Dividido em três partes, o começo é esquisito. Gregor acorda transformado em um inseto grotesco e ninguém reage com o espanto que seria esperado. A família parece aceitar aquilo como um problema doméstico, quase como se fosse uma fase incômoda da vida, algo a ser administrado. Não há choque, não há desespero real, só adaptação e isso causa estranhamento, porque quebra qualquer lógica narrativa tradicional.
A segunda parte é ainda mais cansativa. Kafka passa páginas e páginas falando de móveis sendo retirados, objetos mudando de lugar, do quarto se esvaziando. Parece que nada acontece. Gregor anda pelas paredes, pelo teto, mesmo sendo um corpo que mal consegue se mover. Tudo soa repetitivo, arrastado, quase irritante. É fácil perder a paciência ali.
Mas o livro não está interessado em ser agradável. É só na terceira parte que tudo se encaixa. E encaixa com violência silenciosa.
A família já não reage, já não tenta entender pois a transformação vira rotina. Gregor deixa de ser problema e passa a ser peso. Até que, num momento aparentemente banal, ele provoca a perda dos inquilinos da casa. É aí que a sentença é dada. A irmã, que antes cuidava dele, verbaliza o que todos já sentiam, que aquilo já não era mais o irmão, era algo a ser eliminado.
Não há assassinato explícito. Não há ódio. Há cansaço. E isso é muito pior.
É nesse ponto que o livro deixa de ser “chato” e passa a ser brutal. Porque a história não é sobre um homem que vira inseto, é sobre um ser humano que perde sua função. E, ao perder a função, perde também o lugar, o afeto e o direito de existir.
Kafka escancara uma ideia desconfortável, o valor do indivíduo, para a sociedade e até para a família, está profundamente ligado à sua utilidade. Enquanto Gregor sustenta a casa, ele é tolerado, respeitado, necessário. Quando isso acaba, ele vira fardo, e fardos são descartados.
O mais importante de A Metamorfose não está na leitura em si, mas no que ela provoca depois. O livro não emociona, não empolga e não entretém, ele incomoda. E só faz sentido quando toca em algo real. Quando o leitor se reconhece, ainda que contra a própria vontade. Porque, em algum momento da vida, muita gente se sente como Gregor, sem função clara, dependente, pesando para os outros, invisível. E a pergunta que fica não é literária, é humana:
O quanto do nosso valor está condicionado ao que entregamos?
Kafka não oferece resposta.
Ele apenas mostra o resultado quando essa lógica vence.
Talvez por isso o livro seja difícil de gostar.
Mas impossível de ignorar depois que faz sentido.
O final do livro pega justamente porque ele não oferece catarse. Não há redenção, não existe aprendizado bonito e muito menos a sensação de que “vai ficar tudo bem”. Kafka apenas mostra o que acontece quando alguém é reduzido a peso e quando essa ideia atinge quem já se sentiu assim em algum momento da vida, pois o impacto vem forte, quase físico.
A história termina deixando o peso onde ele caiu e por isso que faz o livro incomodar tanto.
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