Guerras Secretas é uma daquelas histórias que todo fã da Marvel acaba lendo mais pela fama do que pela promessa de uma grande narrativa. Ela é importante, histórica, marcou época e mudou coisas fundamentais no universo Marvel, mas relendo hoje fica claro que o peso histórico não se traduz, necessariamente, em uma boa história.
Parte disso se explica pela própria origem do projeto. Guerras Secretas foi encomendada para a criação e venda de action figures. A ideia veio do departamento comercial, e o roteiro precisou se adaptar a isso. Era necessário colocar o máximo possível de heróis e vilões juntos, em um mesmo cenário, lutando entre si. O resultado é uma história que parece muito mais uma grande arena de batalha do que uma narrativa bem construída, o que ajuda a entender a simplicidade do enredo e a previsibilidade dos conflitos.
A premissa é direta ao extremo quando heróis e vilões são levados para um planeta artificial, precisam lutar, e o vencedor teria seus desejos atendidos. Não há grandes reviravoltas, nem camadas morais mais profundas. Os vilões são chatos e previsíveis, mas cumprem sua função básica de gerar confrontos, porem, eles não empolgam, mas são necessários para movimentar a trama.
O final da história segue essa mesma linha de decepção. Tudo se resolve de maneira rápida, simples e até estranha. O Beyonder recuperar seus poderes era algo esperado, mas a forma como isso acontece carece de impacto. A sensação é de encerramento apressado, sem um clímax realmente marcante.
A arte também reflete o período em que a HQ foi produzida. Os desenhos são simples, funcionais e claramente datados. Não chegam a comprometer a leitura, mas também não impressionam. Dentro do contexto de 1984, cumprem seu papel, mas estão longe de serem memoráveis.
Entre os pontos positivos, o grande destaque vai para o Capitão América. A liderança dele é impecável do início ao fim. Ele toma decisões difíceis, assume responsabilidades e enfrenta um destino praticamente onipotente sozinho, sem discurso vazio ou heroísmo exagerado. Ele simplesmente faz o que precisa ser feito. É o tipo de atuação que reforça por que ele é um dos pilares morais do universo Marvel.
Reed Richards também rouba a cena em diversos momentos. Inteligente, estratégico e racional, ele deixa claro por que é o líder natural do Quarteto Fantástico. Sempre que Reed e Capitão América estão em evidência, a história ganha outro nível. Fica evidente que eles não são líderes por acaso, mas porque entendem o jogo melhor do que todos ao redor.
A participação dos X-Men também causa estranhamento. A falta de ação e negligencia inicial do grupo e a aliança com Magneto são pouco explicadas e carecem de coerência. Fica a sensação de que suas ações foram definidas mais por conveniência de roteiro do que por motivações bem trabalhadas. Xavier negou ajuda aos Vingadores simplesmente porque quis.
A presença de Galactus ajuda a reforçar o clima de guerra total e de mundo hostil, no qual ninguém está realmente seguro. Esse aspecto funciona bem e contribui para a sensação de conflito em larga escala. Um detalhe importante, muitas vezes ignorado, é o papel da alienígena Zsaji. Sem ela, os heróis simplesmente teriam perdido. Ela cura diversos personagens ao longo da história e, no final, sacrifica a própria vida para salvá-los. É um sacrifício silencioso, pouco celebrado, mas absolutamente decisivo para o desfecho.
Outro ponto que chama atenção é o uso completamente irregular de personagens, como a Mulher-Aranha e o Homem de Gelo. A Mulher-Aranha simplesmente aparece no Mundo Bélico usando um uniforme negro, extremamente forte, participando dos conflitos como se sempre tivesse estado ali, sem qualquer explicação prévia ou contextualização mínima. Nenhum herói a conhecia e ela foi trazida pra muvuca aleatoriamente. Ela surge do nada, age como peça importante em alguns momentos e pronto, o leitor que aceite.
Já o caso do Homem de Gelo é ainda mais estranho. Diferente de outros personagens esquecidos pelo roteiro, ele nem sequer foi teletransportado para o Mundo Bélico. Ele simplesmente não faz parte da história, não aparece, não é citado e não tem qualquer participação. Ainda assim, ganhou action figure vinculada a Guerras Secretas, o que deixa claro que não se trata de uma falha narrativa pontual, mas de uma decisão puramente comercial. A linha de brinquedos precisava representar o “universo Marvel” como um todo, independentemente da coerência interna da HQ. Esses exemplos deixam evidente como o evento priorizou a vitrine de personagens em detrimento de uma construção narrativa consistente, reforçando a sensação de que a história foi moldada mais para o marketing do que para o roteiro. Obs: eu comprei essa versão do homem de gelo, é maravilhosa e no encarte esta escrito que ele tem participação na historia porem ele não esta la. Ate agora to sem entender.
No fim das contas, Guerras Secretas é mais importante pelo que representou e pelo que gerou depois do que pela história que conta. Como marco histórico, é fundamental. Como narrativa, é fraca e simplista. Por isso, a nota final fica em 3,5 de 5, não por causa da arte, mas principalmente pelo roteiro raso e pelo desfecho estranho e decepcionante e pequenas falhas.
Vale a leitura pelo contexto e pela importância histórica, mas é bom ajustar as expectativas. É um clássico, sem dúvida. Uma grande história, nem tanto.
.



Nenhum comentário:
Postar um comentário