segunda-feira, março 09, 2026

Crespo esta Demitido - E agora?

O São Paulo estava começando a se encontrar e tudo mudou de novo

Eu estava pronto para escrever um texto sobre a temporada do São Paulo Futebol Clube. A ideia era falar sobre como o time começou o ano cercado de desconfiança e terminou o Campeonato Paulista de uma forma bem diferente do que muitos imaginavam.

No começo do campeonato, o clima era pesado. Defesa vazando, resultados ruins, torcida irritada. Não faltou gente dizendo que o São Paulo estava perdido, sem rumo, e que o ano prometia ser daqueles bem sofridos e que ia amargar a segunda divisão do Paulista. Só que o futebol às vezes muda rápido.

O time foi se organizando, ganhou confiança, passou pelas fases do campeonato, classificou e chegou até a semifinal. Não foi uma campanha perfeita, longe disso, mas já era algo muito diferente daquele cenário pessimista das primeiras rodadas.

Na semifinal veio o clássico contra a porcada, o famoso VARmeiras. Jogo duro, tenso, daqueles que qualquer detalhe pode decidir. E decidiu: o VAR e juiza novamente, como sempre a historia se repetiu, sempre sendo beneficiado pela péssima arbitragem. O São Paulo perdeu, é verdade, mas ficou a sensação de que dava para ir além. Era perfeitamente possível vencer aquele jogo e disputar o título. Mas repito, não dá pra competir com um time que esta SEMPRE sendo beneficiado pela arbitragem. Tinha condições de passar pra final sim, ainda mais considerando que muitas decisões recentes nesses confrontos acabam sempre envolvidas em polêmicas de arbitragem e VAR, algo que virou quase rotina no futebol brasileiro.

Mesmo assim, a impressão que ficou era de que o São Paulo estava encontrando um caminho. Talvez ainda não fosse um time pronto para disputar tudo, mas pelo menos parecia ter voltado a competir de verdade. E foi justamente nesse momento que o roteiro mudou de novo.

A demissão de Hernán Crespo chegou como mais uma reviravolta nesse eterno ciclo do futebol brasileiro. Um técnico que parecia começar a ajustar o time, que havia levado o clube até uma semifinal estadual, de repente é demitido. E aí fica aquela pergunta que sempre aparece nesses momentos, era mesmo a hora de interromper o processo?

No futebol brasileiro tudo parece urgente demais. Projetos raramente têm tempo para amadurecer. Resultados precisam aparecer imediatamente, e qualquer tropeço vira motivo para recomeçar do zero. Enquanto isso, o torcedor fica assistindo a mais uma mudança de rota, tentando entender qual é o plano para o futuro.

O São Paulo começou o ano cercado de dúvidas, reagiu dentro do campeonato e mostrou sinais de evolução. Agora, com a saída do treinador, o clube entra novamente em um momento de incerteza. No futebol brasileiro, quando parece que as coisas começam a se encaixar, quase sempre alguém decide desmontar tudo para começar de novo.

Um detalhe que ajuda a entender toda essa história aconteceu antes mesmo da demissão. Em uma entrevista na televisão, Hernán Crespo afirmou que talvez não fosse o treinador certo para tornar o São Paulo Futebol Clube campeão, e que espera que um dia outro técnico consiga levar o clube novamente aos títulos. A declaração caiu como uma bomba. Quando um treinador admite publicamente que talvez não seja capaz de levar o time a vencer, a mensagem que passa é de falta de convicção no próprio trabalho ou até nas condições que o clube oferece. Muita gente passou a enxergar essa fala como o verdadeiro estopim da saída. Afinal, se o próprio técnico diz que não é o nome para ganhar títulos, a diretoria pode ter entendido aquilo como uma espécie de sentença antecipada. A impressão que ficou foi a de um treinador que já falava como alguém derrotado e o clube que, ao ouvir isso, decidiu simplesmente encerrar o capítulo.

Quem vem agora?
Quem será técnico do tricolor paulista?

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To aqui ainda


Percebi que fazia quase dez dias que eu não escrevia nada por aqui. Para quem costuma manter uma frequência boa de textos, isso já começa a parecer um pequeno apagão criativo. Fevereiro foi um mês intenso, escrevi bastante, talvez mais do que o normal, bati meu próprio recorde de textos publicados em um mês e parecia que as ideias simplesmente não acabavam.

Mas março começou diferente. De repente muita coisa começou a acontecer ao mesmo tempo, alguns problemas pessoais, outras preocupações, compromissos aparecendo, a cabeça cheia… e a vontade de sentar para escrever simplesmente não apareceu. Não foi falta de assunto, foi mais a vida correndo rápido demais.

Quem escreve sabe que às vezes é assim. A escrita acompanha o ritmo da vida e tem períodos em que as ideias fluem quase sozinhas, e outros em que a cabeça parece precisar de um pouco de silêncio para organizar tudo. Mas to aqui, não desisti, tá vindo textos bons essa semana por ai.

sábado, fevereiro 28, 2026

Hamlet - Resenha do Livro

Finalizando mais um livro, a bola da vez foi a versão em prosa de HAMLET, de William Shakespeare. Desculpa a ignorância mas nunca tinha lido o autor e não conhecia a historia do livro, mas de cara, nas primeiras paginas, já gostei. No decorrer da leitura, cheguei na seguinte duvida: é uma historia de vingança, loucura ou busca por verdade? Fiquei esperando uma historia clássica de vingança, um príncipe injustiçado que descobre a verdade sobre o assassinato do pai e parte para acertar as contas. Mas o que encontrei além disso foi muito mais complexo.

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Atenção, spoilers a seguir

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Não vou fazer uma simples analise aqui, vou citar momentos do livro que achei interessante e são importantes para o enredo. O fantasma do pai assassinado de Hamlet aparece e literalmente conta para seu filho como foi morto e por quem. (pasmem). Foi envenenado pelo próprio irmão que assumiu o trono da Dinamarca e ainda casou com sua esposa, mãe de Hamlet. Poise, a partir dali, achei que seria uma historia de vingança somente, e que o protagonista buscaria meios da matar seu tio. Não foi assim.

Ao longo da história, fica cada vez mais difícil enxergar o protagonista como alguém movido pelo desejo de sangue. Ele não elabora planos de assassinato, não fala em emboscadas, não articula uma tomada de poder. O foco dele é desmascarar o crime e provar, não pra ele, mas pra todo os súditos que o casal estava envolvido com a morte de seu pai.

Toda verdade é exposta via a famosa encenação teatral que a realeza assistiu, no qual Hamlet convenceu os atores a encenarem a cena de assassinato. Foi um tanto confuso para quem assistiu o teatro, pois é uma tentativa de expor o Rei diante da corte, dos súditos, das pessoas que cercam o trono. Hamlet quer que todos vejam o que ele já sabe. Fica claro ao casal real que o protagonista sabe o que aconteceu e a partir desse momento, a situação complica para todos os lados.

Ao longo da história, fica cada vez mais difícil enxergá-lo como alguém movido pelo desejo de sangue. Ele não elabora planos de assassinato. Não fala em emboscadas. Não articula uma tomada de poder. O foco dele é desmascarar o crime. Até pensei na hipótese dele desmascarar o Rei, e assumir o trono, mas nem isso ele demonstrou ao longo da obra.

Após a morte do conselheiro do Rei (que não vou citar como essa morte ocorreu), tudo foge do controle.  A tragédia deixa de ser interna e se torna política, se transformando em uma cadeia de consequências inevitáveis. Ofélia, a amada de Hamlet enlouquece e tudo indica que comete suicídio. Laertes, irmão dela, volta sedento por vingança, pois além da irma, o conselheiro era seu pai. O rei passa a agir mais abertamente contra Hamlet, inclusive arma situações para matá-lo.

Pulando para o duelo final, que a primeira vista, parece somente mais um confronto entre cavalheiros mas na verdade era uma emboscada para matar Hamlet, combinado entre o Rei e Laerte, que queria vingança. Só que Hamlet não é mais o mesmo, está cansado, resignado e com uam serenidade estranha, de uma forma que estava aceitando tudo que estava prestes a acontecer. Não há mais o excesso de reflexão do “ser ou não ser”, parece que tudo virou aceitação.

Quando a rainha é envenenada e a conspiração vem à tona, não resta mais dúvida, a prova está diante de todos. Só então Hamlet age sem hesitação, ele mata o rei não como parte de um plano calculado, mas como reação final a um sistema completamente corrompido, por conta de todos eventos acontecendo ao mesmo tempo, Naquele momento, ele já estava envenenado pela lança de seu adversário, Laerte. O que era um simples duelo entre cavaleiros, virou um massacre, uma tragedia que particularmente, como leitor, não esperava. Se Hamlet não agisse naquele momento, o rei venceria em todos os sentidos.

Por isso, é difícil definir a peça como uma simples história de vingança. Também não parece apenas um estudo sobre alguém que pensa demais. Depois da encenação do teatro, os eventos ganham vida própria e escapam do controle. Hamlet não soa como alguém sedento por poder. Em nenhum momento ele fala claramente sobre governar ou reivindicar o trono. Sua luta é moral, ele quer que a verdade seja reconhecida, quer que o crime não permaneça impune.

Talvez a tragédia esteja justamente aí. Num mundo onde a corrupção já está instalada, buscar verdade pode ser tão destrutivo quanto buscar vingança. O final é um massacre. Quase ninguém sobra. E, ainda assim, não senti pena de Hamlet. Senti que ele precisava impedir que o rei saísse vitorioso. Sua última ação não parece explosão de ódio, mas encerramento inevitável. William Shakespeare não escreveu apenas sobre vingança, escreveu sobre dúvida, consciência e o peso de agir quando se enxerga complexidade demais. É um livro relativamente fácil de ler e interpretar, e te da margem para pensar e ter mais de uma interpretação do protagonista. Gostei muito e com certeza será o primeiro de muitos livros lidos do autor.

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Taxas, Algoritmos e Liberdade


Final de tarde, mês com muita chuva, em uma cidade do interior. 

O dia não foi dos melhores mas uma sensação de liberdade e felicidade corre nas veias durante todo dia. Um sensação sem explicação, não de derrota mas de dever cumprido.

É meu ultimo dia de delivery. Não é exagero, nem drama. É o ultimo mesmo, finalmente estou na fase de transição, de fechamento dessa merda para algo que realmente vai me dar satisfação e dinheiro.

O problema nunca foi trabalhar, eu sempre trabalhei. O trabalho não assusta, mas o que cansa é depender de ferramentas que estao alem do nosso controle, é depender de empresas/apps que decidem o seu destino enquanto você só reage.

Ultimo dia, atendimento finalizado, chega de validações de clientes, chega de reclamação de brócolis, ou que as ervilhas eram de lata e não retiradas direto do pé. Chega de justificativa por atraso que não foi meu, chega de desconto automático, chega de golpe pelo Instagram, com gente querendo comida de graça o tempo todo. Chega disso tudo, acabou.

A cozinha está silenciosa. Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não pesa. Ele alivia. E agora vem a parte mais prazerosa do dia. O meu sonho será realizado nesse momento. Sonhei, imaginei, escrevi sobre e finalmente chegou o grande dia: entrar no app do ifood, no gerenciador da loja, abrir chamado e solicitar o cancelado do delivery dentro da plataforma. Repito, não sabe como sonhei com esse dia e finalmente ele chegou. É o momento máximo dessa transição profissional e graças a Deus, esse dia chegou. Não foi fácil chegar aqui com sanidade mas finalmente chegou. Não foi simples, não foi rápido, não foi confortável.

Abrir o aplicativo.
Entrar no gerenciador da loja.
Procurar a opção de suporte.
Abrir um chamado.
Solicitar o cancelamento.

Aquele suspiro, ao mesmo tempo um frio na barriga, meu Deus, está acontecendo. Atendente virtual. Não vou poder xingar ninguém, pensei.... Alem de marcar a opção cancelamento ainda tenho que escrever o que quero. 

- Quero cancelar.

E quando a mensagem automática apareceu perguntando o motivo do cancelamento, eu quase ri.

- Vocês querem só um? Tenho algumas aqui. Tá bom, lá vai:

1- Taxas abusivas

2- Obrigação de usar o banco do ifood (mais taxas)

3- Aplicativo cheio de erros

4- Avaliações não aceitam mais contestação da loja

5- Cliente escreve o que quer e você tem que "negociar" pra melhorar nota

6- Clientes negativando pra ganhar cupons e comida de graça

7- Preços abusivos nos fretes da Entrega Parceira

8- Divulgação gratuita pra quem o app escolher

9- Não há margem para reclamação

10- Péssimo atendimento de suporte

11- Motorista da entrega parceira fazem o que quer o ifood não se responsabiliza

12- Alem das infinitas taxas, mensalidade abusiva

13 - Promoções viraram obrigação e deixou de ser estratégia

14- Péssimas promoções vinculadas aos produtos sem permissão da loja

15- Loja desaparece se não pagar divulgação do próprio app

16- Regalias para as lojas grandes do Ifood esquecendo os menores

17- Vender mais não significa lucro maior, apenas mais desgaste

18- Algoritmo fake, beneficia quem o app quiser

19- Crescer na plataforma significa entregar mais margem

20- Todo risco é da minha loja

21- Ifood não se responsabiliza por nada, nem por cliente, nem por entregador

22- Abre margem para vários tipos de golpes e ainda defende cliente golpista

23- Cardápios engessados

24- Libera opção de usar os motorista do ifood como benefícios, mas cobra com preços exorbitantes

25- Programa Super para gerar benefícios porem é pura propaganda enganosa.

26- Entrega flex que só serve pra pegar margens maiores do lojista

27- Relatórios financeiros duvidosos, com pouca transparência

28- App lojista fora do ar constantemente, ao ponto de perder pedidos.

29- Entrega parceira fora do ar constantemente

30- Lojista refém de uma única vitrine

31- Plataforma incentiva guerra de preços, não qualidade

32- Visibilidade é leilão silencioso

33- Ranking muda e ninguém explica o por quê

34- Fidelização fora do app é considerado crime e passível de punição

35- Nunca se sabe quando uma nova taxa vai surgir

36- Trabalhar mais não significa respirar melhor

37- Negocio saudável não pode depender de algoritmo que ninguém sabe como funciona

38- Cliente avalia o conjunto mas penalidade cai só no lojista

39- Cada nova funcionalidade é pra prejudicar o lojista

40- Plataforma valoriza Cupom, educando mal o cliente

41- cliente aprende a caçar cupom, não a valorizar produto.

42- Todo mês é um recomeço dentro do ranking

43- Não existe estabilidade, só disputa constante por destaque

44- Qualquer mudança no algoritmo impacta direto meu faturamento

45- Promoções agressivas distorcem o valor real do produto

46- Pressão por rapidez ignora a qualidade do processo

47- Reputação virou número e número virou ameaça.

48- Qualquer instabilidade técnica vira prejuízo meu

49- Sensação constante é de estar competindo dentro da própria casa.

50- Meu esforço merece retorno proporcional.

- Atendente Virtual, por enquanto, são essas que lembrei agora, mas tem mais. Só essas já está bom? Tem como cancelar minha participação ai no Ifood? Fico no aguardo tá, quero o comprovante de cancelamento por favor, pois não quero pagar taxa e mensalidade sem usar, tá ok?! Obrigado.

Depois de tantos motivos, o sistema registrou: “cancelamento solicitado”. Simples assim. Tão simples quanto nunca foi estar ali dentro. Fechei o aplicativo, olhei para a loja, e pela primeira vez em muito tempo, senti que o próximo passo é meu. Sem algoritmo, sem ranking, sem taxa surpresa. só eu, meu futuro, minhas decisões, meus objetivos e a responsabilidade que sempre foi minha.

E curiosamente, isso não assusta, Alivia!

Obrigado MisterChef pelos momentos de alegria e de muito desgaste. Você me custou minha sanidade, meu relacionamento, alguns amigos e boa parte da minha saúde física e mental. E me ensinou limites também. Mesmo assim, muito obrigado. 

Quanto a você, Ifood, espero de coração que você tenha muitos concorrentes e largue de ser explorador com os lojistas, que ainda insistem em sobreviver com sua plataforma. E que um dia a relação com eles seja mais equilibrada do que foi comigo.

Até nunca mais!

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Obs: infelizmente, é só uma crônica, um devaneio do que planejo fazer em breve. O delivery ainda está aberto, mas pretendo encerrar as atividades em breve e mudar o rumo profissional. Estou estudando e me preparando pra isso, todos os dias.

Obrigado por visitar nosso blog, é ótimo te ver por aqui novamente.

Até a próxima!

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Uma Batalha Apos A Outra


Assisti o filme essa semana e quando terminei fiquei com aquela sensação de “foi bom, mas preciso digerir”. Não é um filme simples, é intenso, confuso em alguns momentos, acelerado em outros e cheio de camadas políticas, sociais e emocionais acontecendo ao mesmo tempo.

Começando pelo óbvio, filmes com Leonardo DiCaprio é sempre um motivo pra assistir. Ele já fez atuações mais marcantes, é verdade, mas aqui entrega um trabalho sólido, mas não é aquele papel pra entrar na história, mas é o tipo de atuação que mantém o nível alto. Filmes com ele quase sempre valem a pena, e esse não foge à regra.

Agora, quem realmente me impressionou foi Sean Penn. Ele está absurdo, daqueles personagens que dão raiva, que incomodam, que fazem você querer entrar na tela e discutir com ele. E, pra mim, quando isso acontece, é sinal de atuação grande. Se você odeia o personagem, é porque o ator fez tudo certo e aqui ele fez.

A história mergulha fundo em temas pesados como rebeliões, ataques, terrorismo, conspirações, delações, prisões, jogos de poder. É tudo muito caótico, propositalmente, pois parece que o filme quer te deixar meio perdido, sem tempo pra organizar tudo na cabeça e te digo, funciona. Você vai sendo jogado de um lado pro outro junto com os personagens.

Não é, na minha opinião, um filme “cara de Oscar”, mas nem precisava ser, mas é aquele tipo de produção que, por tocar em assuntos como racismo, imigração, xenofobia e desigualdade, acaba ganhando mais atenção da crítica. Não porque é perfeito, mas porque dialoga com o momento atual. 

E aí entra outro destaque gigante, Benicio del Toro, que rouba a cena. Um professor de artes marciais que, na verdade, está envolvido com a resistência e ajuda imigrantes. Um personagem cheio de camadas, silencioso, forte, humano, e com uma atuação sensacional em vários momentos. Sinceramente? Ele e o Sean Penn parecem até mais fortes que o próprio DiCaprio.

O ritmo do filme é curioso são quase três horas, mas não pesa, passa rápido porque sempre tem algo acontecendo, e às vezes até rápido demais. Em alguns momentos, você nem tem tempo de processar direito uma revelação antes de vir outra por cima.

E, no fundo, o que te mantém até o final não é só a ação, é a curiosidade. Você quer saber “como isso vai acabar?” porque a história é tão maluca, tão cheia de reviravoltas, que dá vontade de ir até o fim só pra entender onde tudo vai parar.

No fim das contas, "Uma Batalha Após a Outra" não é um filme perfeito, não é obra-prima, não é revolucionário, mas é um filme forte, bem atuado, cheio de tensão, política, conflito humano e dilemas morais. É aquele tipo de filme que não sai da sua cabeça na hora, você termina e ainda fica pensando “o que foi exatamente que eu vi?", ou seja, isso significa que realmente valeu a pena.

domingo, fevereiro 22, 2026

Por que continuo criando?

Por que continuo criando, mesmo cansado ?



Tem dias em que eu acordo cansado antes mesmo de começar. Cansado de pensar em dinheiro, em contas, em trabalho, em futuro, em incerteza, cansado de tentar organizar a vida enquanto ela insiste em bagunçar tudo e mesmo assim, quase sempre, eu acabo criando alguma coisa.

Às vezes é um texto, as vezes é uma maquete, as vezes é uma ideia que eu anoto no celular, as vezes é só um rascunho que ninguém vai ver. Não é disciplina, não é método, é na verdade necessidade. Criar virou uma forma de não me perder no meio do cansaço.

Quando eu estou montando a vila dos Ewoks, escrevendo para o blog, pensando num projeto novo ou rabiscando alguma coisa, minha cabeça muda de lugar. Por alguns minutos, eu não sou o cara preocupado com boleto, taxa, plataforma ou prazo, sou só alguém tentando transformar uma ideia em algo concreto e isso dá um alívio que nenhuma distração dá.

Criar também é um jeito de provar pra mim mesmo que eu ainda estou vivo por dentro, que eu não virei só alguém resolvendo problema o dia inteiro, que ainda existe curiosidade, vontade, imaginação, mesmo quando tudo pede desistência, continuo inventando pequenas formas de seguir.

Não é romantização. Tem dias que eu não quero criar nada, tem dias que dá vontade de largar tudo e só existir. Mas, curiosamente, é nesses dias que a criação mais aparece, como se fosse uma resposta silenciosa ao desânimo. Escrever, montar, pensar, planejar, imaginar, tudo isso virou uma forma de resistência, não contra o mundo, mas contra o risco de me apagar aos poucos. Criar é o que me mantém conectado com quem eu sou, não só com o que eu preciso pagar.

Talvez um dia eu canse de vez. Talvez um dia eu mude de fase, mas, enquanto ainda tiver uma ideia na cabeça e vontade de transformá-la em algo, vou continuar criando, mesmo cansado. Porque, no fundo, é isso que me mantém de pé.

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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

O Gabinete de Curiosidades


O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro é daquelas séries que conversam diretamente com quem sempre gostou de histórias curtas, estranhas, sombrias e cheias de significado. Cada episódio apresenta uma trama diferente, com começo, meio e fim, quase como pequenos filmes de terror. A série estreou em outubro de 2022 e reúne oito histórias independentes, cada uma com um clima próprio dentro do espectro do terror, do grotesco ao gótico, do místico ao surreal.

O formato é um dos grandes acertos com episódios relativamente curtos, histórias fechadas e ideias criativas. Nada se arrasta, cada narrativa entrega algo próprio, seja no clima, na estética ou na mensagem. Assistindo, é impossível não lembrar de clássicos como Contos da Cripta e Além da Imaginação. Aquela sensação de abrir um episódio sem saber exatamente o que vai encontrar, mas já esperando algo perturbador, curioso ou inesperado. É o tipo de série que aposta mais na atmosfera e na reflexão do que em sustos fáceis.

Outro ponto interessante é que cada episódio é dirigido por um cineasta diferente. Isso faz com que a série nunca fique repetitiva, cada história tenha sua própria identidade, seu ritmo e sua forma de trabalhar o medo. Alguns episódios são mais sobrenaturais, outros mais psicológicos, outros mais simbólicos e outros bem nojentos. Nem todos funcionam da mesma forma, mas essa variedade é parte do charme.

Sempre fui fã desse tipo de produção, séries que exigem atenção e deixam espaço para interpretação. Em vários momentos, O Gabinete de Curiosidades faz você imaginar mais do que vê, faz questionar comportamentos, obsessões, medos e até a própria realidade. Isso não é só terror, é reflexão disfarçada de fantasia.

Grande parte disso vem da influência direta de Guillermo del Toro. Ele não é apenas o nome estampado no título, ele funciona como um curador dessas histórias, escolhendo diretores, temas e estilos que dialogam com sua visão artística. Quem conhece seus filmes sabe que ele sempre gostou de misturar o grotesco com o belo, o fantástico com o humano, o estranho com o sensível. Ao longo da carreira, Del Toro construiu uma identidade própria, seja em projetos mais autorais ou em grandes produções. Em O Gabinete de Curiosidades, ele consegue reunir esse amor pelo horror clássico, pelo imaginário fantástico e pelas histórias moralmente ambíguas em um único projeto.

O Gabinete de Curiosidades não tenta ser revolucionário, mas executa muito bem sua proposta, resgata o espírito das antigas antologias de terror, atualiza a linguagem e entrega histórias criativas, visualmente caprichadas e cheias de personalidade. É uma série para quem gosta de abrir uma história por vez, sentir o clima, refletir e, muitas vezes, sair com mais perguntas do que respostas.

O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro está disponível na Netflix.



quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Dele e Dela - Serie Netflix


Dele & Dela é daquelas séries que você começa sem muita expectativa e, quando percebe, já está completamente envolvido. São apenas seis episódios, mas com um ritmo tão bem construído que dá vontade de continuar assistindo mesmo depois do fim. Um dos grandes acertos está no elenco como Tessa Thompson e Jon Bernthal que entregam atuações excelentes. Os dois carregam a história nas costas, com personagens cheios de camadas, conflitos internos e ambiguidades. Em vários momentos, você não sabe exatamente em quem confiar, e isso é mérito direto da interpretação deles e do excelente enredo.

A história acompanha Anna Andrews (Tessa Thompson), uma jornalista de Atlanta que vive uma fase estagnada de sua carreira e da própria vida. Quando um assassinato brutal é descoberto em sua cidade natal, ela decide voltar para cobrir o caso, um movimento que desencadeia a investigação e reacende feridas pessoais que ela tinha deixado para trás. Enquanto isso, o detetive Jack Harper (Jon Bernthal), que também tem ligações profundas com o passado da cidade e da própria Anna (ex marido), assume oficialmente o caso e se vê em constante desconfiança sobre as reais intenções dela.

A construção do mistério é outro ponto alto pois a cada episódio, novas pistas aparecem, e todas parecem te empurrar para um suspeito diferente. Em um momento, você desconfia de um personagem secundário, no outro começa a achar que pode ser alguém próximo e logo depois, passa a desconfiar até dos protagonistas. A sensação é constante que o assassino pode ser qualquer um. E o mais interessante é que a série brinca com isso o tempo todo, cada nova revelação faz você mudar de ideia, Cada detalhe muda sua leitura da história. É aquele tipo de trama que te faz pensar: “Agora eu entendi tudo”, e cinco minutos depois, você percebe que não entendeu nada.

O verdadeiro responsável só aparece, de fato, nos minutos finais. Até lá, a série faz questão de confundir, provocar e testar sua atenção, pois nada é jogado ali por acaso. O último episódio, inclusive, é sensacional. Ele te leva a vários caminhos errados, desmonta teorias que você construiu ao longo da série e entrega revelações em sequência. É um fechamento que respeita quem acompanhou tudo com atenção. É muito bom! 

Outro mérito importante da serie é que não existe episódio fraco nem ruim. Em nenhum momento a série fica entediante e chata, sempre tem algo relevante acontecendo, cada cena tem função, cada diálogo importa e se você piscar, perde informação e detalhes que vão te confundir mais ainda. Não é uma série para assistir distraído mexendo no celular.

Talvez por isso deixe aquele gosto de “quero mais” quando termina. Não porque falte algo, mas porque o conjunto funciona tão bem que você queria continuar naquele universo por mais tempo. Dele & Dela é um suspense bem construído, com ótimas atuações, roteiro inteligente e ritmo envolvente e não tenta reinventar o gênero, mas executa tudo com competência e personalidade. É daquelas séries perfeitas para maratonar em um fim de semana e, depois, ficar pensando nas pistas, nas escolhas dos personagens e nas reviravoltas. Assisti todos os episódios em uma tarde de domingo. Foi ótimo e recomendo muito.

Dele & Dela está disponível na Netflix



segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Predador Badlands


Se você achou que a franquia PREDADOR tinha acabado e que não seria possível ter uma grande filme com esse personagem, sem parecer repetitivo, você estava enganado. PREDADOR BADLANDS é uma baita surpresa. Muita ação, bom enredo, muita coisa nova, vários toques de nostalgia e cenas de lutas o tempo todo, simplesmente o filme não para, não fica monótono hora nenhuma.

O foco é totalmente no Predador, do inicio ao fim, diferentemente dos filmes anteriores em que ele sempre foi quase um coadjuvante enquanto os humanos comandavam a história, em Badlands ele é o verdadeiro protagonista. Acompanhamos sua jornada, suas escolhas, suas perdas e, principalmente, sua luta para sobreviver em um mundo que parece feito para matar.

O nome Badlands não está ali a toa pois o planeta onde a historia acontece é um charme a parte. Tudo é perigoso, desde os animais e plantas exóticas, clima, terreno e muito mais. É um ambiente vivo, extremamente hostil, agressivo e imprevisível o tempo todo. Em vários momentos, a sensação é de que o Predador não está só enfrentando inimigos, mas o próprio planeta.

As cenas de luta são um dos grandes destaques desde a abertura do filme até o final. Coreografias intensas, bem filmadas, brutais na medida certa e cada confronto tem peso, não é só pancadaria gratuita, dá pra sentir o risco real em cada batalha. E, para os fãs, ainda tem o bônus das novas armas apresentadas, armas sensacionais que ampliam o universo da espécie e deixam tudo ainda mais interessante. Depois de assistir a esse filme, quero muito um jogo desse Predador só pra poder utilizar suas armas.

Outro detalhe que chama atenção são as referências à Weyland, empresa famosa por criar androides sintéticos nas franquias Alien e Predador. Esse elo ajuda a conectar universos e dá mais profundidade ao pano de fundo da história, sem virar fã-service vazio.

O roteiro também acerta ao brincar com a expectativa de quem está assistindo. Até a metade do filme, você acha que sabe quem é o grande inimigo, mas não é bem assim. A revelação muda o rumo da história e deixa tudo mais forte, mais tenso, mais envolvente e a partir daí, o filme cresce muito.

E talvez o ponto mais curioso, você torce pelo Predador o tempo todo, não como vilão, mas como alguém tentando provar seu valor, sobreviver e encontrar seu lugar e sua honra. É impossível não se envolver já que o personagem ganha humanidade sem deixar de ser alienígena, violento e implacável. A luta final é outro acerto, é bem construída, emocionalmente carregada, tecnicamente bem feita. Fecha a trajetória do personagem com dignidade, impacto e espetáculo.

No conjunto da obra, Predator Badlands é, sim, forte candidato a melhor filme da franquia superando até o clássico Predador da selva em termos de história, ação e construção de universo. Claro, o primeiro é intocável pelo fator nostalgia, ele faz parte da história do cinema, mas, olhando friamente para narrativa, ritmo, lutas e proposta, Badlands dá um show. É bom demais.

É um filme que respeita o passado, arrisca, muda o foco, expande o universo e entrega uma experiência intensa do começo ao fim. Para quem é fã da franquia, é obrigatório, e para quem nunca se interessou muito por Predador, faça o favor de sair daqui, tomar vergonha na cara e vá assistir o Predador do Arnold. Ou então vai assistir Barbie, talvez seja melhor pra você.

Predador não é mais só um monstro que perseguem humanos no filme e são derrotados por eles no final. Agora, os Predadores tem identidade, historia, cultura e clãs. O Predador finalmente é o protagonista de verdade da sua propria franquia. Assista, você não vai se arrepender.

Predador Badlands está disponível no Disney Plus


domingo, fevereiro 15, 2026

Carnaval


Acordei e percebi antes mesmo de olhar o celular.
A rua estava diferente, mais barulho, mais gente passando, uma música distante atravessando a janela. Aquela mistura de som ruim com empolgação alheia. Carnaval.

Peguei o celular quase no automático. Instagram aberto. A mesma sequência de sempre: fantasia, glitter, copo na mão, legenda falando de felicidade, liberdade, melhor época do ano. Todo mundo parecia vivendo algo grandioso, todo mundo parecia muito certo de estar no lugar certo.

Fechei o Insta.
Não por raiva.
Nem por desprezo.
Simplesmente por falta de paciência

Teve um tempo em que eu estaria ali no meio, planejando roupa, combinando com amigos, esperando a hora de sair. Indo porque todo mundo ia, bebendo porque era o clima, ficando até tarde porque parecia errado ir embora cedo. Quando eu namorava, tudo fazia mais sentido, a confusão era dividida, o barulho era compartilhado, a muvuca virava história pra contar depois, a festa parecia maior quando tinha alguém do lado. Ao mesmo tempo era terrível, andar com namorada no meio da muvuca, com um monte de gente pelada e bêbada. Péssima experiencia, não recomendo.

Bom, hoje, é diferente a sensação.
Hoje eu olho pra isso tudo e sinto… nada.
Não sinto vontade, não sinto falta, não sinto inveja. Sinto paz e alivio por não estar lá.

A ideia de ficar espremido, suado, tentando ouvir alguém falar no meio da música alta, me dá preguiça. Bebida já não anima, acordar mal no outro dia não compensa,  perder tempo fingindo empolgação não vale mais o esforço.

Enquanto a cidade acelera, eu desacelero. Bebo café, abro a janela, escuto o barulho de longe, como se fosse outro mundo. Sento, pego um livro, organizo um pensamento, anoto uma ideia. O silêncio vira companhia, a rotina vira abrigo e tá tudo bem. E, curiosamente, isso hoje me faz mais feliz do que qualquer bloco.

Não é que eu tenha virado chato.
É que eu virei honesto comigo.

Percebi que muitas vezes eu ia porque “tinha que ir”, porque era feio ficar em casa, porque parecia errado não postar nada, porque dava a impressão de estar ficando pra trás.

Mas pra trás de quê?

Hoje, ficar em casa é escolha, não é fuga, não é tristeza, não é isolamento, é consciência. É saber que nem toda festa é pra você, e que tá tudo bem.

Também tem outra coisa que quase ninguém fala. Ficar fora da festa é, às vezes, uma forma de evitar encontros desnecessários. Rostos que já fizeram parte da sua vida, histórias que você achou que tinha encerrado, conversas que não quer mais ter. O Carnaval mistura todo mundo no mesmo espaço, como se o passado e o presente fossem obrigados a conviver e hoje, eu prefiro não testar isso.

Lá fora, o Carnaval segue. Colorido, alto, exagerado, intenso, gente rindo, gente tropeçando, gente vomitando, gente comendo gente, prometendo coisas que não vão lembrar amanhã. Aqui dentro, eu sigo diferente, quieto, inteiro, presente. Sem glitter. Sem copo. Sem foto. Mas em paz. 

E, pela primeira vez, sinto que não estou perdendo nada.

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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Vidas Secas

Vidas Secas é um daqueles livros que enganam pelo tamanho, pois são poucas páginas, capítulos curtos, linguagem direta. Na teoria, era pra ser uma leitura rápida mas na prática, foi o contrário, demorei mais nesse livro do que em muitos com trezentas páginas. Não porque ele seja emocionalmente pesado o tempo todo. Tirando a parte da Baleia, que dói de verdade, o resto é seco, frio, quase distante. O peso aqui não é sentimental é mental porque o livro exige atenção, tradução, interpretação e nada vem mastigado, você precisa trabalhar enquanto lê e isso cansa.

Fabiano, o protagonista, não é herói, não é exemplo, não é vencedor, é só um homem tentando sobreviver, sem estudo, sem proteção, sem sorte. Trabalha em uma terra que não é dele, vive endividado, é explorado, enganado, humilhado, e continua simplesmente porque não tem opção.

A cena com o Soldado Amarelo resume bem isso. Fabiano é provocado, apanha, é preso injustamente e depois pensa em vingança, imagina usar o facão, sente raiva. Em vários momentos, eu cheguei a achar que ele tinha matado o soldado. O texto é tão imerso na cabeça do personagem que a gente confunde pensamento com ação, mas não, ele não faz nada. Ele engole a raiva e segue a vida. (Precisei ler o capitulo mais de uma vez pra entender isso)

E isso talvez seja a parte mais dura do livro. Fabiano nunca reage de verdade. Nos negócios, é sempre passado pra trás, não entende contas, juros, acordos. Confia, perde, trabalha mais e continua pobre. A família mal conversa, os filhos nem nome têm. São “o mais novo” e “o mais velho”. É como se nem tivessem identidade ainda. Sinhá Vitória sonha com uma cama, não com riqueza, não com luxo, simplesmente uma cama melhor. Esse detalhe diz tudo sobre o nível de privação daquela vida.

A seca não é só cenário, é personagem e ela manda em tudo, decide quando a família anda, quando para, quando passa fome, quando foge. E eles fogem o tempo todo. O mais simbólico é o final. O livro termina como começa. A família indo embora, de novo, em busca de uma vida melhor que talvez nunca venha, ou seja, nada mudou, só o tempo passou. É o ciclo da miséria.

Quando terminei, entendi por que esse livro é tão importante. Não é uma história “bonita”, não é confortável, não tenta emocionar fácil, ele mostra a pobreza sem romantizar, mostra a exclusão sem discurso, mostra a injustiça sem panfleto. Só mostra e deixa você lidar com isso.

No começo, confesso que achei difícil, arrastado, complicado demais pra tão poucas páginas. Voltei capítulos, reli trechos, me perdi em palavras do sertão e situações, mas, no final, fez sentido e acredito que era pra ser assim, não era pra fluir, era pra incomodar. Vidas Secas não é um livro pra gostar, é um livro pra entender e depois que você entende, ele fica com você.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

A ilusão do empreendedor solo


Durante muito tempo, venderam a ideia de que ser empreendedor é ser livre. “Seja seu próprio chefe”, “faça seu horário”, “trabalhe pra você”. Parece bonito, libertador, parece a saída perfeita pra quem não quer viver preso a chefe, empresa ou rotina engessada. Eu também acreditei nisso.

Na prática, ser empreendedor solo é descobrir que você troca um chefe por vários. Plataforma, cliente, taxa, algoritmo, entrega, boleto, fornecedor, prazo, humor do mercado. Todo dia alguém manda em você, só não é a mesma pessoa.

Você acorda pensando em custo, dorme pensando em conta, abre o aplicativo e já sabe que vai ter surpresa, taxa que muda, regra nova, comissão maior, frete absurdo, e você não decide quase nada, só se adapta. A tal “liberdade” vira sobrevivência.

Tem o cansaço físico, claro, mas o pior é o mental, é estar sempre ligado, sempre alerta, sempre preocupado, mesmo nos dias sem venda, o peso continua. Aluguel não tira folga, cartão não espera, boleto não entende “fase ruim”. E tem a solidão.

Ninguém vê o bastidor, ninguém vê você fazendo conta na madrugada, ninguém vê você refazendo preço dez vezes, ninguém vê a ansiedade antes de abrir o app. As pessoas só conseguem enxergar que você tem um negocio próprio, é empresário. Parece sucesso, mas por dentro, muitas vezes, é só resistência.

Empreender sozinho é ser marketing, financeiro, atendimento, produção, entrega, suporte técnico e psicólogo de si mesmo, tudo ao mesmo tempo, sem garantias, sem salário fixo e principalmente sem aplauso. E mesmo assim, você continua. Não porque é fácil. Porque é o que tem.

E ainda tem as críticas. Sempre tem. Vêm de gente próxima, de amigo, de parente, de quem acompanha de fora, gente que opina, cobra, compara, questiona, diz o que você deveria fazer, como deveria fazer, por que não deu certo, mas que nunca teve coragem de tentar, nunca abriu um negócio, nunca arriscou o próprio dinheiro, nunca perdeu sono por causa de conta, nunca sentiu o peso de depender só de si. É fácil apontar quando não se está no campo.

Com o tempo, eu entendi, o problema não é empreender, o problema é romantizar. Vender como sonho algo que, na prática, é luta diária, é adaptação constante, é cair e levantar sem plateia. Eu não me arrependo de tentar, aprendi muito, cresci, fiquei mais forte, mais realista também. Hoje eu não compro mais fantasia.

Ser empreendedor solo não é glamour. é coragem silenciosa e, às vezes, só isso já é vitória.

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