Acordei e percebi antes mesmo de olhar o celular.
A rua estava diferente, mais barulho, mais gente passando, uma música distante atravessando a janela. Aquela mistura de som ruim com empolgação alheia. Carnaval.
Peguei o celular quase no automático. Instagram aberto. A mesma sequência de sempre: fantasia, glitter, copo na mão, legenda falando de felicidade, liberdade, melhor época do ano. Todo mundo parecia vivendo algo grandioso, todo mundo parecia muito certo de estar no lugar certo.
Teve um tempo em que eu estaria ali no meio, planejando roupa, combinando com amigos, esperando a hora de sair. Indo porque todo mundo ia, bebendo porque era o clima, ficando até tarde porque parecia errado ir embora cedo. Quando eu namorava, tudo fazia mais sentido, a confusão era dividida, o barulho era compartilhado, a muvuca virava história pra contar depois, a festa parecia maior quando tinha alguém do lado. Ao mesmo tempo era terrível, andar com namorada no meio da muvuca, com um monte de gente pelada e bêbada. Péssima experiencia, não recomendo.
A ideia de ficar espremido, suado, tentando ouvir alguém falar no meio da música alta, me dá preguiça. Bebida já não anima, acordar mal no outro dia não compensa, perder tempo fingindo empolgação não vale mais o esforço.
Enquanto a cidade acelera, eu desacelero. Bebo café, abro a janela, escuto o barulho de longe, como se fosse outro mundo. Sento, pego um livro, organizo um pensamento, anoto uma ideia. O silêncio vira companhia, a rotina vira abrigo e tá tudo bem. E, curiosamente, isso hoje me faz mais feliz do que qualquer bloco.
Percebi que muitas vezes eu ia porque “tinha que ir”, porque era feio ficar em casa, porque parecia errado não postar nada, porque dava a impressão de estar ficando pra trás.
Mas pra trás de quê?
Hoje, ficar em casa é escolha, não é fuga, não é tristeza, não é isolamento, é consciência. É saber que nem toda festa é pra você, e que tá tudo bem.
Também tem outra coisa que quase ninguém fala. Ficar fora da festa é, às vezes, uma forma de evitar encontros desnecessários. Rostos que já fizeram parte da sua vida, histórias que você achou que tinha encerrado, conversas que não quer mais ter. O Carnaval mistura todo mundo no mesmo espaço, como se o passado e o presente fossem obrigados a conviver e hoje, eu prefiro não testar isso.
Lá fora, o Carnaval segue. Colorido, alto, exagerado, intenso, gente rindo, gente tropeçando, gente vomitando, gente comendo gente, prometendo coisas que não vão lembrar amanhã. Aqui dentro, eu sigo diferente, quieto, inteiro, presente. Sem glitter. Sem copo. Sem foto. Mas em paz.
E, pela primeira vez, sinto que não estou perdendo nada.
.

Nenhum comentário:
Postar um comentário