quarta-feira, março 18, 2026

Pecadores - Sinners

Um resenha honesta sobre esse filme do inicio de 2025 mas que surpreendeu bastante.


Pecadores é terror, história e crítica social em um só filme, que consegue equilibrar terror sobrenatural com comentários sociais profundos. O destaque inicial vai para a atuação do protagonista, que interpreta os dois irmãos gêmeos de forma tão convincente que, mesmo sabendo que é o mesmo ator, você fica se perguntando, “como fizeram isso?” A performance é impecável, carregada de nuances que diferenciam cada irmão, e dá ao espectador a sensação de estar assistindo a duas pessoas reais, em vez de uma atuação em duplicidade.

A história se passa em um período marcado pela segregação racial e pelo preconceito, destacando, de forma clara e impactante, a presença de grupos extremistas que assombravam a sociedade da época. O filme usa esse contexto como pano de fundo para a narrativa de terror, mostrando que o mal pode estar tanto nas instituições quanto nos espaços isolados e aparentemente seguros.

É nesse cenário que Pecadores introduz elementos de vampiros, mas de uma forma completamente nova. Não são criaturas óbvias ou caricatas; surgem de maneira sutil, quase despercebida, lembrando o clima de Um Drink no Inferno, de Robert Rodríguez. Esse cuidado em mistificar o sobrenatural faz com que o terror seja tanto psicológico quanto visual, e funciona perfeitamente dentro de uma trama que já é densa por si só.

O filme também não perde a oportunidade de trazer críticas sociais relevantes, que ressoam fortemente ainda hoje. Racismo, segregação e injustiça social são tratados com seriedade, reforçando a importância de filmes que, além de entreter, faz o espectador refletir sobre a sociedade. É esse equilíbrio que faz de Pecadores um filme marcante e diferenciado entre os lançamentos de 2025.

Com 16 indicações ao Oscar, o filme confirmou sua força e relevância, conquistando 4 estatuetas, entre elas categorias técnicas e de atuação. Mesmo assim, manteve seu lugar entre os melhores filmes do ano, ao lado de Uma Batalha Após a Outra, do Leonardo DiCaprio, outro que já analisamos aqui no blog.

Em resumo, Pecadores é mais do que um filme de terror, é uma obra que mistura história, crítica social e suspense de forma precisa, impactante e inesquecível. Um daqueles filmes que não apenas assustam, mas fazem o espectador pensar, sentir e refletir sobre a sociedade em que vivemos.

Pecadores está disponivel na HboMax


domingo, março 15, 2026

O Agente Secreto


Assisti O Agente Secreto com uma expectativa bem específica. Sabia que era um filme ambientado na Ditadura Militar Brasileira, estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho, e que vinha sendo muito elogiado em festivais internacionais. Naturalmente imaginei que veria um thriller político intenso, talvez uma história de espionagem, infiltração ou perseguição direta do regime militar. Mas o filme acaba sendo bem diferente disso.

Primeiro vale falar da atuação de Wagner Moura. Ele é, sem dúvida, um grande ator, já demonstrou isso em vários momentos da carreira, principalmente em filmes como Tropa de Elite ou até produções internacionais como Elysium. Nesses papéis ele mostra intensidade, presença e carisma, já aqui porém, a interpretação segue outro caminho. O personagem é extremamente contido, fala pouco e passa grande parte do tempo em silêncio, é uma atuação minimalista, mais baseada em observação e tensão interna. Para alguns críticos isso pode ser visto como algo sofisticado, mas para mim acabou parecendo uma das interpretações menos marcantes dele, não porque ele atue mal, mas porque o papel simplesmente não exige grandes momentos dramáticos.

A história acompanha um professor que aparentemente está sendo perseguido. No começo parece que veremos um caso clássico de perseguição política, alguém fugindo diretamente da máquina repressiva da ditadura, mas conforme o filme avança, a situação parece muito mais ligada a um conflito com um empresário poderoso, alguém que usa sua influência e conexões para resolver problemas de forma violenta. Isso cria uma ambiguidade interessante, não fica totalmente claro se a perseguição é realmente institucional ou se nasce de uma vingança pessoal dentro de um sistema já corrompido pelo poder.

Existe, sim, crítica ao regime militar. Em alguns momentos ela aparece de forma direta, e em outros de maneira simbólica. Uma das cenas mais curiosas é aquela em que uma perna peluda anda sozinha pela praça chutando pessoas e deixando mortos e desaparecidos pelo caminho. É uma imagem estranha, quase surreal, mas que funciona como metáfora para os desaparecimentos da ditadura, quando pessoas simplesmente sumiam sem explicação. É um tipo de linguagem simbólica que talvez passe despercebida por parte do público, mas que carrega uma crítica forte.

Mesmo com esses elementos, o filme tem um problema de ritmo. Com quase três horas de duração, a narrativa é muito lenta e contemplativa. Boa parte da história se constrói em silêncio, observação e pequenos gestos. Isso cria atmosfera, mas também torna a experiência cansativa em vários momentos. Existem cenas fortes, especialmente um tiroteio bastante intenso que chega a ser perturbador, mas elas são raras dentro de um filme tão longo.

No fim das contas, fiquei com a sensação de que esperava um tipo de história e encontrei outra. Achei que veria um thriller político cheio de tensão e ação envolvendo espionagem ou perseguição direta da ditadura, ao invés disso, o que aparece é um drama mais introspectivo sobre paranoia, poder e sobrevivência dentro de um ambiente opressor.

Ainda assim, filmes sobre esse período continuam sendo necessários. A ditadura militar foi um dos momentos mais sombrios da história brasileira, marcado por censura, perseguições e desaparecimentos. Obras que revisitarem esse passado ajudam a manter viva a memória histórica e lembram por que regimes autoritários nunca devem voltar.

O Agente Secreto talvez não seja o filme mais envolvente ou empolgante do ano, mas levanta discussões importantes. Como cinema, pode ser cansativo, como lembrança histórica, continua tendo seu valor.

Quando se fala em filmes sobre a ditadura, sempre aparece alguém dizendo que a crítica política é exagerada ou desnecessária. Eu discordo completamente. A ditadura militar foi um dos períodos mais sombrios da história brasileira, marcado por censura, perseguições, tortura e desaparecimentos. Não existe “excesso” quando o assunto é lembrar esse passado.

Quanto mais obras discutirem esse período, melhor. Cinema, literatura e arte em geral têm justamente esse papel: manter viva a memória histórica para que erros desse tamanho nunca voltem a acontecer. Nesse sentido, O Agente Secreto cumpre uma função importante, mesmo sendo um filme lento e muitas vezes contemplativo, ele reforça a ideia de que havia um clima de medo constante, na qual qualquer pessoa que entrasse em conflito com estruturas de poder podia acabar perseguida ou silenciada.

Relembrar esse período não é apenas revisitar o passado, é também um alerta permanente de que regimes autoritários não surgem do nada, eles se constroem aos poucos, muitas vezes com apoio de setores da sociedade que acreditam estar defendendo ordem ou estabilidade. Por isso, independentemente das qualidades ou problemas do filme, uma coisa é inegável, histórias ambientadas nesse período continuam sendo necessárias, memória histórica não é exagero, é prevenção.

O Agente Secreto está disponivel na Netflix.

sexta-feira, março 13, 2026

Maquina de Guerra


Quando comecei a assistir War Machine, da Netflix, eu tinha certeza de que já sabia exatamente que tipo de filme estava começando. A premissa parecia bem clique norte-americano, treinamento militar pesado, soldados sendo levados ao limite e um protagonista tentando superar um trauma pessoal para conquistar seu lugar entre os Rangers do exército. Tudo apontava para aquele arco clássico de superação, em que o personagem passa por dificuldades, enfrenta seus demônios internos e, no final, recebe a tão sonhada insígnia.

O protagonista é vivido por Alan Ritchson, e aqui vale destacar um ponto importante, ele funciona muito bem nesse tipo de papel. O cara tem presença física absurda, é grande, forte e naturalmente intimidador, mas não é aquele ator engessado que só serve para cenas de ação. Ritchson consegue transmitir emoção, tensão e conflito nas expressões. Dá para sentir o peso que o personagem carrega, principalmente ligado à perda do irmão. Isso ajuda muito a dar credibilidade à história, porque você acredita naquele soldado e nas motivações dele. 

A primeira metade do filme segue exatamente essa linha mais tradicional. Treinamento duro, competição entre os soldados, pressão psicológica e física. Tudo parecia caminhar para aquele final previsível, o personagem principal superando o trauma, provando seu valor e finalmente conquistando seu lugar entre os Rangers. Era o tipo de história que a gente já viu várias vezes no cinema de guerra e de verdade, não entendi o motivo da Netflix falar tanto desse filme com inúmeras propagandas, inclusive por email. Deve ser o ator né, muita gente gosta dele, eu também sou fã.

Só que no meio do filme a narrativa simplesmente vira de cabeça para baixo. Aí eu entendi. Spoilers a seguir.

De repente, o que parecia apenas um exercício militar vira uma situação real de sobrevivência. E aí entra o elemento que muda completamente o rumo da história. O inimigo que aparece no filme é uma mistura inesperada de Predator com algo que lembra os robôs de Transformers. É uma criatura tecnológica, alienígena, extremamente agressiva e quase impossível de enfrentar. Desesperador.

Confesso que não estava esperando por isso pois o filme muda completamente de nível. Aquela narrativa de treinamento militar que poderia acabar ficando repetitiva vira uma verdadeira caçada de sobrevivência. Os soldados deixam de competir entre si e passam a lutar simplesmente para continuar vivos. A tensão aumenta bastante e o ritmo do filme ganha uma energia totalmente diferente.

Outro ponto que ajuda muito a manter o filme interessante é o elenco de apoio. A presença de atores experientes como Dennis Quaid dá um certo peso e validação para a produção e impede que a história vire um pastelão exagerado de ação (e sem noção). Mesmo com a entrada forte da ficção científica, o filme consegue manter um tom sério o suficiente para sustentar a tensão.

Como disse anteriormente, esperava apenas mais um filme genérico de ação de streaming, daqueles que você assiste e esquece logo depois. Mas War Machine acabou sendo uma surpresa positiva. A mudança de direção no meio da história dá uma vida nova ao filme e transforma o que parecia ser apenas mais um drama militar em uma mistura divertida de guerra, ficção científica e sobrevivência.

Não é um filme revolucionário, mas também passa longe de ser apenas mais um produto descartável de catálogo. É um bom filme de ação, que consegue surpreender quando você menos espera.

War Machine está disponivel na Netflix.
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quarta-feira, março 11, 2026

Sonhos de Trem


Sonhos de Trem — Quando um filme encontra a dor da vida real

Eu não sabia quase nada sobre "Sonhos de Trem" quando apertei o play na Netflix. Não vi trailer, não li sinopse, não procurei crítica, apenas sentei para assistir porque esta concorrendo ao Oscar. Talvez por isso o filme tenha me atingido tão forte.

A história acompanha a vida de um homem simples, um trabalhador das ferrovias no começo do século passado. Um homem comum, daqueles que constroem o mundo com as próprias mãos e que quase nunca aparecem nos livros de história.

O filme é lento, mas é um lento que faz sentido. Não é vazio, é contemplativo. A narrativa te coloca dentro da vida daquele homem. Você sente o esforço dele para trabalhar, a dor de ter que deixar a esposa e a filha para trás para ganhar dinheiro, e ao mesmo tempo sente o amor que existe naquela pequena família.

Você não apenas assiste ao filme, você vive o filme. Então acontece a tragédia.

A casa pega fogo enquanto ele está fora trabalhando e a esposa e a filha desaparecem. O filme nunca mostra exatamente o que aconteceu com elas. Não há corpos, não há despedida, não há confirmação absoluta. Só ausência. E talvez essa seja a parte mais cruel da história.

Porque quando alguém morre, existe dor, existe luto, mas existe também um fim, um ponto final. Ali não, fica apenas a dúvida, fica a esperança silenciosa de que talvez elas tenham sobrevivido, e esperança demais, às vezes, também machuca.

A cena que mais me destruiu emocionalmente acontece algum tempo depois da tragédia. Um amigo visita o protagonista e eles saem para caçar. O amigo abate um cervo e quando o personagem se aproxima do corpo do animal… ele simplesmente desaba.

Ele começa a chorar, e naquele momento eu entendi o que estava acontecendo. O cervo tinha um corpo. Ele podia ver, tocar, encerrar aquilo. Já sua esposa e sua filha não.

Não houve despedida.
Não houve corpo.
Não houve fechamento.
Eu chorei junto com ele.

E naquele momento percebi que o filme tinha atravessado uma fronteira, ele deixou de ser apenas uma história na tela e começou a tocar coisas muito pessoais dentro de mim.

Nos últimos meses eu também vivi uma perda. Diferente da dele, mas com algo em comum, não houve fechamento, não houve despedida. A pessoa continua viva, mas a relação acabou, e quando uma relação termina assim, sem explicação clara sem conversas, sem conclusão, é quase como um tipo estranho de luto.

Você fica preso entre duas coisas ao mesmo tempo. Luto e esperança. E essa combinação é devastadora.

Talvez por isso Sonhos de Trem tenha me atingido tão forte, porque o filme fala exatamente sobre isso, sobre viver com a ausência, sobre seguir em frente mesmo quando uma parte da sua vida ficou congelada no passado. O protagonista passa décadas vivendo quase em silêncio, trabalha, envelhece, observa o mundo mudar, sempre carregando aquela memória dentro dele. Até o fim.

No final do filme ele faz um passeio de avião, vê o mundo de cima e parece que toda a sua vida passa diante de seus olhos. Pouco tempo depois, morre sozinho em sua cabana. Mas não morre vazio, morre cheio de lembranças.

Eu também assisti recentemente O Agente Secreto, que está disputando prêmios e recebendo muitos elogios. É um bom filme, sem dúvida, mas não me atingiu da forma que Sonhos de Trem atingiu.

Simplesmente, porque às vezes o melhor filme não é aquele tecnicamente mais sofisticado, é aquele que encontra algo dentro de você que nem sabia que ainda estava doendo. E quando isso acontece, não é apenas cinema, é quase uma conversa silenciosa entre a história na tela e a vida de quem está assistindo.

Sonhos de Trem está disponivel na Netflix.

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terça-feira, março 10, 2026

Encontros Aleatorios


Outro dia aconteceu uma coisa curiosa. Essa historia vai para o Crônicas do Praia.

Eu estava caminhando tranquilamente, fingindo que minha vida estava absolutamente organizada, quando vi duas figuras conhecidas passando. Fiz o que qualquer adulto emocionalmente equilibrado faria. Olhei para o outro lado como se estivesse profundamente interessado numa árvore.

Funcionou por aproximadamente três segundos.
Logo ouvi alguém me chamar. Era ela. A irmã.

Existe um tipo específico de pessoa que tem o talento raro de falar com você como se vocês estivessem conversado ontem, mesmo que tenham se passado meses. Ela é assim. Em poucos segundos já estava brincando comigo, perguntando da vida, comentando que eu estava comportado demais por não estar bebendo.

Eu, claro, respondi com a dignidade de quem está completamente tranquilo por dentro, o que significa que provavelmente falei alguma bobagem.

Depois, no meio do show poucos minutos mais tarde, aquela típica movimentação de gente indo para perto do palco. Eu estava ali atrás, na minha confortável posição de observador profissional da vida alheia, quando ela virou e disse algo do tipo: “vem também”.

E eu fui.

Não porque eu sou uma pessoa facilmente influenciável, mas porque às vezes a vida precisa de pequenos empurrões. Conversamos um pouco, rimos de coisas aleatórias e cada um seguiu seu caminho. Nada demais, nenhum acontecimento histórico, nenhuma grande reviravolta.

Mas tem encontros que são assim mesmo, pequenos e simples
E ainda assim conseguem melhorar um fim de semana inteiro.

Curioso como algumas pessoas entram numa conversa sem fazer esforço nenhum… e deixam um certo eco no resto da semana. Provavelmente é só impressão minha? Acho que não!

Ou talvez seja só mais uma daquelas histórias que acontecem quando a gente menos espera, no meio de uma caminhada, perto de um palco, fingindo olhar para uma árvore.


segunda-feira, março 09, 2026

Crespo esta Demitido - E agora?

O São Paulo estava começando a se encontrar e tudo mudou de novo

Eu estava pronto para escrever um texto sobre a temporada do São Paulo Futebol Clube. A ideia era falar sobre como o time começou o ano cercado de desconfiança e terminou o Campeonato Paulista de uma forma bem diferente do que muitos imaginavam.

No começo do campeonato, o clima era pesado. Defesa vazando, resultados ruins, torcida irritada. Não faltou gente dizendo que o São Paulo estava perdido, sem rumo, e que o ano prometia ser daqueles bem sofridos e que ia amargar a segunda divisão do Paulista. Só que o futebol às vezes muda rápido.

O time foi se organizando, ganhou confiança, passou pelas fases do campeonato, classificou e chegou até a semifinal. Não foi uma campanha perfeita, longe disso, mas já era algo muito diferente daquele cenário pessimista das primeiras rodadas.

Na semifinal veio o clássico contra a porcada, o famoso VARmeiras. Jogo duro, tenso, daqueles que qualquer detalhe pode decidir. E decidiu: o VAR e juiza novamente, como sempre a historia se repetiu, sempre sendo beneficiado pela péssima arbitragem. O São Paulo perdeu, é verdade, mas ficou a sensação de que dava para ir além. Era perfeitamente possível vencer aquele jogo e disputar o título. Mas repito, não dá pra competir com um time que esta SEMPRE sendo beneficiado pela arbitragem. Tinha condições de passar pra final sim, ainda mais considerando que muitas decisões recentes nesses confrontos acabam sempre envolvidas em polêmicas de arbitragem e VAR, algo que virou quase rotina no futebol brasileiro.

Mesmo assim, a impressão que ficou era de que o São Paulo estava encontrando um caminho. Talvez ainda não fosse um time pronto para disputar tudo, mas pelo menos parecia ter voltado a competir de verdade. E foi justamente nesse momento que o roteiro mudou de novo.

A demissão de Hernán Crespo chegou como mais uma reviravolta nesse eterno ciclo do futebol brasileiro. Um técnico que parecia começar a ajustar o time, que havia levado o clube até uma semifinal estadual, de repente é demitido. E aí fica aquela pergunta que sempre aparece nesses momentos, era mesmo a hora de interromper o processo?

No futebol brasileiro tudo parece urgente demais. Projetos raramente têm tempo para amadurecer. Resultados precisam aparecer imediatamente, e qualquer tropeço vira motivo para recomeçar do zero. Enquanto isso, o torcedor fica assistindo a mais uma mudança de rota, tentando entender qual é o plano para o futuro.

O São Paulo começou o ano cercado de dúvidas, reagiu dentro do campeonato e mostrou sinais de evolução. Agora, com a saída do treinador, o clube entra novamente em um momento de incerteza. No futebol brasileiro, quando parece que as coisas começam a se encaixar, quase sempre alguém decide desmontar tudo para começar de novo.

Um detalhe que ajuda a entender toda essa história aconteceu antes mesmo da demissão. Em uma entrevista na televisão, Hernán Crespo afirmou que talvez não fosse o treinador certo para tornar o São Paulo Futebol Clube campeão, e que espera que um dia outro técnico consiga levar o clube novamente aos títulos. A declaração caiu como uma bomba. Quando um treinador admite publicamente que talvez não seja capaz de levar o time a vencer, a mensagem que passa é de falta de convicção no próprio trabalho ou até nas condições que o clube oferece. Muita gente passou a enxergar essa fala como o verdadeiro estopim da saída. Afinal, se o próprio técnico diz que não é o nome para ganhar títulos, a diretoria pode ter entendido aquilo como uma espécie de sentença antecipada. A impressão que ficou foi a de um treinador que já falava como alguém derrotado e o clube que, ao ouvir isso, decidiu simplesmente encerrar o capítulo.

Quem vem agora?
Quem será técnico do tricolor paulista?

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To aqui ainda


Percebi que fazia quase dez dias que eu não escrevia nada por aqui. Para quem costuma manter uma frequência boa de textos, isso já começa a parecer um pequeno apagão criativo. Fevereiro foi um mês intenso, escrevi bastante, talvez mais do que o normal, bati meu próprio recorde de textos publicados em um mês e parecia que as ideias simplesmente não acabavam.

Mas março começou diferente. De repente muita coisa começou a acontecer ao mesmo tempo, alguns problemas pessoais, outras preocupações, compromissos aparecendo, a cabeça cheia… e a vontade de sentar para escrever simplesmente não apareceu. Não foi falta de assunto, foi mais a vida correndo rápido demais.

Quem escreve sabe que às vezes é assim. A escrita acompanha o ritmo da vida e tem períodos em que as ideias fluem quase sozinhas, e outros em que a cabeça parece precisar de um pouco de silêncio para organizar tudo. Mas to aqui, não desisti, tá vindo textos bons essa semana por ai.

sábado, fevereiro 28, 2026

Hamlet - Resenha do Livro

Finalizando mais um livro, a bola da vez foi a versão em prosa de HAMLET, de William Shakespeare. Desculpa a ignorância mas nunca tinha lido o autor e não conhecia a historia do livro, mas de cara, nas primeiras paginas, já gostei. No decorrer da leitura, cheguei na seguinte duvida: é uma historia de vingança, loucura ou busca por verdade? Fiquei esperando uma historia clássica de vingança, um príncipe injustiçado que descobre a verdade sobre o assassinato do pai e parte para acertar as contas. Mas o que encontrei além disso foi muito mais complexo.

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Atenção, spoilers a seguir

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Não vou fazer uma simples analise aqui, vou citar momentos do livro que achei interessante e são importantes para o enredo. O fantasma do pai assassinado de Hamlet aparece e literalmente conta para seu filho como foi morto e por quem. (pasmem). Foi envenenado pelo próprio irmão que assumiu o trono da Dinamarca e ainda casou com sua esposa, mãe de Hamlet. Poise, a partir dali, achei que seria uma historia de vingança somente, e que o protagonista buscaria meios da matar seu tio. Não foi assim.

Ao longo da história, fica cada vez mais difícil enxergar o protagonista como alguém movido pelo desejo de sangue. Ele não elabora planos de assassinato, não fala em emboscadas, não articula uma tomada de poder. O foco dele é desmascarar o crime e provar, não pra ele, mas pra todo os súditos que o casal estava envolvido com a morte de seu pai.

Toda verdade é exposta via a famosa encenação teatral que a realeza assistiu, no qual Hamlet convenceu os atores a encenarem a cena de assassinato. Foi um tanto confuso para quem assistiu o teatro, pois é uma tentativa de expor o Rei diante da corte, dos súditos, das pessoas que cercam o trono. Hamlet quer que todos vejam o que ele já sabe. Fica claro ao casal real que o protagonista sabe o que aconteceu e a partir desse momento, a situação complica para todos os lados.

Ao longo da história, fica cada vez mais difícil enxergá-lo como alguém movido pelo desejo de sangue. Ele não elabora planos de assassinato. Não fala em emboscadas. Não articula uma tomada de poder. O foco dele é desmascarar o crime. Até pensei na hipótese dele desmascarar o Rei, e assumir o trono, mas nem isso ele demonstrou ao longo da obra.

Após a morte do conselheiro do Rei (que não vou citar como essa morte ocorreu), tudo foge do controle.  A tragédia deixa de ser interna e se torna política, se transformando em uma cadeia de consequências inevitáveis. Ofélia, a amada de Hamlet enlouquece e tudo indica que comete suicídio. Laertes, irmão dela, volta sedento por vingança, pois além da irma, o conselheiro era seu pai. O rei passa a agir mais abertamente contra Hamlet, inclusive arma situações para matá-lo.

Pulando para o duelo final, que a primeira vista, parece somente mais um confronto entre cavalheiros mas na verdade era uma emboscada para matar Hamlet, combinado entre o Rei e Laerte, que queria vingança. Só que Hamlet não é mais o mesmo, está cansado, resignado e com uam serenidade estranha, de uma forma que estava aceitando tudo que estava prestes a acontecer. Não há mais o excesso de reflexão do “ser ou não ser”, parece que tudo virou aceitação.

Quando a rainha é envenenada e a conspiração vem à tona, não resta mais dúvida, a prova está diante de todos. Só então Hamlet age sem hesitação, ele mata o rei não como parte de um plano calculado, mas como reação final a um sistema completamente corrompido, por conta de todos eventos acontecendo ao mesmo tempo, Naquele momento, ele já estava envenenado pela lança de seu adversário, Laerte. O que era um simples duelo entre cavaleiros, virou um massacre, uma tragedia que particularmente, como leitor, não esperava. Se Hamlet não agisse naquele momento, o rei venceria em todos os sentidos.

Por isso, é difícil definir a peça como uma simples história de vingança. Também não parece apenas um estudo sobre alguém que pensa demais. Depois da encenação do teatro, os eventos ganham vida própria e escapam do controle. Hamlet não soa como alguém sedento por poder. Em nenhum momento ele fala claramente sobre governar ou reivindicar o trono. Sua luta é moral, ele quer que a verdade seja reconhecida, quer que o crime não permaneça impune.

Talvez a tragédia esteja justamente aí. Num mundo onde a corrupção já está instalada, buscar verdade pode ser tão destrutivo quanto buscar vingança. O final é um massacre. Quase ninguém sobra. E, ainda assim, não senti pena de Hamlet. Senti que ele precisava impedir que o rei saísse vitorioso. Sua última ação não parece explosão de ódio, mas encerramento inevitável. William Shakespeare não escreveu apenas sobre vingança, escreveu sobre dúvida, consciência e o peso de agir quando se enxerga complexidade demais. É um livro relativamente fácil de ler e interpretar, e te da margem para pensar e ter mais de uma interpretação do protagonista. Gostei muito e com certeza será o primeiro de muitos livros lidos do autor.

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Taxas, Algoritmos e Liberdade


Final de tarde, mês com muita chuva, em uma cidade do interior. 

O dia não foi dos melhores mas uma sensação de liberdade e felicidade corre nas veias durante todo dia. Um sensação sem explicação, não de derrota mas de dever cumprido.

É meu ultimo dia de delivery. Não é exagero, nem drama. É o ultimo mesmo, finalmente estou na fase de transição, de fechamento dessa merda para algo que realmente vai me dar satisfação e dinheiro.

O problema nunca foi trabalhar, eu sempre trabalhei. O trabalho não assusta, mas o que cansa é depender de ferramentas que estao alem do nosso controle, é depender de empresas/apps que decidem o seu destino enquanto você só reage.

Ultimo dia, atendimento finalizado, chega de validações de clientes, chega de reclamação de brócolis, ou que as ervilhas eram de lata e não retiradas direto do pé. Chega de justificativa por atraso que não foi meu, chega de desconto automático, chega de golpe pelo Instagram, com gente querendo comida de graça o tempo todo. Chega disso tudo, acabou.

A cozinha está silenciosa. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não pesa. Ele alivia. E agora vem a parte mais prazerosa do dia. O meu sonho será realizado nesse momento. Sonhei, imaginei, escrevi sobre e finalmente chegou o grande dia: entrar no app do ifood, no gerenciador da loja, abrir chamado e solicitar o cancelado do delivery dentro da plataforma. Repito, não sabe como sonhei com esse dia e finalmente ele chegou. É o momento máximo dessa transição profissional e graças a Deus, esse dia chegou. Não foi fácil chegar aqui com sanidade mas finalmente chegou. Não foi simples, não foi rápido, não foi confortável.

Abrir o aplicativo.
Entrar no gerenciador da loja.
Procurar a opção de suporte.
Abrir um chamado.
Solicitar o cancelamento.

Aquele suspiro, ao mesmo tempo um frio na barriga, meu Deus, está acontecendo. Atendente virtual. Não vou poder xingar ninguém, pensei.... Alem de marcar a opção cancelamento ainda tenho que escrever o que quero. 

- Quero cancelar.

E quando a mensagem automática apareceu perguntando o motivo do cancelamento, eu quase ri.

- Vocês querem só um? Tenho algumas aqui. Tá bom, lá vai:

1- Taxas abusivas

2- Obrigação de usar o banco do ifood (mais taxas)

3- Aplicativo cheio de erros

4- Avaliações não aceitam mais contestação da loja

5- Cliente escreve o que quer e você tem que "negociar" pra melhorar nota

6- Clientes negativando pra ganhar cupons e comida de graça

7- Preços abusivos nos fretes da Entrega Parceira

8- Divulgação gratuita pra quem o app escolher

9- Não há margem para reclamação

10- Péssimo atendimento de suporte

11- Motorista da entrega parceira fazem o que quer o ifood não se responsabiliza

12- Alem das infinitas taxas, mensalidade abusiva

13 - Promoções viraram obrigação e deixou de ser estratégia

14- Péssimas promoções vinculadas aos produtos sem permissão da loja

15- Loja desaparece se não pagar divulgação do próprio app

16- Regalias para as lojas grandes do Ifood esquecendo os menores

17- Vender mais não significa lucro maior, apenas mais desgaste

18- Algoritmo fake, beneficia quem o app quiser

19- Crescer na plataforma significa entregar mais margem

20- Todo risco é da minha loja

21- Ifood não se responsabiliza por nada, nem por cliente, nem por entregador

22- Abre margem para vários tipos de golpes e ainda defende cliente golpista

23- Cardápios engessados

24- Libera opção de usar os motorista do ifood como benefícios, mas cobra com preços exorbitantes

25- Programa Super para gerar benefícios porem é pura propaganda enganosa.

26- Entrega flex que só serve pra pegar margens maiores do lojista

27- Relatórios financeiros duvidosos, com pouca transparência

28- App lojista fora do ar constantemente, ao ponto de perder pedidos.

29- Entrega parceira fora do ar constantemente

30- Lojista refém de uma única vitrine

31- Plataforma incentiva guerra de preços, não qualidade

32- Visibilidade é leilão silencioso

33- Ranking muda e ninguém explica o por quê

34- Fidelização fora do app é considerado crime e passível de punição

35- Nunca se sabe quando uma nova taxa vai surgir

36- Trabalhar mais não significa respirar melhor

37- Negocio saudável não pode depender de algoritmo que ninguém sabe como funciona

38- Cliente avalia o conjunto mas penalidade cai só no lojista

39- Cada nova funcionalidade é pra prejudicar o lojista

40- Plataforma valoriza Cupom, educando mal o cliente

41- cliente aprende a caçar cupom, não a valorizar produto.

42- Todo mês é um recomeço dentro do ranking

43- Não existe estabilidade, só disputa constante por destaque

44- Qualquer mudança no algoritmo impacta direto meu faturamento

45- Promoções agressivas distorcem o valor real do produto

46- Pressão por rapidez ignora a qualidade do processo

47- Reputação virou número e número virou ameaça.

48- Qualquer instabilidade técnica vira prejuízo meu

49- Sensação constante é de estar competindo dentro da própria casa.

50- Meu esforço merece retorno proporcional.

- Atendente Virtual, por enquanto, são essas que lembrei agora, mas tem mais. Só essas já está bom? Tem como cancelar minha participação ai no Ifood? Fico no aguardo tá, quero o comprovante de cancelamento por favor, pois não quero pagar taxa e mensalidade sem usar, tá ok?! Obrigado.

Depois de tantos motivos, o sistema registrou: “cancelamento solicitado”. Simples assim. Tão simples quanto nunca foi estar ali dentro. Fechei o aplicativo, olhei para a loja, e pela primeira vez em muito tempo, senti que o próximo passo é meu. Sem algoritmo, sem ranking, sem taxa surpresa. só eu, meu futuro, minhas decisões, meus objetivos e a responsabilidade que sempre foi minha.

E curiosamente, isso não assusta, Alivia!

Obrigado MisterChef pelos momentos de alegria e de muito desgaste. Você me custou minha sanidade, meu relacionamento, alguns amigos e boa parte da minha saúde física e mental. E me ensinou limites também. Mesmo assim, muito obrigado. 

Quanto a você, Ifood, espero de coração que você tenha muitos concorrentes e largue de ser explorador com os lojistas, que ainda insistem em sobreviver com sua plataforma. E que um dia a relação com eles seja mais equilibrada do que foi comigo.

Até nunca mais!

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Obs: infelizmente, é só uma crônica, um devaneio do que planejo fazer em breve. O delivery ainda está aberto, mas pretendo encerrar as atividades em breve e mudar o rumo profissional. Estou estudando e me preparando pra isso, todos os dias.

Obrigado por visitar nosso blog, é ótimo te ver por aqui novamente.

Até a próxima!

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Uma Batalha Apos A Outra


Assisti o filme essa semana e quando terminei fiquei com aquela sensação de “foi bom, mas preciso digerir”. Não é um filme simples, é intenso, confuso em alguns momentos, acelerado em outros e cheio de camadas políticas, sociais e emocionais acontecendo ao mesmo tempo.

Começando pelo óbvio, filmes com Leonardo DiCaprio é sempre um motivo pra assistir. Ele já fez atuações mais marcantes, é verdade, mas aqui entrega um trabalho sólido, mas não é aquele papel pra entrar na história, mas é o tipo de atuação que mantém o nível alto. Filmes com ele quase sempre valem a pena, e esse não foge à regra.

Agora, quem realmente me impressionou foi Sean Penn. Ele está absurdo, daqueles personagens que dão raiva, que incomodam, que fazem você querer entrar na tela e discutir com ele. E, pra mim, quando isso acontece, é sinal de atuação grande. Se você odeia o personagem, é porque o ator fez tudo certo e aqui ele fez.

A história mergulha fundo em temas pesados como rebeliões, ataques, terrorismo, conspirações, delações, prisões, jogos de poder. É tudo muito caótico, propositalmente, pois parece que o filme quer te deixar meio perdido, sem tempo pra organizar tudo na cabeça e te digo, funciona. Você vai sendo jogado de um lado pro outro junto com os personagens.

Não é, na minha opinião, um filme “cara de Oscar”, mas nem precisava ser, mas é aquele tipo de produção que, por tocar em assuntos como racismo, imigração, xenofobia e desigualdade, acaba ganhando mais atenção da crítica. Não porque é perfeito, mas porque dialoga com o momento atual. 

E aí entra outro destaque gigante, Benicio del Toro, que rouba a cena. Um professor de artes marciais que, na verdade, está envolvido com a resistência e ajuda imigrantes. Um personagem cheio de camadas, silencioso, forte, humano, e com uma atuação sensacional em vários momentos. Sinceramente? Ele e o Sean Penn parecem até mais fortes que o próprio DiCaprio.

O ritmo do filme é curioso são quase três horas, mas não pesa, passa rápido porque sempre tem algo acontecendo, e às vezes até rápido demais. Em alguns momentos, você nem tem tempo de processar direito uma revelação antes de vir outra por cima.

E, no fundo, o que te mantém até o final não é só a ação, é a curiosidade. Você quer saber “como isso vai acabar?” porque a história é tão maluca, tão cheia de reviravoltas, que dá vontade de ir até o fim só pra entender onde tudo vai parar.

No fim das contas, "Uma Batalha Após a Outra" não é um filme perfeito, não é obra-prima, não é revolucionário, mas é um filme forte, bem atuado, cheio de tensão, política, conflito humano e dilemas morais. É aquele tipo de filme que não sai da sua cabeça na hora, você termina e ainda fica pensando “o que foi exatamente que eu vi?", ou seja, isso significa que realmente valeu a pena.

domingo, fevereiro 22, 2026

Por que continuo criando?

Por que continuo criando, mesmo cansado ?



Tem dias em que eu acordo cansado antes mesmo de começar. Cansado de pensar em dinheiro, em contas, em trabalho, em futuro, em incerteza, cansado de tentar organizar a vida enquanto ela insiste em bagunçar tudo e mesmo assim, quase sempre, eu acabo criando alguma coisa.

Às vezes é um texto, as vezes é uma maquete, as vezes é uma ideia que eu anoto no celular, as vezes é só um rascunho que ninguém vai ver. Não é disciplina, não é método, é na verdade necessidade. Criar virou uma forma de não me perder no meio do cansaço.

Quando eu estou montando a vila dos Ewoks, escrevendo para o blog, pensando num projeto novo ou rabiscando alguma coisa, minha cabeça muda de lugar. Por alguns minutos, eu não sou o cara preocupado com boleto, taxa, plataforma ou prazo, sou só alguém tentando transformar uma ideia em algo concreto e isso dá um alívio que nenhuma distração dá.

Criar também é um jeito de provar pra mim mesmo que eu ainda estou vivo por dentro, que eu não virei só alguém resolvendo problema o dia inteiro, que ainda existe curiosidade, vontade, imaginação, mesmo quando tudo pede desistência, continuo inventando pequenas formas de seguir.

Não é romantização. Tem dias que eu não quero criar nada, tem dias que dá vontade de largar tudo e só existir. Mas, curiosamente, é nesses dias que a criação mais aparece, como se fosse uma resposta silenciosa ao desânimo. Escrever, montar, pensar, planejar, imaginar, tudo isso virou uma forma de resistência, não contra o mundo, mas contra o risco de me apagar aos poucos. Criar é o que me mantém conectado com quem eu sou, não só com o que eu preciso pagar.

Talvez um dia eu canse de vez. Talvez um dia eu mude de fase, mas, enquanto ainda tiver uma ideia na cabeça e vontade de transformá-la em algo, vou continuar criando, mesmo cansado. Porque, no fundo, é isso que me mantém de pé.

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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

O Gabinete de Curiosidades


O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro é daquelas séries que conversam diretamente com quem sempre gostou de histórias curtas, estranhas, sombrias e cheias de significado. Cada episódio apresenta uma trama diferente, com começo, meio e fim, quase como pequenos filmes de terror. A série estreou em outubro de 2022 e reúne oito histórias independentes, cada uma com um clima próprio dentro do espectro do terror, do grotesco ao gótico, do místico ao surreal.

O formato é um dos grandes acertos com episódios relativamente curtos, histórias fechadas e ideias criativas. Nada se arrasta, cada narrativa entrega algo próprio, seja no clima, na estética ou na mensagem. Assistindo, é impossível não lembrar de clássicos como Contos da Cripta e Além da Imaginação. Aquela sensação de abrir um episódio sem saber exatamente o que vai encontrar, mas já esperando algo perturbador, curioso ou inesperado. É o tipo de série que aposta mais na atmosfera e na reflexão do que em sustos fáceis.

Outro ponto interessante é que cada episódio é dirigido por um cineasta diferente. Isso faz com que a série nunca fique repetitiva, cada história tenha sua própria identidade, seu ritmo e sua forma de trabalhar o medo. Alguns episódios são mais sobrenaturais, outros mais psicológicos, outros mais simbólicos e outros bem nojentos. Nem todos funcionam da mesma forma, mas essa variedade é parte do charme.

Sempre fui fã desse tipo de produção, séries que exigem atenção e deixam espaço para interpretação. Em vários momentos, O Gabinete de Curiosidades faz você imaginar mais do que vê, faz questionar comportamentos, obsessões, medos e até a própria realidade. Isso não é só terror, é reflexão disfarçada de fantasia.

Grande parte disso vem da influência direta de Guillermo del Toro. Ele não é apenas o nome estampado no título, ele funciona como um curador dessas histórias, escolhendo diretores, temas e estilos que dialogam com sua visão artística. Quem conhece seus filmes sabe que ele sempre gostou de misturar o grotesco com o belo, o fantástico com o humano, o estranho com o sensível. Ao longo da carreira, Del Toro construiu uma identidade própria, seja em projetos mais autorais ou em grandes produções. Em O Gabinete de Curiosidades, ele consegue reunir esse amor pelo horror clássico, pelo imaginário fantástico e pelas histórias moralmente ambíguas em um único projeto.

O Gabinete de Curiosidades não tenta ser revolucionário, mas executa muito bem sua proposta, resgata o espírito das antigas antologias de terror, atualiza a linguagem e entrega histórias criativas, visualmente caprichadas e cheias de personalidade. É uma série para quem gosta de abrir uma história por vez, sentir o clima, refletir e, muitas vezes, sair com mais perguntas do que respostas.

O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro está disponível na Netflix.