sexta-feira, maio 08, 2026

Diario De Um Bebado

O pior do álcool nunca foi a ressaca.

Não era a dor de cabeça.
Não era o enjoo.
Não era acordar no outro dia jurando que nunca mais beberia.

O pior do álcool era a anestesia.
Demorei quase quarenta anos pra entender isso.

A bebida nunca resolveu nada na minha vida. Nunca pagou minhas contas, nunca curou minha ansiedade, nunca salvou meus relacionamentos e muito menos consertou minha cabeça. Ela só desligava tudo por algumas horas. Era como apertar um botão de pausa no mundo.
E eu gostava disso.

Gostava dos bares cheios, das conversas altas, das risadas exageradas, da sensação de pertencer a algum lugar. Gostava daquela falsa impressão de liberdade que aparece depois de algumas cervejas, quando parece que a vida finalmente ficou leve.

Mas ela nunca ficava.
No outro dia, tudo continuava lá.
Os problemas. As dívidas. A ansiedade. O vazio.

As mensagens que eu não deveria ter mandado.
O dinheiro que eu não deveria ter gastado.
O tempo perdido.

Talvez o pior seja perceber que o álcool vai roubando coisas pequenas sem você notar. Primeiro ele rouba suas noites. Depois sua disposição. Sua disciplina. Sua autoestima. Quando você percebe, começa a roubar até a forma como você enxerga a si mesmo.

Existe uma versão minha que aparece quando eu bebo e eu não gosto dela.

Ela fala demais. Gasta demais. Perde o controle. Procura distrações vazias. Tem pensamentos ruins. Age sem filtro. E sempre deixa a conta pro dia seguinte.
E o mais assustador é que durante muito tempo eu achei normal viver assim.

Hoje, olhando pra trás, vejo quantas vezes sentei em um bar sem nem querer estar lá. Eu só não sabia mais o que fazer comigo mesmo. O bar virou rotina. Virou fuga. Virou uma forma de preencher silêncios que eu não conseguia encarar sóbrio.

Só que uma hora cansa. Cansa acordar mal. Cansa perder tempo. Cansa gastar dinheiro tentando esquecer coisas que continuam dentro da gente. Cansa perceber que enquanto sua vida afunda, o relógio continua andando.

Nas últimas semanas, comecei a mudar algumas coisas. Voltei a fazer exercícios. Caminhar. Ler. Comer melhor. Beber água ao invés de cerveja. Parece pouco, mas não é.

Meu corpo começou a responder. Minha mente começou a desacelerar. A ansiedade diminuiu. E pela primeira vez em muito tempo, comecei a gostar da minha rotina sóbrio.

Ainda não é perfeito. Tem dias difíceis. Tem vontade de beber. Tem recaídas. Tem noites em que o vazio aparece do mesmo jeito. Mas existe uma diferença enorme agora

Eu não quero mais fugir disso.

Talvez eu nunca consiga ser aquele cara que bebe socialmente sem ultrapassar limites. Talvez eu precise aceitar isso. E sinceramente? Tudo bem.

Porque hoje eu entendi uma coisa importante
Eu gosto mais de quem eu sou quando estou sóbrio.


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