quarta-feira, janeiro 07, 2026

A Psicologia Financeira

A PSICOLOGIA FINANCEIRA
Morgan Housel

Desde as primeiras páginas de A Psicologia Financeira, ficou claro que o livro não estava interessado em ensinar ninguém a ganhar mais dinheiro. A proposta era outra. Em vez de investimento, planilha ou fórmula de sucesso, o foco estava no comportamento humano depois que o dinheiro entra em cena.

Esse estranhamento inicial não veio como rejeição, mas como alerta. O livro desmonta, com bastante naturalidade, a ideia vendida por podcasts e “especialistas” de que sucesso financeiro é resultado direto de disciplina, inteligência acima da média ou método infalível. O que mais chama atenção é o espaço que o autor dá a fatores quase sempre ignorados nesses discursos, como sorte, acaso e contexto.

Ao longo da leitura, fica evidente que genialidade não garante estabilidade financeira. Um gênio pode ser um desastre com dinheiro. Da mesma forma, uma pessoa comum, sem formação acadêmica, pode se tornar milionária dominando poucas habilidades básicas. Isso não é romantização da ignorância, é constatação comportamental.

O ponto que mais pesa é o fator sorte. Morgan Housel trata a sorte não como detalhe, mas como elemento estrutural do sucesso financeiro. Estar no lugar certo, no momento certo, com acesso às oportunidades certas, muda completamente o jogo. Ignorar isso é criar narrativas injustas e irreais.

Outro aspecto fundamental é o tempo. Não o tempo como urgência, mas como aliado silencioso. A construção de patrimônio está muito mais ligada à permanência, à paciência e à capacidade de não destruir o que foi conquistado do que a grandes decisões brilhantes. O tempo trabalha a favor de quem entende isso, e contra quem busca atalhos.

Quando o livro entra no tema dos investimentos, essa lógica fica ainda mais clara. Uma das receitas mais consistentes do sucesso financeiro é simplesmente deixar o dinheiro parado por anos, permitindo que o tempo faça o trabalho pesado. Não se trata de movimentos geniais, de acertar o momento exato do mercado ou de decisões brilhantes constantes, mas de resistir à tentação de mexer, sacar ou reinventar tudo a cada crise. O crescimento acontece devagar, quase invisível, e justamente por isso muita gente abandona o processo antes de ele mostrar resultado.

Nesse ponto, a concordância com o livro se consolida. Principalmente quando ele deixa claro que exceções não devem virar modelo padrão. Casos fora da curva não servem como regra, nem como material de estudo universal. Ainda assim, são exatamente esses casos que muitos coaches usam como prova de que “qualquer um pode”, ignorando tudo o que não cabe na narrativa de palco.

O problema não é se inspirar em histórias de sucesso. O problema é vendê-las como promessa. Quando se usa a exceção como regra, o discurso deixa de ser educativo e passa a ser enganoso.

No fim, A Psicologia Financeira não ensina como enriquecer. Ensina a pensar melhor sobre dinheiro, risco, comportamento e narrativa. E talvez seja justamente por isso que ele funcione tão bem porque não promete controle total sobre algo que nunca esteve totalmente sob controle.

domingo, janeiro 04, 2026

EUA X Venezuela


Neste fim de semana, os Estados Unidos voltaram a ocupar o papel que a América Latina conhece bem: o de força externa que decide agir militarmente em nome de uma suposta ordem maior. O alvo foi a Venezuela, e o discurso, mais uma vez, veio embalado em palavras conhecidas como democracia, estabilidade e proteção regional.

Esse roteiro não é novo. Ele vem diretamente da Doutrina Monroe, criada no século XIX sob a ideia de “América para os americanos”, mas que ao longo do tempo foi reinterpretada como “a América sob tutela dos Estados Unidos”. Sempre que interesses estratégicos entram em jogo, a soberania latino-americana vira detalhe.

No caso venezuelano, falar em interesse é inevitável. O país concentra algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, além de recursos minerais estratégicos. Não se trata de altruísmo, nem de preocupação real com o povo venezuelano. Se fosse, a política externa americana teria outro histórico. O que move ações como essa não é a defesa da democracia, é a proteção de ativos, influência geopolítica e controle econômico.

Isso não significa ignorar quem governa a Venezuela. Nicolás Maduro é, sim, um ditador. Seu governo se sustenta com repressão, eleições questionáveis, controle institucional e perseguição à oposição. Negar isso é fechar os olhos para a realidade. Mas reconhecer a ditadura de Maduro não transforma automaticamente uma intervenção estrangeira em algo legítimo.

Ataques militares dos Estados Unidos a qualquer país latino-americano são uma afronta direta à soberania nacional e regional. A mensagem implícita é clara, que ainda existe um centro que se julga autorizado a decidir o destino dos outros. E isso carrega um peso histórico enorme para um continente marcado por golpes, intervenções e dependência forçada.

Mesmo quando há um tirano no poder, a guerra não é o caminho. Bombas não libertam povos. Sanções, invasões e operações militares quase sempre ampliam o sofrimento de quem já vive no limite. Defender esse tipo de ação como solução exige ignorar o impacto humano que vem depois. Crianças, civis, trabalhadores comuns pagam um preço que nunca entra nos discursos oficiais.

Independentemente de quem esteja certo ou errado no tabuleiro político, há um ponto que deveria ser inegociável: a vida humana não pode ser instrumento de estratégia. Quem celebra guerra, seja qual for o lado, perdeu algo essencial no caminho. Talvez empatia. Talvez memória histórica. Talvez humanidade.

A América Latina já viu esse filme vezes demais. E quase nunca termina bem para quem está do lado mais fraco da história.

sábado, janeiro 03, 2026

Correcao da Ultima Retrospectiva


Quero corrigir duas falhas que escrevi na minha ultima retrospectiva. Recebi alguns feedbacks de pessoas próximas que estavam preocupadas comigo, então resolvi pegar dois pontos principais do que escrevi antes e corrigi-los: relacionamento e financeiro. Não maquiar o que aconteceu ou que esta acontecendo mas atualizar para janeiro 2026 e expor a real situação de tudo.

Escrevi parte da minha retrospectiva durante todo ano e quando escrevi ainda estava preso a um sentimento que, na época, eu achava que era amor. Hoje entendo melhor, era apego, era medo de perder, era dificuldade de aceitar o fim.

O que vivi foi real, doeu, me marcou e exigiu mudanças profundas. Mas o tempo e os acontecimentos mostram coisas que a gente não consegue enxergar quando ainda está emocionalmente envolvido. Ver a vida seguir em direções diferentes não é fácil, mas também é esclarecedor. Algumas histórias não terminam por falta de sentimento, terminam porque não fazem mais sentido para quem a gente se tornou.

Hoje, não escrevo mais com a esperança de retorno, nem com raiva. Escrevo com lucidez. O que ficou para trás cumpriu seu papel. Agora, o compromisso é comigo, com minha reconstrução, minha estabilidade e minha paz.

O passado não precisa ser negado, mas também não precisa ser repetido.

Tive muitos problemas financeiros em 2025. Mas já to resolvendo.

Uma parte importante disso aconteceu porque tentei sustentar um relacionamento que já estava falido, mas que eu não conseguia enxergar como tal.

Passei meses viajando para outra cidade, tentando manter algo que já não me devolvia equilíbrio, apoio ou clareza. Fiz isso acreditando que era o certo, acreditando que insistir era prova de compromisso. Hoje vejo que era insistência no erro.

Trabalho com delivery e meu negócio depende diretamente de constância, ou seja, loja aberta, presença diária, manutenção de clientes. Durante esse período, fiquei fechado muitas vezes. Perdi ritmo, perdi clientes e perdi dinheiro. Não foi pontual, foi ao longo de todo o ano.

A pressão emocional, as cobranças e a instabilidade acabaram refletindo na minha saúde mental. Desenvolvi ansiedade, episódios depressivos e, mesmo estando na minha cidade, houve dias em que simplesmente não consegui abrir a loja. Não escrevo isso para transferir culpa. As escolhas foram minhas. Eu poderia ter agido diferente. Se pudesse voltar no tempo, não faria da mesma forma.

Fiz tudo acreditando que estava salvando algo. Hoje entendo que estava me afundando junto. Reconhecer isso não é rancor, é lucidez.

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quinta-feira, janeiro 01, 2026

Manual de Persuasao do FBI

Manual de Persuasão do FBI
Jack Schafer, Marvin Karlins

Terminar O Manual de Persuasão do FBI deixa uma sensação bem diferente da maioria dos livros de desenvolvimento pessoal. Não é inspirador, não é motivacional e definitivamente não tenta ser agradável. É um livro técnico, frio e direto, escrito a partir da prática, não da teoria.

Isso fica claro logo nas primeiras páginas. Não parece um livro pensado para o grande público. Em muitos momentos, a impressão é de estar lendo um material de treinamento que escapou de um ambiente interno e foi parar na livraria. Não há preocupação em suavizar conceitos nem em convencer o leitor de nada. As técnicas são apresentadas como ferramentas funcionais, usadas em situações reais, sob pressão real.

Talvez por isso ele cause certo desconforto. O livro mostra como rapport, empatia e confiança podem ser construídos de forma consciente, quase mecânica. Não como virtudes morais, mas como meios para alcançar objetivos específicos. Isso muda completamente o olhar de quem lê. Depois de alguns capítulos, fica difícil não começar a observar interações do cotidiano com mais desconfiança e, ao mesmo tempo, mais lucidez.

Ao contrário de livros como o do Carnegie, aqui a empatia não é tratada como algo nobre em si. Ela é uma habilidade operacional. Funciona porque funciona, não porque é bonita. E isso não torna o livro melhor ou pior, apenas honesto com sua origem. Ele não ensina como ser uma pessoa melhor, ensina como pessoas são influenciadas.

Por ser técnico, o livro também cansa. Há repetição, excesso de explicações operacionais e exemplos que exigem atenção constante. Não é uma leitura fluida nem leve. É um livro que pede distanciamento emocional e leitura aos poucos. Quando lido rápido demais, perde impacto e vira peso.

Ainda assim, o mérito está justamente aí. Jack Schafer e Marvin Karlins não escrevem para agradar. Escrevem para explicar como as coisas funcionam quando o objetivo é obter informação, gerar confiança ou conduzir uma conversa em ambientes de risco.

No fim, a melhor forma de ler esse livro talvez não seja tentando aplicar tudo, mas refletindo sobre o quanto dessas técnicas já fazem parte da vida comum. Quantas conversas são espontâneas e quantas são conduzidas. E, mais desconfortável ainda, quantas vezes a gente também já persuadiu alguém sem perceber.

Não é um livro para se sentir bem. É um livro para ficar atento.