domingo, março 15, 2026

O Agente Secreto


Assisti O Agente Secreto com uma expectativa bem específica. Sabia que era um filme ambientado na Ditadura Militar Brasileira, estrelado por Wagner Moura e dirigido por Kleber Mendonça Filho, e que vinha sendo muito elogiado em festivais internacionais. Naturalmente imaginei que veria um thriller político intenso, talvez uma história de espionagem, infiltração ou perseguição direta do regime militar. Mas o filme acaba sendo bem diferente disso.

Primeiro vale falar da atuação de Wagner Moura. Ele é, sem dúvida, um grande ator, já demonstrou isso em vários momentos da carreira, principalmente em filmes como Tropa de Elite ou até produções internacionais como Elysium. Nesses papéis ele mostra intensidade, presença e carisma, já aqui porém, a interpretação segue outro caminho. O personagem é extremamente contido, fala pouco e passa grande parte do tempo em silêncio, é uma atuação minimalista, mais baseada em observação e tensão interna. Para alguns críticos isso pode ser visto como algo sofisticado, mas para mim acabou parecendo uma das interpretações menos marcantes dele, não porque ele atue mal, mas porque o papel simplesmente não exige grandes momentos dramáticos.

A história acompanha um professor que aparentemente está sendo perseguido. No começo parece que veremos um caso clássico de perseguição política, alguém fugindo diretamente da máquina repressiva da ditadura, mas conforme o filme avança, a situação parece muito mais ligada a um conflito com um empresário poderoso, alguém que usa sua influência e conexões para resolver problemas de forma violenta. Isso cria uma ambiguidade interessante, não fica totalmente claro se a perseguição é realmente institucional ou se nasce de uma vingança pessoal dentro de um sistema já corrompido pelo poder.

Existe, sim, crítica ao regime militar. Em alguns momentos ela aparece de forma direta, e em outros de maneira simbólica. Uma das cenas mais curiosas é aquela em que uma perna peluda anda sozinha pela praça chutando pessoas e deixando mortos e desaparecidos pelo caminho. É uma imagem estranha, quase surreal, mas que funciona como metáfora para os desaparecimentos da ditadura, quando pessoas simplesmente sumiam sem explicação. É um tipo de linguagem simbólica que talvez passe despercebida por parte do público, mas que carrega uma crítica forte.

Mesmo com esses elementos, o filme tem um problema de ritmo. Com quase três horas de duração, a narrativa é muito lenta e contemplativa. Boa parte da história se constrói em silêncio, observação e pequenos gestos. Isso cria atmosfera, mas também torna a experiência cansativa em vários momentos. Existem cenas fortes, especialmente um tiroteio bastante intenso que chega a ser perturbador, mas elas são raras dentro de um filme tão longo.

No fim das contas, fiquei com a sensação de que esperava um tipo de história e encontrei outra. Achei que veria um thriller político cheio de tensão e ação envolvendo espionagem ou perseguição direta da ditadura, ao invés disso, o que aparece é um drama mais introspectivo sobre paranoia, poder e sobrevivência dentro de um ambiente opressor.

Ainda assim, filmes sobre esse período continuam sendo necessários. A ditadura militar foi um dos momentos mais sombrios da história brasileira, marcado por censura, perseguições e desaparecimentos. Obras que revisitarem esse passado ajudam a manter viva a memória histórica e lembram por que regimes autoritários nunca devem voltar.

O Agente Secreto talvez não seja o filme mais envolvente ou empolgante do ano, mas levanta discussões importantes. Como cinema, pode ser cansativo, como lembrança histórica, continua tendo seu valor.

Quando se fala em filmes sobre a ditadura, sempre aparece alguém dizendo que a crítica política é exagerada ou desnecessária. Eu discordo completamente. A ditadura militar foi um dos períodos mais sombrios da história brasileira, marcado por censura, perseguições, tortura e desaparecimentos. Não existe “excesso” quando o assunto é lembrar esse passado.

Quanto mais obras discutirem esse período, melhor. Cinema, literatura e arte em geral têm justamente esse papel: manter viva a memória histórica para que erros desse tamanho nunca voltem a acontecer. Nesse sentido, O Agente Secreto cumpre uma função importante, mesmo sendo um filme lento e muitas vezes contemplativo, ele reforça a ideia de que havia um clima de medo constante, na qual qualquer pessoa que entrasse em conflito com estruturas de poder podia acabar perseguida ou silenciada.

Relembrar esse período não é apenas revisitar o passado, é também um alerta permanente de que regimes autoritários não surgem do nada, eles se constroem aos poucos, muitas vezes com apoio de setores da sociedade que acreditam estar defendendo ordem ou estabilidade. Por isso, independentemente das qualidades ou problemas do filme, uma coisa é inegável, histórias ambientadas nesse período continuam sendo necessárias, memória histórica não é exagero, é prevenção.

O Agente Secreto está disponivel na Netflix.

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