domingo, janeiro 04, 2026

EUA X Venezuela


Neste fim de semana, os Estados Unidos voltaram a ocupar o papel que a América Latina conhece bem: o de força externa que decide agir militarmente em nome de uma suposta ordem maior. O alvo foi a Venezuela, e o discurso, mais uma vez, veio embalado em palavras conhecidas como democracia, estabilidade e proteção regional.

Esse roteiro não é novo. Ele vem diretamente da Doutrina Monroe, criada no século XIX sob a ideia de “América para os americanos”, mas que ao longo do tempo foi reinterpretada como “a América sob tutela dos Estados Unidos”. Sempre que interesses estratégicos entram em jogo, a soberania latino-americana vira detalhe.

No caso venezuelano, falar em interesse é inevitável. O país concentra algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, além de recursos minerais estratégicos. Não se trata de altruísmo, nem de preocupação real com o povo venezuelano. Se fosse, a política externa americana teria outro histórico. O que move ações como essa não é a defesa da democracia, é a proteção de ativos, influência geopolítica e controle econômico.

Isso não significa ignorar quem governa a Venezuela. Nicolás Maduro é, sim, um ditador. Seu governo se sustenta com repressão, eleições questionáveis, controle institucional e perseguição à oposição. Negar isso é fechar os olhos para a realidade. Mas reconhecer a ditadura de Maduro não transforma automaticamente uma intervenção estrangeira em algo legítimo.

Ataques militares dos Estados Unidos a qualquer país latino-americano são uma afronta direta à soberania nacional e regional. A mensagem implícita é clara, que ainda existe um centro que se julga autorizado a decidir o destino dos outros. E isso carrega um peso histórico enorme para um continente marcado por golpes, intervenções e dependência forçada.

Mesmo quando há um tirano no poder, a guerra não é o caminho. Bombas não libertam povos. Sanções, invasões e operações militares quase sempre ampliam o sofrimento de quem já vive no limite. Defender esse tipo de ação como solução exige ignorar o impacto humano que vem depois. Crianças, civis, trabalhadores comuns pagam um preço que nunca entra nos discursos oficiais.

Independentemente de quem esteja certo ou errado no tabuleiro político, há um ponto que deveria ser inegociável: a vida humana não pode ser instrumento de estratégia. Quem celebra guerra, seja qual for o lado, perdeu algo essencial no caminho. Talvez empatia. Talvez memória histórica. Talvez humanidade.

A América Latina já viu esse filme vezes demais. E quase nunca termina bem para quem está do lado mais fraco da história.

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