Sonhos de Trem — Quando um filme encontra a dor da vida real
Eu não sabia quase nada sobre "Sonhos de Trem" quando apertei o play na Netflix. Não vi trailer, não li sinopse, não procurei crítica, apenas sentei para assistir porque esta concorrendo ao Oscar. Talvez por isso o filme tenha me atingido tão forte.
A história acompanha a vida de um homem simples, um trabalhador das ferrovias no começo do século passado. Um homem comum, daqueles que constroem o mundo com as próprias mãos e que quase nunca aparecem nos livros de história.
O filme é lento, mas é um lento que faz sentido. Não é vazio, é contemplativo. A narrativa te coloca dentro da vida daquele homem. Você sente o esforço dele para trabalhar, a dor de ter que deixar a esposa e a filha para trás para ganhar dinheiro, e ao mesmo tempo sente o amor que existe naquela pequena família.
Você não apenas assiste ao filme, você vive o filme. Então acontece a tragédia.
A casa pega fogo enquanto ele está fora trabalhando e a esposa e a filha desaparecem. O filme nunca mostra exatamente o que aconteceu com elas. Não há corpos, não há despedida, não há confirmação absoluta. Só ausência. E talvez essa seja a parte mais cruel da história.
Porque quando alguém morre, existe dor, existe luto, mas existe também um fim, um ponto final. Ali não, fica apenas a dúvida, fica a esperança silenciosa de que talvez elas tenham sobrevivido, e esperança demais, às vezes, também machuca.
A cena que mais me destruiu emocionalmente acontece algum tempo depois da tragédia. Um amigo visita o protagonista e eles saem para caçar. O amigo abate um cervo e quando o personagem se aproxima do corpo do animal… ele simplesmente desaba.
Ele começa a chorar, e naquele momento eu entendi o que estava acontecendo. O cervo tinha um corpo. Ele podia ver, tocar, encerrar aquilo. Já sua esposa e sua filha não.
Não houve despedida.
Não houve corpo.
Não houve fechamento.
Eu chorei junto com ele.
E naquele momento percebi que o filme tinha atravessado uma fronteira, ele deixou de ser apenas uma história na tela e começou a tocar coisas muito pessoais dentro de mim.
Nos últimos meses eu também vivi uma perda. Diferente da dele, mas com algo em comum, não houve fechamento, não houve despedida. A pessoa continua viva, mas a relação acabou, e quando uma relação termina assim, sem explicação clara sem conversas, sem conclusão, é quase como um tipo estranho de luto.
Você fica preso entre duas coisas ao mesmo tempo. Luto e esperança. E essa combinação é devastadora.
Talvez por isso Sonhos de Trem tenha me atingido tão forte, porque o filme fala exatamente sobre isso, sobre viver com a ausência, sobre seguir em frente mesmo quando uma parte da sua vida ficou congelada no passado. O protagonista passa décadas vivendo quase em silêncio, trabalha, envelhece, observa o mundo mudar, sempre carregando aquela memória dentro dele. Até o fim.
No final do filme ele faz um passeio de avião, vê o mundo de cima e parece que toda a sua vida passa diante de seus olhos. Pouco tempo depois, morre sozinho em sua cabana. Mas não morre vazio, morre cheio de lembranças.
Eu também assisti recentemente O Agente Secreto, que está disputando prêmios e recebendo muitos elogios. É um bom filme, sem dúvida, mas não me atingiu da forma que Sonhos de Trem atingiu.
Simplesmente, porque às vezes o melhor filme não é aquele tecnicamente mais sofisticado, é aquele que encontra algo dentro de você que nem sabia que ainda estava doendo. E quando isso acontece, não é apenas cinema, é quase uma conversa silenciosa entre a história na tela e a vida de quem está assistindo.
Sonho de Trem está disponivel na Netflix.
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