O livro tem momentos muito fortes, principalmente quando mostra a sensação de impotência humana diante dos marcianos, mas sofre demais com o excesso de descrição e com uma narrativa que frequentemente parece andar em círculos. Existe uma obsessão enorme do autor em detalhar cidades, territórios, regiões próximas de Londres e descrições geográficas que muitas vezes quebram completamente o ritmo da história. Ele cita um milhão de bairros, regiões e cidades que não fazem muito sentido pra quem nunca foi à Inglaterra. Em vários capítulos parece menos uma narrativa de invasão alienígena e mais uma aula de localização territorial da Inglaterra.
E isso se repete também nas descrições dos próprios marcianos. Claro, é interessante ver H. G. Wells imaginando seres extraterrestres de uma forma tão diferente para a época, mas em alguns momentos a explicação entra num nível tão detalhado de anatomia e fisiologia que parece literalmente uma aula científica. Existe mérito nisso, principalmente considerando o período em que o livro foi escrito, mas para o leitor moderno acaba ficando cansativo.
Outro ponto que me incomodou bastante foi toda a parte envolvendo o narrador e o padre. A convivência dos dois rende capítulos demais para algo que, sinceramente, parece não levar a história para frente. O protagonista passa muito tempo praticamente parado, discutindo sobrevivência, desespero e comportamento humano enquanto a invasão marciana, que deveria ser o foco principal, fica quase em segundo plano. Dá uma sensação constante de enrolação.
E talvez isso explique parte da minha frustração com o autor. Esse já é o segundo livro de Wells que leio em sequência e novamente fico com a impressão de que as adaptações cinematográficas conseguem pegar a essência da ideia e transformá-la em algo mais interessante do que a própria obra original. Foi exatamente a sensação que tive com A Máquina do Tempo também.
Ainda tenho outros livros dele aqui, como A Ilha do Dr. Moreau e O Homem Invisível, mas confesso que agora já vou preparado psicologicamente, sabendo exatamente o estilo que devo encontrar. Mas aí aconteceu algo interessante.
Quase no final do livro existe uma conversa entre o narrador e um soldado sobrevivente, conhecido como o homem da colina, e ali sim a obra cresce absurdamente. Talvez seja o melhor capítulo do livro. Pela primeira vez, a história para de apenas mostrar fuga e destruição e começa realmente a discutir o impacto da invasão na humanidade.
O soldado acredita que os marcianos não vieram exterminar os humanos, mas dominar o planeta para viver aqui permanentemente, preparando a Terra para a chegada de outros de sua espécie. E diante disso, ele imagina um futuro completamente distorcido, onde parte da humanidade aceitaria viver em gaiolas em troca de comida, quase como animais domesticados dos marcianos. E o pior é que, dentro daquele contexto de destruição total, a ideia nem parece tão absurda assim.
Até chegar nesse capítulo, eu ainda achava os filmes claramente superiores ao livro. Depois dele, honestamente? Ficou pau a pau. Porque esse tipo de discussão filosófica, social e psicológica é algo que o cinema dificilmente conseguiria aprofundar da mesma forma. É exatamente aqui que a literatura mostra sua força.
E então chegamos ao final clássico da história. Os marcianos simplesmente param. As máquinas deixam de se mover e aos poucos descobrimos que eles morreram vítimas de bactérias e doenças terrestres, algo para o qual seus organismos não tinham qualquer defesa imunológica. E existe uma frase do próprio livro que resume perfeitamente isso tudo:
“Massacrados por uma doença bacteriana pútrida, contra a qual o sistema deles não estava preparado… exterminados por um dos seres mais humildes que Deus, em sua sabedoria, pôs na Terra.”
Frase Genial! Inclusive, essa frase praticamente atravessou gerações e acabou sendo usada também nas adaptações cinematográficas.
A Guerra dos Mundos é um livro extremamente importante para a história da ficção científica, disso não existe dúvida. A questão é que importância histórica nem sempre significa uma leitura envolvente para todos os leitores modernos. Existe uma ideia brilhante aqui, momentos realmente marcantes e discussões muito interessantes, mas também existe uma narrativa excessivamente descritiva e lenta que pode afastar muita gente no caminho.
E talvez a maior qualidade de Wells seja justamente essa, criar conceitos tão fortes que, mesmo quando os livros não me conquistam completamente, ainda assim continuam gerando filmes, debates e histórias fascinantes mais de cem anos depois.














