparece de forma direta, e em outros de maneira simbólica. Uma das cenas mais curiosas é aquela em que uma perna peluda anda sozinha pela praça chutando pessoas e deixando mortos e desaparecidos pelo caminho. É uma imagem estranha, quase surreal, mas que funciona como metáfora para os desaparecimentos da ditadura, quando pessoas simplesmente sumiam sem explicação. É um tipo de linguagem simbólica que talvez passe despercebida por parte do público, mas que carrega uma crítica forte.

Mesmo com esses elementos, o filme tem um problema de ritmo. Com quase três horas de duração, a narrativa é muito lenta e contemplativa. Boa parte da história se constrói em silêncio, observação e pequenos gestos. Isso cria atmosfera, mas também torna a experiência cansativa em vários momentos. Existem cenas fortes, especialmente um tiroteio bastante intenso que chega a ser perturbador, mas elas são raras dentro de um filme tão longo.

No fim das contas, fiquei com a sensação de que esperava um tipo de história e encontrei outra. Achei que veria um thriller político cheio de tensão e ação envolvendo espionagem ou perseguição direta da ditadura, ao invés disso, o que aparece é um drama mais introspectivo sobre paranoia, poder e sobrevivência dentro de um ambiente opressor.

Ainda assim, filmes sobre esse período continuam sendo necessários. A ditadura militar foi um dos momentos mais sombrios da história brasileira, marcado por censura, perseguições e desaparecimentos. Obras que revisitarem esse passado ajudam a manter viva a memória histórica e lembram por que regimes autoritários nunca devem voltar.

O Agente Secreto talvez não seja o filme mais envolvente ou empolgante do ano, mas levanta discussões importantes. Como cinema, pode ser cansativo, como lembrança histórica, continua tendo seu valor.

Quando se fala em filmes sobre a ditadura, sempre aparece alguém dizendo que a crítica política é exagerada ou desnecessária. Eu discordo completamente. A ditadura militar foi um dos períodos mais sombrios da história brasileira, marcado por censura, perseguições, tortura e desaparecimentos. Não existe “excesso” quando o assunto é lembrar esse passado.

Quanto mais obras discutirem esse período, melhor. Cinema, literatura e arte em geral têm justamente esse papel: manter viva a memória histórica para que erros desse tamanho nunca voltem a acontecer. Nesse sentido, O Agente Secreto cumpre uma função importante, mesmo sendo um filme lento e muitas vezes contemplativo, ele reforça a ideia de que havia um clima de medo constante, na qual qualquer pessoa que entrasse em conflito com estruturas de poder podia acabar perseguida ou silenciada.

Relembrar esse período não é apenas revisitar o passado, é também um alerta permanente de que regimes autoritários não surgem do nada, eles se constroem aos poucos, muitas vezes com apoio de setores da sociedade que acreditam estar defendendo ordem ou estabilidade. Por isso, independentemente das qualidades ou problemas do filme, uma coisa é inegável, histórias ambientadas nesse período continuam sendo necessárias, memória histórica não é exagero, é prevenção.

O Agente Secreto está disponivel na Netflix.