domingo, fevereiro 22, 2026

Por que continuo criando?

Por que continuo criando, mesmo cansado ?



Tem dias em que eu acordo cansado antes mesmo de começar. Cansado de pensar em dinheiro, em contas, em trabalho, em futuro, em incerteza, cansado de tentar organizar a vida enquanto ela insiste em bagunçar tudo e mesmo assim, quase sempre, eu acabo criando alguma coisa.

Às vezes é um texto, as vezes é uma maquete, as vezes é uma ideia que eu anoto no celular, as vezes é só um rascunho que ninguém vai ver. Não é disciplina, não é método, é na verdade necessidade. Criar virou uma forma de não me perder no meio do cansaço.

Quando eu estou montando a vila dos Ewoks, escrevendo para o blog, pensando num projeto novo ou rabiscando alguma coisa, minha cabeça muda de lugar. Por alguns minutos, eu não sou o cara preocupado com boleto, taxa, plataforma ou prazo, sou só alguém tentando transformar uma ideia em algo concreto e isso dá um alívio que nenhuma distração dá.

Criar também é um jeito de provar pra mim mesmo que eu ainda estou vivo por dentro, que eu não virei só alguém resolvendo problema o dia inteiro, que ainda existe curiosidade, vontade, imaginação, mesmo quando tudo pede desistência, continuo inventando pequenas formas de seguir.

Não é romantização. Tem dias que eu não quero criar nada, tem dias que dá vontade de largar tudo e só existir. Mas, curiosamente, é nesses dias que a criação mais aparece, como se fosse uma resposta silenciosa ao desânimo. Escrever, montar, pensar, planejar, imaginar, tudo isso virou uma forma de resistência, não contra o mundo, mas contra o risco de me apagar aos poucos. Criar é o que me mantém conectado com quem eu sou, não só com o que eu preciso pagar.

Talvez um dia eu canse de vez. Talvez um dia eu mude de fase, mas, enquanto ainda tiver uma ideia na cabeça e vontade de transformá-la em algo, vou continuar criando, mesmo cansado. Porque, no fundo, é isso que me mantém de pé.

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sexta-feira, fevereiro 20, 2026

O Gabinete de Curiosidades


O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro é daquelas séries que conversam diretamente com quem sempre gostou de histórias curtas, estranhas, sombrias e cheias de significado. Cada episódio apresenta uma trama diferente, com começo, meio e fim, quase como pequenos filmes de terror. A série estreou em outubro de 2022 e reúne oito histórias independentes, cada uma com um clima próprio dentro do espectro do terror, do grotesco ao gótico, do místico ao surreal.

O formato é um dos grandes acertos com episódios relativamente curtos, histórias fechadas e ideias criativas. Nada se arrasta, cada narrativa entrega algo próprio, seja no clima, na estética ou na mensagem. Assistindo, é impossível não lembrar de clássicos como Contos da Cripta e Além da Imaginação. Aquela sensação de abrir um episódio sem saber exatamente o que vai encontrar, mas já esperando algo perturbador, curioso ou inesperado. É o tipo de série que aposta mais na atmosfera e na reflexão do que em sustos fáceis.

Outro ponto interessante é que cada episódio é dirigido por um cineasta diferente. Isso faz com que a série nunca fique repetitiva, cada história tenha sua própria identidade, seu ritmo e sua forma de trabalhar o medo. Alguns episódios são mais sobrenaturais, outros mais psicológicos, outros mais simbólicos e outros bem nojentos. Nem todos funcionam da mesma forma, mas essa variedade é parte do charme.

Sempre fui fã desse tipo de produção, séries que exigem atenção e deixam espaço para interpretação. Em vários momentos, O Gabinete de Curiosidades faz você imaginar mais do que vê, faz questionar comportamentos, obsessões, medos e até a própria realidade. Isso não é só terror, é reflexão disfarçada de fantasia.

Grande parte disso vem da influência direta de Guillermo del Toro. Ele não é apenas o nome estampado no título, ele funciona como um curador dessas histórias, escolhendo diretores, temas e estilos que dialogam com sua visão artística. Quem conhece seus filmes sabe que ele sempre gostou de misturar o grotesco com o belo, o fantástico com o humano, o estranho com o sensível. Ao longo da carreira, Del Toro construiu uma identidade própria, seja em projetos mais autorais ou em grandes produções. Em O Gabinete de Curiosidades, ele consegue reunir esse amor pelo horror clássico, pelo imaginário fantástico e pelas histórias moralmente ambíguas em um único projeto.

O Gabinete de Curiosidades não tenta ser revolucionário, mas executa muito bem sua proposta, resgata o espírito das antigas antologias de terror, atualiza a linguagem e entrega histórias criativas, visualmente caprichadas e cheias de personalidade. É uma série para quem gosta de abrir uma história por vez, sentir o clima, refletir e, muitas vezes, sair com mais perguntas do que respostas.

O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro está disponível na Netflix.



quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Dele e Dela - Serie Netflix


Dele & Dela é daquelas séries que você começa sem muita expectativa e, quando percebe, já está completamente envolvido. São apenas seis episódios, mas com um ritmo tão bem construído que dá vontade de continuar assistindo mesmo depois do fim. Um dos grandes acertos está no elenco como Tessa Thompson e Jon Bernthal que entregam atuações excelentes. Os dois carregam a história nas costas, com personagens cheios de camadas, conflitos internos e ambiguidades. Em vários momentos, você não sabe exatamente em quem confiar, e isso é mérito direto da interpretação deles e do excelente enredo.

A história acompanha Anna Andrews (Tessa Thompson), uma jornalista de Atlanta que vive uma fase estagnada de sua carreira e da própria vida. Quando um assassinato brutal é descoberto em sua cidade natal, ela decide voltar para cobrir o caso, um movimento que desencadeia a investigação e reacende feridas pessoais que ela tinha deixado para trás. Enquanto isso, o detetive Jack Harper (Jon Bernthal), que também tem ligações profundas com o passado da cidade e da própria Anna (ex marido), assume oficialmente o caso e se vê em constante desconfiança sobre as reais intenções dela.

A construção do mistério é outro ponto alto pois a cada episódio, novas pistas aparecem, e todas parecem te empurrar para um suspeito diferente. Em um momento, você desconfia de um personagem secundário, no outro começa a achar que pode ser alguém próximo e logo depois, passa a desconfiar até dos protagonistas. A sensação é constante que o assassino pode ser qualquer um. E o mais interessante é que a série brinca com isso o tempo todo, cada nova revelação faz você mudar de ideia, Cada detalhe muda sua leitura da história. É aquele tipo de trama que te faz pensar: “Agora eu entendi tudo”, e cinco minutos depois, você percebe que não entendeu nada.

O verdadeiro responsável só aparece, de fato, nos minutos finais. Até lá, a série faz questão de confundir, provocar e testar sua atenção, pois nada é jogado ali por acaso. O último episódio, inclusive, é sensacional. Ele te leva a vários caminhos errados, desmonta teorias que você construiu ao longo da série e entrega revelações em sequência. É um fechamento que respeita quem acompanhou tudo com atenção. É muito bom! 

Outro mérito importante da serie é que não existe episódio fraco nem ruim. Em nenhum momento a série fica entediante e chata, sempre tem algo relevante acontecendo, cada cena tem função, cada diálogo importa e se você piscar, perde informação e detalhes que vão te confundir mais ainda. Não é uma série para assistir distraído mexendo no celular.

Talvez por isso deixe aquele gosto de “quero mais” quando termina. Não porque falte algo, mas porque o conjunto funciona tão bem que você queria continuar naquele universo por mais tempo. Dele & Dela é um suspense bem construído, com ótimas atuações, roteiro inteligente e ritmo envolvente e não tenta reinventar o gênero, mas executa tudo com competência e personalidade. É daquelas séries perfeitas para maratonar em um fim de semana e, depois, ficar pensando nas pistas, nas escolhas dos personagens e nas reviravoltas. Assisti todos os episódios em uma tarde de domingo. Foi ótimo e recomendo muito.

Dele & Dela está disponível na Netflix



segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Predador Badlands


Se você achou que a franquia PREDADOR tinha acabado e que não seria possível ter uma grande filme com esse personagem, sem parecer repetitivo, você estava enganado. PREDADOR BADLANDS é uma baita surpresa. Muita ação, bom enredo, muita coisa nova, vários toques de nostalgia e cenas de lutas o tempo todo, simplesmente o filme não para, não fica monótono hora nenhuma.

O foco é totalmente no Predador, do inicio ao fim, diferentemente dos filmes anteriores em que ele sempre foi quase um coadjuvante enquanto os humanos comandavam a história, em Badlands ele é o verdadeiro protagonista. Acompanhamos sua jornada, suas escolhas, suas perdas e, principalmente, sua luta para sobreviver em um mundo que parece feito para matar.

O nome Badlands não está ali a toa pois o planeta onde a historia acontece é um charme a parte. Tudo é perigoso, desde os animais e plantas exóticas, clima, terreno e muito mais. É um ambiente vivo, extremamente hostil, agressivo e imprevisível o tempo todo. Em vários momentos, a sensação é de que o Predador não está só enfrentando inimigos, mas o próprio planeta.

As cenas de luta são um dos grandes destaques desde a abertura do filme até o final. Coreografias intensas, bem filmadas, brutais na medida certa e cada confronto tem peso, não é só pancadaria gratuita, dá pra sentir o risco real em cada batalha. E, para os fãs, ainda tem o bônus das novas armas apresentadas, armas sensacionais que ampliam o universo da espécie e deixam tudo ainda mais interessante. Depois de assistir a esse filme, quero muito um jogo desse Predador só pra poder utilizar suas armas.

Outro detalhe que chama atenção são as referências à Weyland, empresa famosa por criar androides sintéticos nas franquias Alien e Predador. Esse elo ajuda a conectar universos e dá mais profundidade ao pano de fundo da história, sem virar fã-service vazio.

O roteiro também acerta ao brincar com a expectativa de quem está assistindo. Até a metade do filme, você acha que sabe quem é o grande inimigo, mas não é bem assim. A revelação muda o rumo da história e deixa tudo mais forte, mais tenso, mais envolvente e a partir daí, o filme cresce muito.

E talvez o ponto mais curioso, você torce pelo Predador o tempo todo, não como vilão, mas como alguém tentando provar seu valor, sobreviver e encontrar seu lugar e sua honra. É impossível não se envolver já que o personagem ganha humanidade sem deixar de ser alienígena, violento e implacável. A luta final é outro acerto, é bem construída, emocionalmente carregada, tecnicamente bem feita. Fecha a trajetória do personagem com dignidade, impacto e espetáculo.

No conjunto da obra, Predator Badlands é, sim, forte candidato a melhor filme da franquia superando até o clássico Predador da selva em termos de história, ação e construção de universo. Claro, o primeiro é intocável pelo fator nostalgia, ele faz parte da história do cinema, mas, olhando friamente para narrativa, ritmo, lutas e proposta, Badlands dá um show. É bom demais.

É um filme que respeita o passado, arrisca, muda o foco, expande o universo e entrega uma experiência intensa do começo ao fim. Para quem é fã da franquia, é obrigatório, e para quem nunca se interessou muito por Predador, faça o favor de sair daqui, tomar vergonha na cara e vá assistir o Predador do Arnold. Ou então vai assistir Barbie, talvez seja melhor pra você.

Predador não é mais só um monstro que perseguem humanos no filme e são derrotados por eles no final. Agora, os Predadores tem identidade, historia, cultura e clãs. O Predador finalmente é o protagonista de verdade da sua propria franquia. Assista, você não vai se arrepender.

Predador Badlands está disponível no Disney Plus


domingo, fevereiro 15, 2026

Carnaval


Acordei e percebi antes mesmo de olhar o celular.
A rua estava diferente, mais barulho, mais gente passando, uma música distante atravessando a janela. Aquela mistura de som ruim com empolgação alheia. Carnaval.

Peguei o celular quase no automático. Instagram aberto. A mesma sequência de sempre: fantasia, glitter, copo na mão, legenda falando de felicidade, liberdade, melhor época do ano. Todo mundo parecia vivendo algo grandioso, todo mundo parecia muito certo de estar no lugar certo.

Fechei o Insta.
Não por raiva.
Nem por desprezo.
Simplesmente por falta de paciência

Teve um tempo em que eu estaria ali no meio, planejando roupa, combinando com amigos, esperando a hora de sair. Indo porque todo mundo ia, bebendo porque era o clima, ficando até tarde porque parecia errado ir embora cedo. Quando eu namorava, tudo fazia mais sentido, a confusão era dividida, o barulho era compartilhado, a muvuca virava história pra contar depois, a festa parecia maior quando tinha alguém do lado. Ao mesmo tempo era terrível, andar com namorada no meio da muvuca, com um monte de gente pelada e bêbada. Péssima experiencia, não recomendo.

Bom, hoje, é diferente a sensação.
Hoje eu olho pra isso tudo e sinto… nada.
Não sinto vontade, não sinto falta, não sinto inveja. Sinto paz e alivio por não estar lá.

A ideia de ficar espremido, suado, tentando ouvir alguém falar no meio da música alta, me dá preguiça. Bebida já não anima, acordar mal no outro dia não compensa,  perder tempo fingindo empolgação não vale mais o esforço.

Enquanto a cidade acelera, eu desacelero. Bebo café, abro a janela, escuto o barulho de longe, como se fosse outro mundo. Sento, pego um livro, organizo um pensamento, anoto uma ideia. O silêncio vira companhia, a rotina vira abrigo e tá tudo bem. E, curiosamente, isso hoje me faz mais feliz do que qualquer bloco.

Não é que eu tenha virado chato.
É que eu virei honesto comigo.

Percebi que muitas vezes eu ia porque “tinha que ir”, porque era feio ficar em casa, porque parecia errado não postar nada, porque dava a impressão de estar ficando pra trás.

Mas pra trás de quê?

Hoje, ficar em casa é escolha, não é fuga, não é tristeza, não é isolamento, é consciência. É saber que nem toda festa é pra você, e que tá tudo bem.

Também tem outra coisa que quase ninguém fala. Ficar fora da festa é, às vezes, uma forma de evitar encontros desnecessários. Rostos que já fizeram parte da sua vida, histórias que você achou que tinha encerrado, conversas que não quer mais ter. O Carnaval mistura todo mundo no mesmo espaço, como se o passado e o presente fossem obrigados a conviver e hoje, eu prefiro não testar isso.

Lá fora, o Carnaval segue. Colorido, alto, exagerado, intenso, gente rindo, gente tropeçando, gente vomitando, gente comendo gente, prometendo coisas que não vão lembrar amanhã. Aqui dentro, eu sigo diferente, quieto, inteiro, presente. Sem glitter. Sem copo. Sem foto. Mas em paz. 

E, pela primeira vez, sinto que não estou perdendo nada.

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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Vidas Secas

Vidas Secas é um daqueles livros que enganam pelo tamanho, pois são poucas páginas, capítulos curtos, linguagem direta. Na teoria, era pra ser uma leitura rápida mas na prática, foi o contrário, demorei mais nesse livro do que em muitos com trezentas páginas. Não porque ele seja emocionalmente pesado o tempo todo. Tirando a parte da Baleia, que dói de verdade, o resto é seco, frio, quase distante. O peso aqui não é sentimental é mental porque o livro exige atenção, tradução, interpretação e nada vem mastigado, você precisa trabalhar enquanto lê e isso cansa.

Fabiano, o protagonista, não é herói, não é exemplo, não é vencedor, é só um homem tentando sobreviver, sem estudo, sem proteção, sem sorte. Trabalha em uma terra que não é dele, vive endividado, é explorado, enganado, humilhado, e continua simplesmente porque não tem opção.

A cena com o Soldado Amarelo resume bem isso. Fabiano é provocado, apanha, é preso injustamente e depois pensa em vingança, imagina usar o facão, sente raiva. Em vários momentos, eu cheguei a achar que ele tinha matado o soldado. O texto é tão imerso na cabeça do personagem que a gente confunde pensamento com ação, mas não, ele não faz nada. Ele engole a raiva e segue a vida. (Precisei ler o capitulo mais de uma vez pra entender isso)

E isso talvez seja a parte mais dura do livro. Fabiano nunca reage de verdade. Nos negócios, é sempre passado pra trás, não entende contas, juros, acordos. Confia, perde, trabalha mais e continua pobre. A família mal conversa, os filhos nem nome têm. São “o mais novo” e “o mais velho”. É como se nem tivessem identidade ainda. Sinhá Vitória sonha com uma cama, não com riqueza, não com luxo, simplesmente uma cama melhor. Esse detalhe diz tudo sobre o nível de privação daquela vida.

A seca não é só cenário, é personagem e ela manda em tudo, decide quando a família anda, quando para, quando passa fome, quando foge. E eles fogem o tempo todo. O mais simbólico é o final. O livro termina como começa. A família indo embora, de novo, em busca de uma vida melhor que talvez nunca venha, ou seja, nada mudou, só o tempo passou. É o ciclo da miséria.

Quando terminei, entendi por que esse livro é tão importante. Não é uma história “bonita”, não é confortável, não tenta emocionar fácil, ele mostra a pobreza sem romantizar, mostra a exclusão sem discurso, mostra a injustiça sem panfleto. Só mostra e deixa você lidar com isso.

No começo, confesso que achei difícil, arrastado, complicado demais pra tão poucas páginas. Voltei capítulos, reli trechos, me perdi em palavras do sertão e situações, mas, no final, fez sentido e acredito que era pra ser assim, não era pra fluir, era pra incomodar. Vidas Secas não é um livro pra gostar, é um livro pra entender e depois que você entende, ele fica com você.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

A ilusão do empreendedor solo


Durante muito tempo, venderam a ideia de que ser empreendedor é ser livre. “Seja seu próprio chefe”, “faça seu horário”, “trabalhe pra você”. Parece bonito, libertador, parece a saída perfeita pra quem não quer viver preso a chefe, empresa ou rotina engessada. Eu também acreditei nisso.

Na prática, ser empreendedor solo é descobrir que você troca um chefe por vários. Plataforma, cliente, taxa, algoritmo, entrega, boleto, fornecedor, prazo, humor do mercado. Todo dia alguém manda em você, só não é a mesma pessoa.

Você acorda pensando em custo, dorme pensando em conta, abre o aplicativo e já sabe que vai ter surpresa, taxa que muda, regra nova, comissão maior, frete absurdo, e você não decide quase nada, só se adapta. A tal “liberdade” vira sobrevivência.

Tem o cansaço físico, claro, mas o pior é o mental, é estar sempre ligado, sempre alerta, sempre preocupado, mesmo nos dias sem venda, o peso continua. Aluguel não tira folga, cartão não espera, boleto não entende “fase ruim”. E tem a solidão.

Ninguém vê o bastidor, ninguém vê você fazendo conta na madrugada, ninguém vê você refazendo preço dez vezes, ninguém vê a ansiedade antes de abrir o app. As pessoas só conseguem enxergar que você tem um negocio próprio, é empresário. Parece sucesso, mas por dentro, muitas vezes, é só resistência.

Empreender sozinho é ser marketing, financeiro, atendimento, produção, entrega, suporte técnico e psicólogo de si mesmo, tudo ao mesmo tempo, sem garantias, sem salário fixo e principalmente sem aplauso. E mesmo assim, você continua. Não porque é fácil. Porque é o que tem.

E ainda tem as críticas. Sempre tem. Vêm de gente próxima, de amigo, de parente, de quem acompanha de fora, gente que opina, cobra, compara, questiona, diz o que você deveria fazer, como deveria fazer, por que não deu certo, mas que nunca teve coragem de tentar, nunca abriu um negócio, nunca arriscou o próprio dinheiro, nunca perdeu sono por causa de conta, nunca sentiu o peso de depender só de si. É fácil apontar quando não se está no campo.

Com o tempo, eu entendi, o problema não é empreender, o problema é romantizar. Vender como sonho algo que, na prática, é luta diária, é adaptação constante, é cair e levantar sem plateia. Eu não me arrependo de tentar, aprendi muito, cresci, fiquei mais forte, mais realista também. Hoje eu não compro mais fantasia.

Ser empreendedor solo não é glamour. é coragem silenciosa e, às vezes, só isso já é vitória.

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terça-feira, fevereiro 10, 2026

O que a leitura me ensinou

O que a leitura me ensinou num dos anos mais difíceis da minha vida


Eu não comecei a ler mais para virar “culto”, nem para postar foto com livro na mão. Comecei a ler porque precisava aguentar a vida, simples assim. Em um dos anos mais difíceis da minha vida, a leitura virou abrigo, um lugar silencioso no qual conseguia respirar quando tudo fora dali parecia pesado demais.

Teve livro que me abraçou, teve livro que me deu tapa na cara, teve livro que me deixou confuso e teve livro que me fez parar no meio da página e pensar: “caramba, isso aqui sou eu”. Em vários momentos, eu não estava lendo personagens, estava lendo versões minhas, espalhadas em histórias diferentes.

Kafka, por exemplo, me mostrou como alguém pode virar peso sem perceber. Vidas Secas me jogou na cara o quanto a vida pode ser dura com quem só tenta sobreviver. Psicologia Financeira me fez entender que sucesso não é só mérito e fracasso não é só culpa. Dale Carnegie me lembrou que, no meio de tudo isso, ainda vale a pena ser humano.

O curioso é que livro bom não serve para confortar o tempo todo, ele revela, as vezes machuca, as vezes incomoda e as vezes desmonta certezas. O capítulo da Baleia, o destino do Gregor, as histórias de gente que caiu e levantou, tudo isso foi entrando aos poucos, como se cada autor estivesse dizendo: “olha, a vida é isso aqui mesmo. Confusa. Injusta. Insegura. E ainda assim, dá pra seguir”.

A leitura me ensinou paciência, ensinou perspectiva, ensinou a parar de me comparar com versões editadas da vida dos outros. Ensinou-me que quase todo mundo está lutando alguma batalha silenciosa, e principalmente, me ensinou que eu não estou sozinho nas minhas dúvidas, nos meus medos e nas minhas tentativas de não desistir.

Teve dias em que eu estava cansado, desanimado, sem vontade de nada, mas mesmo assim, eu abria um livro. Nem sempre para entender tudo, as vezes só para não afundar nos próprios pensamentos. Ler virou uma forma de organizar o caos por dentro.

Hoje eu sei, eu não leio por hábito. Eu leio por sobrevivência emocional, leio para continuar lúcido, leio para não esquecer quem eu sou no meio da confusão. Leio porque, enquanto eu puder sentar, abrir um livro e refletir sobre o que estou vivendo, eu ainda estou no jogo. E, pra mim, isso já é muita coisa.

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domingo, fevereiro 08, 2026

Super Bowl 2026


Hoje é o grande dia!
Domingo, 8 de fevereiro de 2026.

Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia, está pronto para receber a final mais aguardada da temporada: New England Patriots x Seattle Seahawks 

O Super Bowl LX

Depois de uma longa temporada, essas duas franquias tradicionais da NFL chegam a este momento com histórias diferentes, muita esperança e uma chance de acrescentar mais um capítulo inesquecível à rica narrativa do futebol americano.

O Levi’s Stadium, casa dos San Francisco 49ers, recebe mais uma vez a grande final da NFL, reunindo torcidas, emoção e espetáculo. Para além do jogo, um dos momentos mais aguardados é o show do intervalo, que promete ficar na memória dos fãs, comandado por Bad Bunny, responsável por transformar o meio do jogo em um grande evento musical.

Dois times, duas trajetórias

Os New England Patriots chegam ao Super Bowl pela primeira vez em vários anos em uma fase pós-era Brady-Belichick, mas com tanta tradição quanto sempre tiveram. A franquia já participou de 12 Super Bowls, conquistando o título em seis oportunidades, um dos maiores legados do esporte, e agora busca o sétimo troféu, um recorde histórico que os tornaria ainda mais gigantes na NFL.

Do outro lado está o Seattle Seahawks, que volta à final com uma equipe renovada, liderança defensiva forte e um ataque consistente, prontos para tentar a sua segunda conquista do sonhado troféu. Eles já foram campeões anteriormente e chegam aqui com confiança e um time equilibrado, pronto para desafiar a tradição dos Patriots.

Vale lembrar que os Seattle Seahawks conquistaram apenas um Super Bowl em sua história, no Super Bowl XLVIII, em 2014, quando atropelaram o Denver Broncos por 43 a 8, em uma das finais mais dominantes da NFL. Foi o auge da era da “Legion of Boom” e o momento em que Seattle entrou de vez na elite da liga. Desde então, o time busca repetir aquele feito, enquanto encara agora os New England Patriots, uma das franquias mais vitoriosas da história, em mais um capítulo decisivo dessa trajetória.

Reencontro histórico

O encontro de hoje tem um sabor especial porque é uma revanche de um Super Bowl icônico de mais de uma década atrás. No Super Bowl XLIX, disputado em fevereiro de 2015, os Patriots derrotaram os Seahawks por 28 a 24 num dos jogos mais memoráveis da história da liga, marcado pela lendária interceptação de Malcolm Butler na linha de uma jarda, um momento que entrou para o folclore do esporte.

Naquele jogo, Brady comandou a vitória com precisão cirúrgica e foi eleito MVP, consolidando ainda mais seu legado como um dos maiores de todos os tempos. Hoje, sem a presença dele em campo, os Patriots buscam provar que a tradição e a cultura vencedora que ele ajudou a construir continuam vivas.

Tom Brady: o maior de todos

E por falar em legado, é impossível falar de Patriots sem mencionar Tom Brady, consistentemente apontado como o GOAT, o maior de todos no esporte. Com sete anéis de Super Bowl (seis com New England e um com Tampa Bay), Brady transformou o que significava excelência na NFL.

O mais emocionante deste Super Bowl é ver o franquia que ele ajudou a elevar ao panteão do futebol americano chegar à final novamente, sem sua estrela maior em campo, mantendo viva a chama da sua grande era. Isso mostra que o espírito do time não foi apenas um momento histórico, foi uma cultura que ainda pulsa forte, e claro, torcemos muito para que os Patriots consigam agora o título em cima de seus rivais de longa data.

Nossa torcida está definida

Hoje, nossa camisa é New England Patriots. Não porque Tom Brady não está em campo, mas porque a história deles é história do esporte. Porque, mesmo em fase de renovação, eles continuam carregando tradição, garra e a ambição de escrever mais um capítulo glorioso. Torcemos para que o relógio pare a nosso favor, para que esse título também se junte à rica galeria de conquistas da franquia.



quarta-feira, fevereiro 04, 2026

WWE e o Poder do Marketing


Assistir à WWE hoje é menos sobre luta e mais sobre fenômeno cultural. A gente sabe que é encenado, combinado, roteirizado, mesmo assim, funciona e funciona em um nível impressionante.

O que mais chama atenção não é nem o ringue, mas o público pois por onde a WWE passa, as arenas estão sempre lotadas. Episódios semanais em cidades diferentes, gente vibrando como se fosse final de campeonato. É uma legião de fãs que se reconhece, participa e faz parte do espetáculo. A luta acontece no ringue, mas a energia vem das arquibancadas.

Nos grandes eventos, isso fica ainda mais evidente. A WWE deixou de ser algo restrito aos Estados Unidos faz tempo. Hoje ela leva seus principais shows para fora do país, ocupando mercados enormes. Ver um Royal Rumble acontecer em Riad, na Arábia Saudita, com uma arena construída para o evento e completamente cheia, mostra o tamanho dessa marca e isso não é comum nem em esportes tradicionais.

Quando os eventos são em território americano, o impacto é o mesmo. A maioria dos main events não acontece mais em arenas fechadas, mas em estádios gigantes, daqueles usados por ligas esportivas de ponta. Fazendo isso, a WWE se coloca no mesmo patamar de finais históricas e grandes shows globais.

E talvez o mais bonito seja ver o público vibrando não só com as grandes lendas, mas também com nomes menos conhecidos. A torcida canta, reage, se envolve e não é apenas sobre quem está lutando, é sobre estar ali, fazendo parte daquele ritual coletivo. Dá gosto de ver porque é entretenimento vivo mesmo sabendo que não é real no sentido esportivo, a emoção é real, a reação é real, o engajamento é real e poucas marcas no mundo conseguem isso.

No fim, assistir à WWE hoje é testemunhar uma aula de marketing, construção de marca e conexão com o público pois os bilhões de dólares explicam parte do sucesso. Mas o que sustenta tudo isso são pessoas felizes, gritando, torcendo e acreditando nem que seja por algumas horas naquele espetáculo.

E isso, por si só, já vale a experiência.

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Dinheiro Suspeito

Dinheiro Suspeito é daqueles filmes que prendem do começo ao fim não pelo espetáculo, mas pelo jogo moral que constrói o tempo todo. A trama gira em torno de mentiras, enganações e desconfiança. Ninguém confia em ninguém. Todos mentem para descobrir quem é o X9, quem está manipulando quem e, principalmente, quem vai ficar com o dinheiro. Cada diálogo parece ter uma segunda intenção, e o espectador entra nesse jogo junto, desconfiando de todos.

Mas o filme vai além do suspense criminal. Ele bate forte no dilema da polícia quando dinheiro sujo é apreendido. A questão aparece várias vezes de forma incômoda mencionando salários baixos, contas para pagar, um sistema que não recompensa quem faz tudo certo. O dinheiro está ali, ninguém “oficialmente” vai sentir falta e aí surge a pergunta que o filme nunca responde de forma fácil.

E se fosse com você?
Você ficaria com o dinheiro?
Trairia seus companheiros?
Justificaria o erro dizendo que o sistema já é injusto?

O mérito do filme está em não transformar isso em discurso raso. Ele mostra como a tentação nasce, cresce e contamina tudo ao redor. Mesmo quem tenta fazer a coisa certa passa a ser corroído pela dúvida e o dinheiro vira um teste de caráter, não de coragem. O final funciona muito bem justamente por isso, mostra que o crime não compensa, que escolhas têm consequências e que nem todo mundo está disposto a cruzar certas linhas. E a revelação de quem realmente estava por trás das falcatruas é surpreendente, sem soar forçada.

O elenco também merece destaque. Ben Affleck e Matt Damon funcionam juntos com uma naturalidade absurda, passando a sensação de parceria antiga (é verdade), confiança frágil e tensão constante, mas chama atenção mesmo como o filme usa bem o elenco de apoio. A personagem que fica dentro da casa, inicialmente cercada de suspeitas, é interpretada por Sasha Calle, a mesma que fez a Supergirl em The Flash. Confesso que não reconheci, achei completamente diferente, ela passa despercebida no começo e só depois você percebe a força da atuação. É aquele tipo de elenco em que ninguém está ali só pra cumprir função, todo mundo ajuda a sustentar o jogo de mentiras, o clima de paranoia e a sensação de que qualquer um pode estar escondendo algo.

É um filme que respeita o espectador e não glamouriza o crime, não entrega respostas fáceis e não trata moral como algo preto no branco. Termina deixando reflexão, não alívio vazio. Gostei do início ao fim, é um filme sobre dinheiro, sim, mas principalmente sobre decisões, lealdade e o preço de tentar atalhos quando a vida aperta.

Filme disponivel na Netflix.

sábado, janeiro 31, 2026

O Enigma do Horizonte

Assisti O Enigma do Horizonte com a sensação de ter assistido a algo estranho, desconfortável e justamente por isso, interessante. A atmosfera do filme lembrava os filmes da franquia Alien

O filme é um terror espacial assumido mas não daquele tipo que vive de susto fácil, mas de clima. A nave não é só cenário, ela vira personagem. O espaço não aparece como lugar de descoberta ou encanto, mas como ambiente hostil, silencioso e mentalmente corrosivo. Ali, o medo não vem de fora apenas, vem de dentro.

A história não se preocupa em explicar tudo com clareza. Algumas coisas ficam soltas, outras são apenas sugeridas e isso pode incomodar quem gosta de respostas fechadas. Mas funciona para quem aceita a ideia de que, no espaço, o desconhecido não precisa ser totalmente compreendido para ser assustador.

O que mais funciona no filme é a atmosfera. O isolamento, os corredores escuros, os sons estranhos e a sensação constante de que algo está errado constroem um terror mais psicológico do que gráfico. É um filme que aposta mais na tensão do que na lógica e digo novamente, você fica esperando que a qualquer momento vai sair um xenomorfo e detonar toda tripulação

O filme não é perfeito e você sente que envelheceu em alguns aspectos técnicos e narrativos, talvez por ser de 1997, mas isso não é desculpa. Ainda assim, tem identidade própria e uma proposta clara que mistura ficção científica com horror de forma ousada, sem tentar agradar todo mundo.

No fim, é aquele tipo de filme que você não assiste esperando conforto, assiste porque gosta de naves, do espaço e da ideia de que o desconhecido pode ser perturbador. Estranho, sim. Mas marcante.

O filme está disponivel na NETFLIX.

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terça-feira, janeiro 20, 2026

A Metamorfose - Franz Kafka

Terminei A Metamorfose com uma sensação estranha. Durante boa parte da leitura, a impressão foi simples e direta pois achei o livro chato, repetitivo e, em muitos momentos, sem sentido.

Dividido em três partes, o começo é esquisito. Gregor acorda transformado em um inseto grotesco e ninguém reage com o espanto que seria esperado. A família parece aceitar aquilo como um problema doméstico, quase como se fosse uma fase incômoda da vida, algo a ser administrado. Não há choque, não há desespero real, só adaptação e isso causa estranhamento, porque quebra qualquer lógica narrativa tradicional.

A segunda parte é ainda mais cansativa. Kafka passa páginas e páginas falando de móveis sendo retirados, objetos mudando de lugar, do quarto se esvaziando. Parece que nada acontece. Gregor anda pelas paredes, pelo teto, mesmo sendo um corpo que mal consegue se mover. Tudo soa repetitivo, arrastado, quase irritante. É fácil perder a paciência ali.

Mas o livro não está interessado em ser agradável. É só na terceira parte que tudo se encaixa. E encaixa com violência silenciosa.

A família já não reage, já não tenta entender pois a transformação vira rotina. Gregor deixa de ser problema e passa a ser peso. Até que, num momento aparentemente banal, ele provoca a perda dos inquilinos da casa. É aí que a sentença é dada. A irmã, que antes cuidava dele, verbaliza o que todos já sentiam, que aquilo já não era mais o irmão, era algo a ser eliminado.

Não há assassinato explícito. Não há ódio. Há cansaço. E isso é muito pior.

É nesse ponto que o livro deixa de ser “chato” e passa a ser brutal. Porque a história não é sobre um homem que vira inseto, é sobre um ser humano que perde sua função. E, ao perder a função, perde também o lugar, o afeto e o direito de existir.

Kafka escancara uma ideia desconfortável, o valor do indivíduo, para a sociedade e até para a família, está profundamente ligado à sua utilidade. Enquanto Gregor sustenta a casa, ele é tolerado, respeitado, necessário. Quando isso acaba, ele vira fardo, e fardos são descartados.

O mais importante de A Metamorfose não está na leitura em si, mas no que ela provoca depois. O livro não emociona, não empolga e não entretém, ele incomoda. E só faz sentido quando toca em algo real. Quando o leitor se reconhece, ainda que contra a própria vontade. Porque, em algum momento da vida, muita gente se sente como Gregor, sem função clara, dependente, pesando para os outros, invisível. E a pergunta que fica não é literária, é humana:

O quanto do nosso valor está condicionado ao que entregamos?

Kafka não oferece resposta.
Ele apenas mostra o resultado quando essa lógica vence.
Talvez por isso o livro seja difícil de gostar.
Mas impossível de ignorar depois que faz sentido.

O final do livro pega justamente porque ele não oferece catarse. Não há redenção, não existe aprendizado bonito e muito menos a sensação de que “vai ficar tudo bem”. Kafka apenas mostra o que acontece quando alguém é reduzido a peso e quando essa ideia atinge quem já se sentiu assim em algum momento da vida, pois o impacto vem forte, quase físico. 

A história termina deixando o peso onde ele caiu e por isso que faz o livro incomodar tanto.

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domingo, janeiro 18, 2026

O Silencio


Silêncio não é ódio. É desligamento.

Não é raiva.
Raiva faz barulho.
Raiva pede palco, resposta, explicação, confronto.

O que vem depois é outra coisa.
Silêncio não nasce da força, nasce do cansaço.
Cansaço de tentar caber, de traduzir sentimento, de explicar o óbvio para quem nunca quis entender.

Quando fiquei em silêncio, não foi estratégia.
Foi limite.

Não foi castigo, foi economia.
Economia de energia, de palavras, de expectativa.
O desligamento não acontece de uma vez.
Ele começa no corpo.
Um aperto no estômago.

Um enjoo estranho.
Uma vontade de virar o rosto.
Uma preguiça emocional que não tem mais volta.

A gente não odeia quem se desligou.
A gente só não consegue mais sustentar.

Silêncio também é resposta porque ele diz tudo sem precisar ferir.
Diz “não me cabe mais”.
Diz “não quero”.
Diz “não preciso”.
Diz “já foi”.

Quem confunde silêncio com fraqueza ainda vive da reação do outro.
Quem aprende o silêncio já entendeu que nem tudo precisa de desfecho público.

Desligar não é apagar o que existiu.
É parar de alimentar o que machuca.

E talvez esse seja o gesto mais honesto que alguém pode fazer consigo mesmo
Não gritar, não atacar, não provar nada.
Apenas soltar.

O resto se resolve no tempo.

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quinta-feira, janeiro 15, 2026

Guerras Secretas - 1984


Guerras Secretas é uma daquelas histórias que todo fã da Marvel acaba lendo mais pela fama do que pela promessa de uma grande narrativa. Ela é importante, histórica, marcou época e mudou coisas fundamentais no universo Marvel, mas relendo hoje fica claro que o peso histórico não se traduz, necessariamente, em uma boa história.

Parte disso se explica pela própria origem do projeto. Guerras Secretas foi encomendada para a criação e venda de action figures. A ideia veio do departamento comercial, e o roteiro precisou se adaptar a isso. Era necessário colocar o máximo possível de heróis e vilões juntos, em um mesmo cenário, lutando entre si. O resultado é uma história que parece muito mais uma grande arena de batalha do que uma narrativa bem construída, o que ajuda a entender a simplicidade do enredo e a previsibilidade dos conflitos.

A premissa é direta ao extremo quando heróis e vilões são levados para um planeta artificial, precisam lutar, e o vencedor teria seus desejos atendidos. Não há grandes reviravoltas, nem camadas morais mais profundas. Os vilões são chatos e previsíveis, mas cumprem sua função básica de gerar confrontos, porem, eles não empolgam, mas são necessários para movimentar a trama.

Um dos pontos mais frustrantes da leitura é o tratamento dado ao Beyonder. Muito se falou dele na divulgação da época, foram lançados bonecos e criado todo um mistério em torno da entidade, mas, na prática, ele quase não aparece de forma ativa na história. O Beyonder funciona mais como um conceito abstrato, uma força observadora que manipula o tabuleiro à distância. A Marvel só viria a desenvolver o personagem de maneira mais concreta em histórias posteriores. Isso cria um descompasso claro entre o que foi vendido no marketing e o que o roteiro entrega, o que gera uma sensação legítima de frustração.

O final da história segue essa mesma linha de decepção. Tudo se resolve de maneira rápida, simples e até estranha. O Beyonder recuperar seus poderes era algo esperado, mas a forma como isso acontece carece de impacto. A sensação é de encerramento apressado, sem um clímax realmente marcante.

A arte também reflete o período em que a HQ foi produzida. Os desenhos são simples, funcionais e claramente datados. Não chegam a comprometer a leitura, mas também não impressionam. Dentro do contexto de 1984, cumprem seu papel, mas estão longe de serem memoráveis.

Entre os pontos positivos, o grande destaque vai para o Capitão América. A liderança dele é impecável do início ao fim. Ele toma decisões difíceis, assume responsabilidades e enfrenta um destino praticamente onipotente sozinho, sem discurso vazio ou heroísmo exagerado. Ele simplesmente faz o que precisa ser feito. É o tipo de atuação que reforça por que ele é um dos pilares morais do universo Marvel.

Reed Richards também rouba a cena em diversos momentos. Inteligente, estratégico e racional, ele deixa claro por que é o líder natural do Quarteto Fantástico. Sempre que Reed e Capitão América estão em evidência, a história ganha outro nível. Fica evidente que eles não são líderes por acaso, mas porque entendem o jogo melhor do que todos ao redor.

O surgimento do uniforme negro do Homem-Aranha, apesar de icônico historicamente, é narrativamente fraco. Não há impacto emocional nem grande construção. O uniforme surge de forma quase banal, quando Peter Parker manda fazer outro na máquina errada apenas porque seu traje havia sido danificado. Ai ele recebeu o simbionte sem querer. O peso simbólico desse uniforme só seria explorado de verdade em histórias posteriores. Obs: nós sabemos que é o simbionte, na historia, não existe nada disso, nenhuma referencia do que realmente aconteceu.

A participação dos X-Men também causa estranhamento. A falta de ação e negligencia  inicial do grupo e a aliança com Magneto são pouco explicadas e carecem de coerência. Fica a sensação de que suas ações foram definidas mais por conveniência de roteiro do que por motivações bem trabalhadas. Xavier negou ajuda aos Vingadores simplesmente porque quis.

A presença de Galactus ajuda a reforçar o clima de guerra total e de mundo hostil, no qual ninguém está realmente seguro. Esse aspecto funciona bem e contribui para a sensação de conflito em larga escala. Um detalhe importante, muitas vezes ignorado, é o papel da alienígena Zsaji. Sem ela, os heróis simplesmente teriam perdido. Ela cura diversos personagens ao longo da história e, no final, sacrifica a própria vida para salvá-los. É um sacrifício silencioso, pouco celebrado, mas absolutamente decisivo para o desfecho.

Outro ponto que chama atenção é o uso completamente irregular de personagens, como a Mulher-Aranha e o Homem de Gelo. A Mulher-Aranha simplesmente aparece no Mundo Bélico usando um uniforme negro, extremamente forte, participando dos conflitos como se sempre tivesse estado ali, sem qualquer explicação prévia ou contextualização mínima. Nenhum herói a conhecia e ela foi trazida pra muvuca aleatoriamente. Ela surge do nada, age como peça importante em alguns momentos e pronto, o leitor que aceite. 

Já o caso do Homem de Gelo é ainda mais estranho. Diferente de outros personagens esquecidos pelo roteiro, ele nem sequer foi teletransportado para o Mundo Bélico. Ele simplesmente não faz parte da história, não aparece, não é citado e não tem qualquer participação. Ainda assim, ganhou action figure vinculada a Guerras Secretas, o que deixa claro que não se trata de uma falha narrativa pontual, mas de uma decisão puramente comercial. A linha de brinquedos precisava representar o “universo Marvel” como um todo, independentemente da coerência interna da HQ. Esses exemplos deixam evidente como o evento priorizou a vitrine de personagens em detrimento de uma construção narrativa consistente, reforçando a sensação de que a história foi moldada mais para o marketing do que para o roteiro. Obs: eu comprei essa versão do homem de gelo, é maravilhosa e no encarte esta escrito que ele tem participação na historia porem ele não esta la. Ate agora to sem entender.

No fim das contas, Guerras Secretas é mais importante pelo que representou e pelo que gerou depois do que pela história que conta. Como marco histórico, é fundamental. Como narrativa, é fraca e simplista. Por isso, a nota final fica em 3,5 de 5, não por causa da arte, mas principalmente pelo roteiro raso e pelo desfecho estranho e decepcionante e pequenas falhas.

Vale a leitura pelo contexto e pela importância histórica, mas é bom ajustar as expectativas. É um clássico, sem dúvida. Uma grande história, nem tanto.

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quarta-feira, janeiro 14, 2026

Descondicionamento



Não sinto falta de migalhas.
Nem do mínimo.
Nem da confusão disfarçada de intensidade.

Não sinto falta da incoerência.
De hoje ser uma coisa
E amanhã outra completamente diferente.
De nunca saber onde está pisando.

O cenário era um caos, sim.
Instável, imprevisível.
E viver tentando organizar sozinho
Algo que nunca foi consistente.

A saudade que aparece não é da pessoa.
É do intervalo entre os conflitos.
Do silêncio depois da briga.
Da falsa sensação de que, se eu insistisse mais um pouco,
Dessa vez iria se sustentar.

Precisei cobrar o básico.
E precisei cobrar constância.
E precisei cobrar coerência.
E isso, por si só, já diz tudo.

Hoje consigo entender
Não perdi paz, perdi hábito.
Não perdi amor, perdi costume.
Não perdi futuro, perdi uma ilusão.

Não é falta.
É descondicionamento.

E passa.
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terça-feira, janeiro 13, 2026

O livramento que quase não percebi


Por pouco eu fiz a maior besteira da minha vida achando que era amor.

Por pouco eu mudei tudo acreditando que estava salvando uma relação, quando, na verdade, eu estava me apagando para caber.

Não foi uma decisão simples, nem repentina.
Foi pressão aos poucos.
Disfarçada de escolha.
Disfarçada de “se você quisesse, faria”.
Disfarçada de amor.

Mudar de cidade.
Largar o que eu tinha construído.
Recomeçar do zero em um lugar que nunca foi meu.
Tudo isso como prova de sentimento, enquanto eu sentia, cada vez mais, que estava sendo colocado contra a parede.

Não era convite.
Era ultimato.

Hoje eu consigo ver com clareza o roteiro que estava se formando.
Eu iria.
No começo, tudo pareceria certo.
Depois viriam as cobranças, as implicâncias, os jogos emocionais.
Eu começaria a andar pisando em ovos.
A me defender por existir.
A grilar.
A reagir.

E, como sempre acontece nesses casos, o papel já estava reservado
O vilão seria eu.

Não seria um término simples.
Seria um desgaste calculado.
Até eu cansar.
Até eu desistir.
Até eu sair quebrado, confuso, sentindo culpa por algo que nunca foi só meu.

Eu voltaria para casa dos meus pais pela segunda vez.
Mais destruído do que estou hoje.
Carregando a sensação de fracasso, não só de um relacionamento, mas de mim mesmo.

E o mais duro de admitir
enquanto eu ainda tentava salvar, entender, insistir…
já existiam substituições sendo testadas.
Outras opções sendo alimentadas.
Outros planos sendo preparados em silêncio.

Isso não começou ontem.
Só terminou ontem.

O cara novo não é o ponto central dessa história.
Ele é só a prova de que o desfecho já estava desenhado.
Enquanto eu pensava em mudar minha vida inteira, o outro lado já ensaiava o próximo capítulo.

Não foi um fim bonito.
Não foi limpo.
Não foi justo.
Mas foi um livramento.

Um livramento que dói, porque não veio com alívio imediato.
Veio com raiva, frustração e sensação de perda.
Mas, ainda assim, livramento.

Algumas coisas não dão certo para não acabar com a gente.
Algumas portas se fecham porque, se tivessem sido atravessadas, o estrago seria maior do que a dor de agora.

Hoje eu entendo
Não perdi uma vida.
Escapei de perder a minha.

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segunda-feira, janeiro 12, 2026

Quando a ficha cai tudo faz sentido


Eu aguentei pressão por meses.

Pressão financeira, pressão emocional, pressão dentro de casa, pressão de tentar manter algo que já estava se desfazendo sem eu perceber.

Enquanto eu tentava consertar, ela trocava meu nome.
Enquanto eu insistia, ela mandava mensagem errada pra mim que era pra outro cara.
Enquanto eu me explicava, ela ameaçava arrumar outro, me trocar como se eu fosse um objeto, como se eu tivesse que aceitar qualquer coisa pra não perder.

E eu aceitei demais.

Hoje fica claro o que antes doía mas eu não queria ver
Ela já estava se desligando fazia tempo.
Não foi de ontem.
Não foi do nada.
Foi planejado em silêncio.

Esse cara não surgiu agora.
Esse cara já estava ali, sendo alimentado, sendo flertado, sendo colocado como alternativa enquanto eu ainda estava tentando ser solução.

E o mais revoltante não é só ela estar com outro.
É perceber que eu fiquei oito meses esperando, respeitando, segurando desejo, segurando impulso, segurando tudo…
pra agora ver outro cara chegar e aproveitar o que eu segurei e aguentei.

Isso dói no ego.
Dói na masculinidade.
Dói na alma.

Dá raiva. Dá nojo. Dá sensação de ter sido feito de otário.

Ela posa de vítima, mas eu vejo agora
Pra sair limpa, alguém precisava ser o vilão.
E esse alguém fui eu.

Enquanto eu apanhava emocionalmente, ela se preparava pra cair na lábia de outro.
E caiu.

Não é amor.
É vazio.
É fuga.
É troca rápida pra não lidar com nada.

Mas saber disso não tira a dor.
Saber disso não apaga a imagem.
Não apaga o coraçãozinho.
Não apaga o fato de que hoje sou eu aqui, tentando respirar, enquanto outro cara tá se beneficiando de algo que eu defendi.

Eu tô puto.
Muito puto.
E tenho direito de estar.

Não porque perdi ela.
Mas porque perdi tempo acreditando que eu era o problema, quando na verdade eu só estava atrasado pra descobrir a verdade.

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quarta-feira, janeiro 07, 2026

A Psicologia Financeira

A PSICOLOGIA FINANCEIRA
Morgan Housel

Desde as primeiras páginas de A Psicologia Financeira, ficou claro que o livro não estava interessado em ensinar ninguém a ganhar mais dinheiro. A proposta era outra. Em vez de investimento, planilha ou fórmula de sucesso, o foco estava no comportamento humano depois que o dinheiro entra em cena.

Esse estranhamento inicial não veio como rejeição, mas como alerta. O livro desmonta, com bastante naturalidade, a ideia vendida por podcasts e “especialistas” de que sucesso financeiro é resultado direto de disciplina, inteligência acima da média ou método infalível. O que mais chama atenção é o espaço que o autor dá a fatores quase sempre ignorados nesses discursos, como sorte, acaso e contexto.

Ao longo da leitura, fica evidente que genialidade não garante estabilidade financeira. Um gênio pode ser um desastre com dinheiro. Da mesma forma, uma pessoa comum, sem formação acadêmica, pode se tornar milionária dominando poucas habilidades básicas. Isso não é romantização da ignorância, é constatação comportamental.

O ponto que mais pesa é o fator sorte. Morgan Housel trata a sorte não como detalhe, mas como elemento estrutural do sucesso financeiro. Estar no lugar certo, no momento certo, com acesso às oportunidades certas, muda completamente o jogo. Ignorar isso é criar narrativas injustas e irreais.

Outro aspecto fundamental é o tempo. Não o tempo como urgência, mas como aliado silencioso. A construção de patrimônio está muito mais ligada à permanência, à paciência e à capacidade de não destruir o que foi conquistado do que a grandes decisões brilhantes. O tempo trabalha a favor de quem entende isso, e contra quem busca atalhos.

Quando o livro entra no tema dos investimentos, essa lógica fica ainda mais clara. Uma das receitas mais consistentes do sucesso financeiro é simplesmente deixar o dinheiro parado por anos, permitindo que o tempo faça o trabalho pesado. Não se trata de movimentos geniais, de acertar o momento exato do mercado ou de decisões brilhantes constantes, mas de resistir à tentação de mexer, sacar ou reinventar tudo a cada crise. O crescimento acontece devagar, quase invisível, e justamente por isso muita gente abandona o processo antes de ele mostrar resultado.

Nesse ponto, a concordância com o livro se consolida. Principalmente quando ele deixa claro que exceções não devem virar modelo padrão. Casos fora da curva não servem como regra, nem como material de estudo universal. Ainda assim, são exatamente esses casos que muitos coaches usam como prova de que “qualquer um pode”, ignorando tudo o que não cabe na narrativa de palco.

O problema não é se inspirar em histórias de sucesso. O problema é vendê-las como promessa. Quando se usa a exceção como regra, o discurso deixa de ser educativo e passa a ser enganoso.

No fim, A Psicologia Financeira não ensina como enriquecer. Ensina a pensar melhor sobre dinheiro, risco, comportamento e narrativa. E talvez seja justamente por isso que ele funcione tão bem porque não promete controle total sobre algo que nunca esteve totalmente sob controle.

domingo, janeiro 04, 2026

EUA X Venezuela


Neste fim de semana, os Estados Unidos voltaram a ocupar o papel que a América Latina conhece bem: o de força externa que decide agir militarmente em nome de uma suposta ordem maior. O alvo foi a Venezuela, e o discurso, mais uma vez, veio embalado em palavras conhecidas como democracia, estabilidade e proteção regional.

Esse roteiro não é novo. Ele vem diretamente da Doutrina Monroe, criada no século XIX sob a ideia de “América para os americanos”, mas que ao longo do tempo foi reinterpretada como “a América sob tutela dos Estados Unidos”. Sempre que interesses estratégicos entram em jogo, a soberania latino-americana vira detalhe.

No caso venezuelano, falar em interesse é inevitável. O país concentra algumas das maiores reservas de petróleo do planeta, além de recursos minerais estratégicos. Não se trata de altruísmo, nem de preocupação real com o povo venezuelano. Se fosse, a política externa americana teria outro histórico. O que move ações como essa não é a defesa da democracia, é a proteção de ativos, influência geopolítica e controle econômico.

Isso não significa ignorar quem governa a Venezuela. Nicolás Maduro é, sim, um ditador. Seu governo se sustenta com repressão, eleições questionáveis, controle institucional e perseguição à oposição. Negar isso é fechar os olhos para a realidade. Mas reconhecer a ditadura de Maduro não transforma automaticamente uma intervenção estrangeira em algo legítimo.

Ataques militares dos Estados Unidos a qualquer país latino-americano são uma afronta direta à soberania nacional e regional. A mensagem implícita é clara, que ainda existe um centro que se julga autorizado a decidir o destino dos outros. E isso carrega um peso histórico enorme para um continente marcado por golpes, intervenções e dependência forçada.

Mesmo quando há um tirano no poder, a guerra não é o caminho. Bombas não libertam povos. Sanções, invasões e operações militares quase sempre ampliam o sofrimento de quem já vive no limite. Defender esse tipo de ação como solução exige ignorar o impacto humano que vem depois. Crianças, civis, trabalhadores comuns pagam um preço que nunca entra nos discursos oficiais.

Independentemente de quem esteja certo ou errado no tabuleiro político, há um ponto que deveria ser inegociável: a vida humana não pode ser instrumento de estratégia. Quem celebra guerra, seja qual for o lado, perdeu algo essencial no caminho. Talvez empatia. Talvez memória histórica. Talvez humanidade.

A América Latina já viu esse filme vezes demais. E quase nunca termina bem para quem está do lado mais fraco da história.

sábado, janeiro 03, 2026

Correcao da Ultima Retrospectiva


Quero corrigir duas falhas que escrevi na minha ultima retrospectiva. Recebi alguns feedbacks de pessoas próximas que estavam preocupadas comigo, então resolvi pegar dois pontos principais do que escrevi antes e corrigi-los: relacionamento e financeiro. Não maquiar o que aconteceu ou que esta acontecendo mas atualizar para janeiro 2026 e expor a real situação de tudo.

Escrevi parte da minha retrospectiva durante todo ano e quando escrevi ainda estava preso a um sentimento que, na época, eu achava que era amor. Hoje entendo melhor, era apego, era medo de perder, era dificuldade de aceitar o fim.

O que vivi foi real, doeu, me marcou e exigiu mudanças profundas. Mas o tempo e os acontecimentos mostram coisas que a gente não consegue enxergar quando ainda está emocionalmente envolvido. Ver a vida seguir em direções diferentes não é fácil, mas também é esclarecedor. Algumas histórias não terminam por falta de sentimento, terminam porque não fazem mais sentido para quem a gente se tornou.

Hoje, não escrevo mais com a esperança de retorno, nem com raiva. Escrevo com lucidez. O que ficou para trás cumpriu seu papel. Agora, o compromisso é comigo, com minha reconstrução, minha estabilidade e minha paz.

O passado não precisa ser negado, mas também não precisa ser repetido.

Tive muitos problemas financeiros em 2025. Mas já to resolvendo.

Uma parte importante disso aconteceu porque tentei sustentar um relacionamento que já estava falido, mas que eu não conseguia enxergar como tal.

Passei meses viajando para outra cidade, tentando manter algo que já não me devolvia equilíbrio, apoio ou clareza. Fiz isso acreditando que era o certo, acreditando que insistir era prova de compromisso. Hoje vejo que era insistência no erro.

Trabalho com delivery e meu negócio depende diretamente de constância, ou seja, loja aberta, presença diária, manutenção de clientes. Durante esse período, fiquei fechado muitas vezes. Perdi ritmo, perdi clientes e perdi dinheiro. Não foi pontual, foi ao longo de todo o ano.

A pressão emocional, as cobranças e a instabilidade acabaram refletindo na minha saúde mental. Desenvolvi ansiedade, episódios depressivos e, mesmo estando na minha cidade, houve dias em que simplesmente não consegui abrir a loja. Não escrevo isso para transferir culpa. As escolhas foram minhas. Eu poderia ter agido diferente. Se pudesse voltar no tempo, não faria da mesma forma.

Fiz tudo acreditando que estava salvando algo. Hoje entendo que estava me afundando junto. Reconhecer isso não é rancor, é lucidez.

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quinta-feira, janeiro 01, 2026

Manual de Persuasao do FBI

Manual de Persuasão do FBI
Jack Schafer, Marvin Karlins

Terminar O Manual de Persuasão do FBI deixa uma sensação bem diferente da maioria dos livros de desenvolvimento pessoal. Não é inspirador, não é motivacional e definitivamente não tenta ser agradável. É um livro técnico, frio e direto, escrito a partir da prática, não da teoria.

Isso fica claro logo nas primeiras páginas. Não parece um livro pensado para o grande público. Em muitos momentos, a impressão é de estar lendo um material de treinamento que escapou de um ambiente interno e foi parar na livraria. Não há preocupação em suavizar conceitos nem em convencer o leitor de nada. As técnicas são apresentadas como ferramentas funcionais, usadas em situações reais, sob pressão real.

Talvez por isso ele cause certo desconforto. O livro mostra como rapport, empatia e confiança podem ser construídos de forma consciente, quase mecânica. Não como virtudes morais, mas como meios para alcançar objetivos específicos. Isso muda completamente o olhar de quem lê. Depois de alguns capítulos, fica difícil não começar a observar interações do cotidiano com mais desconfiança e, ao mesmo tempo, mais lucidez.

Ao contrário de livros como o do Carnegie, aqui a empatia não é tratada como algo nobre em si. Ela é uma habilidade operacional. Funciona porque funciona, não porque é bonita. E isso não torna o livro melhor ou pior, apenas honesto com sua origem. Ele não ensina como ser uma pessoa melhor, ensina como pessoas são influenciadas.

Por ser técnico, o livro também cansa. Há repetição, excesso de explicações operacionais e exemplos que exigem atenção constante. Não é uma leitura fluida nem leve. É um livro que pede distanciamento emocional e leitura aos poucos. Quando lido rápido demais, perde impacto e vira peso.

Ainda assim, o mérito está justamente aí. Jack Schafer e Marvin Karlins não escrevem para agradar. Escrevem para explicar como as coisas funcionam quando o objetivo é obter informação, gerar confiança ou conduzir uma conversa em ambientes de risco.

No fim, a melhor forma de ler esse livro talvez não seja tentando aplicar tudo, mas refletindo sobre o quanto dessas técnicas já fazem parte da vida comum. Quantas conversas são espontâneas e quantas são conduzidas. E, mais desconfortável ainda, quantas vezes a gente também já persuadiu alguém sem perceber.

Não é um livro para se sentir bem. É um livro para ficar atento.